
Redação Juruá Online
Produtores rurais de diversas localidades do Acre ocuparam, nesta terça-feira (17), o Salão Marina Silva, na Assembleia Legislativa do Estado (Aleac), em protesto contra as operações conduzidas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O movimento é uma reação às multas, embargos e apreensão de gado em propriedades situadas em áreas de proteção ambiental.
Empunhando cartazes de defesa do agronegócio e de repúdio à ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, os manifestantes cobraram respostas imediatas do poder público estadual. A mobilização foi tão significativa que o presidente da Assembleia suspendeu a sessão ordinária para ouvir os produtores rurais, que foram recebidos na sala das comissões.
Durante o encontro, cenas de forte emoção marcaram os relatos de pais de família que, segundo eles, tiveram sua única fonte de sustento comprometida. Um dos produtores, identificado como José, descreveu o drama vivido desde que o rebanho de sua propriedade foi apreendido pelos órgãos ambientais.
“Tenho 48 anos, trabalho desde criança na colônia. Pago a faculdade da minha filha em São Paulo, sustento meu filho em Chapuri e uma criança de um ano e um mês. Me tiraram tudo, até minhas vacas leiteiras e minhas galinhas. Eu pedi de joelhos para deixarem as vacas, que são o sustento da minha casa. Isso é angustiante, é humilhante”, relatou emocionado.
A situação, segundo José, ultrapassa o prejuízo financeiro e atinge também a dignidade e a rotina de sua família. “A bichinha [minha filha] está estressada na rua, porque não tem costume, ela é do interior. Está chorando direto, sufocada, sem um canto pra ficar. Isso é muito doloroso. Eu não tenho nem dinheiro pra comprar o leite dela, não sei o que vou fazer”, acrescentou.
O produtor explicou ainda que desde que teve seu rebanho apreendido, perdeu completamente a capacidade de sustentar a casa e custear os estudos dos filhos. “Minhas vacas leiteiras, implorei de joelhos pra eles deixarem, porque é com o leite que eu boto comida em casa, pago a faculdade dos meus filhos. Mas levaram tudo. Até minhas ovelhas, minhas galinhas prenderam”, desabafou.
Visivelmente abatido, ele questionou as autoridades presentes: “Que mundo é esse que a gente tá vivendo, meus amigos? Eu pergunto a vocês: que mundo é esse? Tem muitos aqui que são pais, avôs, sabem o que é ver um filho chorando porque não tem o básico. É angustiante. Pra quem é do interior, a gente só sabe trabalhar na terra.”
A tensão na zona rural acreana aumentou nas últimas semanas após operações do Ibama e ICMBio na Reserva Extrativista Chico Mendes e outras áreas de proteção. Os produtores afirmam que o gado apreendido está sendo enviado ao Pará para abate pela empresa JBS, prática que revoltou as famílias.
Durante a sessão na Aleac, o deputado Pedro Longo, que também é advogado e ex-juiz de direito, fez duras críticas à forma como as operações ambientais estão sendo conduzidas no Acre. Com base em sua experiência no Judiciário, ele classificou as ações como inaceitáveis. “É chocante assistir às imagens e relatos desses produtores. Vi um servidor federal se recusar a informar se a operação era administrativa ou se havia mandado judicial. Isso não é aceitável. Como advogado e ex-juiz, afirmo: não há regra que permita esse tipo de ação sem ordem judicial”, declarou.
Longo resgatou ainda o histórico das comunidades atingidas, argumentando que algumas ocupações só foram oficialmente consideradas parte da reserva anos depois. “Essa colocação, onde estão tirando as pessoas, nem fazia parte da reserva. Só se descobriu isso cerca de 10, 15 anos depois. Os moradores estavam ali de boa-fé, produzindo, trabalhando”, destacou.
Para o deputado, a solução passa pela revisão das regras federais e pelo reconhecimento do direito dos moradores ao uso sustentável da terra.
A Assembleia Legislativa informou que continuará acompanhando a situação e articulando com a bancada federal alternativas para resolver o impasse.






