Há 100 anos, Marie Curie visitava Belo Horizonte e deixava legado para o tratamento do câncer

Há exatos 100 anos, em agosto de 1926, Marie Curie visitava Belo Horizonte e deixava uma contribuição que ajudaria a fortalecer o tratamento do câncer no Brasil. A cientista franco-polonesa, pioneira nas pesquisas sobre radioatividade e vencedora de dois Prêmios Nobel, esteve na capital mineira nos dias 16 e 17 de agosto daquele ano.

Durante a passagem por Minas Gerais, Curie participou de encontros com médicos, pesquisadores e estudantes e doou três tubos de rádio ao Instituto do Radium, então um dos principais centros brasileiros dedicados ao tratamento do câncer.

Entre os jovens que acompanhavam a visita estavam Juscelino Kubitschek, que décadas depois se tornaria presidente da República, além dos futuros escritores Guimarães Rosa e Pedro Nava.

Viagem ao Brasil

Marie Curie chegou ao Brasil em julho de 1926, aos 59 anos, acompanhada da filha Irène Curie, que também se tornaria uma importante cientista e ganharia o Prêmio Nobel de Química em 1935.

A viagem foi uma das poucas excursões científicas realizadas por Curie fora da Europa. A cientista passou por Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, onde participou de conferências, visitou instituições científicas e foi recebida por autoridades e intelectuais.

No Rio de Janeiro, Curie ministrou uma aula inaugural na Escola Politécnica e tornou-se a primeira mulher a integrar, como membro correspondente, a Academia Brasileira de Ciências.

A viagem também tinha como objetivo ampliar a divulgação dos conhecimentos sobre a radioatividade e suas aplicações médicas, além de fortalecer a cooperação científica internacional.

Passagem por Belo Horizonte

Marie Curie chegou a Belo Horizonte de trem na manhã de 16 de agosto de 1926, depois de viajar durante a noite desde o Rio de Janeiro. Ela ficou hospedada no Grande Hotel Internacional, localizado onde atualmente está o Edifício Arcângelo Maletta, no centro da capital mineira.

No dia seguinte, visitou o Instituto do Radium, criado quatro anos antes por iniciativa do médico Eduardo Borges da Costa, que havia conhecido Curie durante seus estudos na Europa.

Naquele período, a maior parte dos tumores ainda era tratada por meio de procedimentos cirúrgicos. A radioterapia estava em seus primeiros anos de desenvolvimento e utilizava a chamada curieterapia, técnica que aplicava diretamente nos tumores agulhas de platina contendo rádio.

Foi durante a visita que Marie Curie doou três tubos de rádio à instituição. O material se somou aos tubos e agulhas que o instituto já possuía e passou a ser utilizado no tratamento de pacientes.

A contribuição teve efeitos que ultrapassaram o gesto simbólico. A instituição passou a adquirir rádio diretamente da França, com certificados de dosagem assinados pela própria cientista, e utilizou o material doado durante décadas.

O Instituto do Radium posteriormente foi rebatizado como Hospital Borges da Costa e atualmente integra o patrimônio da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Palestra reuniu estudantes e médicos

No dia 18 de agosto, Curie participou de uma palestra na Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, onde falou sobre radioatividade e suas aplicações no tratamento do câncer.

O encontro reuniu importantes nomes da medicina mineira e estudantes que posteriormente teriam destaque na vida pública e cultural brasileira.

Entre os presentes estavam Juscelino Kubitschek, Guimarães Rosa e Pedro Nava, então jovens estudantes de medicina.

Para pesquisadores que estudaram a passagem da cientista pelo Brasil, a visita teve importância tanto científica quanto simbólica, especialmente pela oportunidade de aproximar profissionais e estudantes brasileiros dos conhecimentos desenvolvidos por uma das principais cientistas do século XX.

Após a passagem por Minas Gerais, Curie retornou ao Rio de Janeiro e foi recebida como sócia honorária da Academia Nacional de Medicina.

Uma visita marcada pelo pioneirismo

A passagem de Marie Curie pelo Brasil ocorreu em um período em que a presença feminina em instituições científicas ainda era limitada.

Durante a viagem, ela foi acompanhada por uma comissão de mulheres organizada pela Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, presidida pela bióloga e ativista Bertha Lutz e integrada, entre outras pessoas, pela médica Carlota Pereira de Queiroz, que posteriormente se tornaria a primeira mulher eleita deputada federal no Brasil.

Há relatos de que a presença de mulheres estrangeiras na comitiva teria provocado desconforto entre setores conservadores da sociedade mineira. Pesquisadores, porém, ressaltam que parte dessas informações foi reconstruída a partir de registros da época e de relatos indiretos.

Um século depois, a visita permanece registrada como um episódio importante da história da ciência no Brasil. Além da presença de uma das maiores cientistas de sua época, a passagem por Belo Horizonte deixou um legado concreto para a medicina mineira e contribuiu para a consolidação do uso da radioatividade no tratamento do câncer.

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