O Acre enfrenta um cenário de alerta ambiental com o agravamento da seca, quase 42 mil hectares atingidos por queimadas e previsão de chuvas abaixo da média nos próximos meses. Dados de monitoramento indicam que a estiagem ganhou intensidade em setembro, enquanto projeções climáticas apontam condições desfavoráveis em parte da Amazônia até o fim de 2026.
A situação preocupa pesquisadores e órgãos de monitoramento, principalmente pelos possíveis impactos sobre a disponibilidade de água, o transporte fluvial, o abastecimento e as atividades agropecuárias. A previsão de temperaturas elevadas, associada à possibilidade de períodos mais secos, também mantém em evidência o risco de novos incêndios florestais.
Seca se intensificou em setembro
O Acre está entre os estados da Região Norte que registraram agravamento das condições de seca em setembro. Dados do Monitor de Secas, da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), apontam que a intensidade do fenômeno aumentou em até duas categorias nas áreas afetadas.
A classificação considera indicadores como o volume de chuvas, a umidade do solo e os efeitos da escassez hídrica. O monitoramento utiliza categorias que vão de seca fraca a excepcional.
Apesar da piora identificada, o levantamento não especifica quantos dos 22 municípios acreanos tiveram mudança na classificação. Também não apresenta estimativas individualizadas sobre o número de pessoas afetadas ou os prejuízos econômicos provocados pela estiagem no estado.
Mesmo sem esses dados detalhados, a redução da disponibilidade de água pode afetar diferentes atividades, especialmente aquelas que dependem dos rios para o transporte de pessoas e mercadorias, além do abastecimento e da produção rural.
Queimadas atingiram quase 42 mil hectares
Além do agravamento da seca, a extensão das áreas atingidas pelo fogo reforça a preocupação com a situação ambiental acreana.
Um levantamento do Laboratório de Geoprocessamento Aplicado ao Meio Ambiente (LabGama), da Universidade Federal do Acre (Ufac), identificou 41.963 hectares com marcas de queimadas até 15 de setembro de 2026.
A pesquisa também analisou a distribuição das áreas atingidas conforme a situação fundiária. Do total mapeado, 54% estão classificados como terras públicas e outros imóveis rurais. Projetos de assentamento e unidades de conservação representam 15% cada, enquanto imóveis certificados pelo Sistema Nacional de Certificação de Imóveis (SNCI Brasil) correspondem a 12%. As terras indígenas representam 3%.
Os pesquisadores utilizam imagens de satélite para mapear as áreas atingidas pelas chamas. O método permite identificar as chamadas cicatrizes de queimadas, que correspondem à superfície afetada pelo fogo, e não deve ser confundido com a contagem de focos de calor detectados por satélites.
O estudo também aponta que Acrelândia, Plácido de Castro e Senador Guiomard possuem menos de 30% de floresta remanescente, conforme os dados apresentados no levantamento.
Em municípios como Feijó, Tarauacá e Mâncio Lima, parte das áreas queimadas está relacionada ao desmatamento recente e ao manejo de pastagens.
Previsão aponta menos chuva e temperaturas elevadas
As projeções para o último trimestre do ano mantêm o Acre em alerta. O Painel El Niño 2026-2027, que acompanha o fenômeno climático no Brasil, indica possibilidade de precipitação abaixo da média em grande parte da Região Norte entre outubro e dezembro, incluindo o oeste acreano.
Os modelos também apontam temperaturas acima da média na Amazônia Legal durante o período. A combinação de calor intenso e menor ocorrência de chuvas pode favorecer a propagação de incêndios, sobretudo em áreas agrícolas, pastagens e regiões com vegetação suscetível ao fogo.
Outro fator acompanhado pelos especialistas é a intensificação do El Niño. As projeções analisadas no painel indicam probabilidade superior a 95% de ocorrência de um episódio muito forte do fenômeno no trimestre de outubro a dezembro.
A estimativa, no entanto, representa uma projeção climática e não significa que todas as regiões do Acre terão necessariamente as mesmas condições.
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico Equatorial e pode alterar os padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do planeta. Seus efeitos variam de acordo com a região e a época do ano.
Monitoramento será importante nos próximos meses
Apesar dos indicadores de agravamento da estiagem e da extensão das áreas queimadas, os dados disponíveis não permitem afirmar que todos os municípios acreanos enfrentarão escassez de água ou que o estado repetirá necessariamente situações registradas em anos anteriores.
A evolução do cenário dependerá das condições climáticas nas próximas semanas. O acompanhamento dos níveis dos rios, do volume de chuvas e das áreas atingidas pelo fogo será fundamental para avaliar possíveis impactos sobre a população e o meio ambiente.
Com a previsão de temperaturas acima da média e possibilidade de chuvas insuficientes em parte do território, o Acre deverá manter atenção à disponibilidade hídrica e ao risco de incêndios durante os últimos meses de 2026.





