
Redação Juruá Online
Uma imagem que circula nas redes sociais chamou a atenção da população de Cruzeiro do Sul: uma criança foi flagrada em meio a um ponto frequentado por usuários de drogas, próximo à sede do Centro de Atenção Psicossocial (Caps) Náuas, no centro da cidade. A cena gerou preocupação e mobilizou os órgãos de assistência social e saúde mental do município.
A coordenadora do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), Cíntia Sampaio, confirmou que o órgão tomou conhecimento do caso e uma equipe de abordagem social foi enviada ao local. “O Estatuto da Criança e do Adolescente diz que toda criança fica muito vulnerável quando está na presença de pessoas, inclusive fazendo uso de entorpecentes. O nosso trabalho é conversar, conscientizar essas pessoas para que deixem o local, garantindo que a criança tenha qualidade de vida. Caso a mãe ou responsável não possa mais ficar com a criança, é possível indicar alguém da família para cuidar dela, assegurando que será bem assistida”, afirmou.
Cíntia explicou que o trabalho da equipe conta também com o apoio da população. “A gente não pode retirá-los à força, mas fazemos todo um trabalho de conscientização para que não atrapalhem a população, não cometam furtos, não façam barulho e não prejudiquem a vida das pessoas. Realizamos esse trabalho de orientação e, infelizmente, a maioria não quer iniciar um tratamento para dependência química. Recebemos muitas críticas da população, dizendo que não fazemos nada, mas o trabalho está sendo feito. Atuamos na cabeceira da ponte e em várias outras localidades. Inclusive, se você que está assistindo a este vídeo puder fazer denúncias ou até filmagens, isso nos ajuda a identificar locais onde, muitas vezes, nem sabemos que há pessoas em situação de rua. A comunidade também é nossa parceira nessa ação. Hoje, nossa equipe estará nas ruas para realizar mais esse trabalho socioeducativo”, concluiu.
A gerente do CAPS Novas, Cliciana Barreto, detalhou o trabalho de cuidado com pessoas em situação de rua e dependência química. Segundo ela, o CAPS atua dentro da política de redução de danos e realiza abordagens semanais nas chamadas cenas de uso, oferecendo alimentação, cuidados básicos de saúde e encaminhamentos para o serviço.
A coordenadora Cliciana explicou que o CAPS oferece uma abordagem de rua uma vez por semana, com o objetivo de estabelecer vínculo com as pessoas em situação de vulnerabilidade. Segundo ela: “Essa abordagem de rua serve como uma formação de vínculo com essas pessoas. Nós vamos lá nos espaços onde se encontram, nas cenas de uso de drogas, ofertamos um caldo, ofertamos cuidado em saúde, como curativo, ofertamos água e ofertamos o serviço do CAPS. E através dessa abordagem de rua, nós conseguimos ganhar a confiança deles, formar vínculos para que eles venham ao serviço.”
Ela acrescentou que, ao procurarem o serviço, são oferecidos momentos de convivência e ações de redução de danos: “Quando eles vêm ao serviço, nós ofertamos a convivência e a redução de danos no CAPS. Então, ele vem para fazer curativo, vem para tomar banho. As meninas vêm para trocar absorvente, por exemplo, vêm para se alimentar ou para ficar em um ambiente seguro, para ter um espaço para descansar.”
Cliciana também relatou que, quando essas pessoas manifestam o desejo de sair da rua, há todo um trabalho articulado para atendê-las: “Quando essas pessoas resolvem parar por um tempo e manifestam esse desejo de sair da rua, nós, enquanto serviço, ofertamos uma internação no Hospital do Juruá para que ela passe pelo período de desintoxicação. Articulamos com a família, vemos quais são os vínculos familiares que ainda existem. Se essa pessoa tem algum interesse de ir para alguma comunidade terapêutica ou para outro espaço, nós fazemos essa articulação juntamente com o CREAS, com a Defensoria, com o Ministério Público.”
Ela reforçou que o cuidado com a pessoa em situação de rua não é uma ação isolada: “O cuidado da pessoa em situação de rua é um cuidado que não dá para fazer só. O CAPS não trabalha sozinho nesse serviço, nós trabalhamos com toda a rede de cuidado, que envolve a Defensoria, o Ministério Público, o CREAS, consultório na rua, Secretaria de Assistência Social. É um serviço que não dá para fazer só.”
Entre os atendimentos ofertados, há também o planejamento familiar para mulheres em situação de rua: “Dentre os cuidados que temos ofertado está o de planejamento familiar para as mulheres em situação de rua, com medicação trimestral. Temos um quadro com as datas da última medicação e da próxima, e quando elas não comparecem, fazemos buscativa no território e realizamos a medicação, além da articulação com os serviços de tuberculose e de doenças sexualmente transmissíveis, para essas doenças que essas pessoas apresentam na rua.”
Sobre as dificuldades, Cliciana destacou: “É uma coisa muito complexa porque nos faltam dispositivos de cuidado. Às vezes, conseguimos articular para que essa pessoa fique um tempo em abstinência, mas a gente se esbarra no cuidado após isso, que são pessoas que têm vínculos familiares frágeis. Então, eu vou tirar ele da rua, mas o que eu tenho para oferecer para essa pessoa? E é aí que se encontram as nossas dificuldades.”
Ela ressaltou que o município ainda enfrenta limitações: “Hoje, o município de Cruzeiro do Sul tem necessidade de leitos em saúde mental no Hospital do Juruá, leitos específicos para desintoxicação dessas pessoas e até para pessoas em crise em saúde mental. Temos a necessidade da implantação de um CAPS AD no município, que possa ofertar um AD III, que permita internação para essas pessoas. E também a necessidade de habilitar esse CAPS, que hoje é um CAPS II, para um CAPS III, que também possa ofertar internação.”
Cliciana concluiu dizendo que, mesmo diante das dificuldades, o serviço segue atuando: “O CAPS tem cuidado da forma que é possível, diante de todas as dificuldades de suporte, de dispositivo de cuidado que existem na nossa rede de saúde, em Cruzeiro do Sul e em toda a regional.”
Sobre um caso recente, ela lembrou de uma mulher em situação crítica nas ruas do município: “A gente teve, recentemente, alguns meses atrás, a situação de uma mulher que tomava banho no centro da cidade, nua, na água de esgoto. Conseguimos tirá-la da rua, mas também tem toda uma burocracia no trabalho interno realizado.”
A ação envolvendo a criança flagrada nesta nova ocorrência segue em andamento.






