As eleições estaduais realizadas na Alemanha ampliaram o espaço de partidos posicionados nos extremos do espectro político e impuseram perdas às legendas tradicionais. Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, a Alternativa para a Alemanha (AfD) obteve 38,2% dos votos, enquanto, em Berlim, o partido A Esquerda (Die Linke) chegou a 25,7%.
Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, a AfD superou o Partido Social-Democrata (SPD), de centro-esquerda, que ficou com 35,5%. O resultado mais expressivo, porém, foi a queda da União Democrata Cristã (CDU), partido do chanceler Friedrich Merz, para 4,9%, abaixo da cláusula de barreira e insuficiente para garantir representação no Parlamento estadual. Em 2021, a legenda havia obtido 13,3% no estado.
O desempenho da AfD segue uma sequência de resultados expressivos em estados do antigo território da Alemanha Oriental. Em 2024, a legenda foi a mais votada na Turíngia, com 32,8%. Duas semanas antes das eleições atuais, venceu também na Saxônia-Anhalt, com 43,8%, contra 17,2% da CDU.
Em Berlim, a AfD também avançou e alcançou 16,3%, seu melhor resultado na capital. Ao mesmo tempo, a CDU perdeu 9,5 pontos percentuais e terminou com 18,8%.
Resultados diferentes para SPD e CDU
Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, o SPD perdeu participação em relação a 2021, quando havia obtido 39,6%, mas permaneceu próximo da AfD. A governadora social-democrata Manuela Schwesig manteve uma base eleitoral relevante no estado.
Já a CDU registrou uma queda mais acentuada. A legenda, que integra o governo federal ao lado do SPD, passou de 13,3% para 4,9%. O resultado representa uma perda entre eleitores conservadores que, segundo a análise apresentada, migraram para a AfD.
A legenda de direita tem ampliado sua presença em temas como imigração, valores familiares, energia, apoio à Ucrânia e relação com a Rússia. A CDU mantém a política de não cooperar com a AfD, conhecida na Alemanha como “muro corta-fogo”.
A Esquerda cresce em Berlim
O avanço de A Esquerda ocorreu principalmente entre eleitores identificados com pautas de esquerda. O SPD obteve 12,1% em Berlim, queda de 6,3 pontos percentuais, enquanto Die Linke chegou a 25,7%, mais que o dobro do resultado anterior e à frente de CDU, AfD, Verdes e SPD.
A campanha do partido deu destaque à questão da habitação. Pesquisas citadas na análise apontaram que 53% dos berlinenses consideravam a moradia o principal problema local e indicaram A Esquerda como a legenda mais associada à capacidade de enfrentar a questão.
O partido se define como socialista democrático e defende mudanças nas relações de propriedade e poder, além de impostos mais elevados sobre grandes fortunas e a socialização de grandes empresas imobiliárias. Também defende, no longo prazo, uma estrutura de segurança europeia que torne a Otan desnecessária e se opõe ao envio de armas para zonas de guerra.
Apesar dessas posições, A Esquerda participa do sistema parlamentar alemão há décadas e já integrou governos em Berlim. O partido reúne correntes com diferentes posicionamentos, e sua classificação ideológica é objeto de debate no país.
Insatisfação com partidos tradicionais
O avanço de AfD e A Esquerda ocorre em um cenário de insatisfação com questões econômicas e sociais. A economia alemã passou por anos de estagnação, enquanto a indústria enfrenta concorrência chinesa e custos elevados de energia. Também permanecem preocupações relacionadas a empregos, aposentadorias e custo de vida.
No leste do país, ainda existe a percepção de desigualdade de oportunidades após a reunificação alemã. A AfD associa parte dessas insatisfações a temas como imigração, soberania nacional e críticas ao apoio à Ucrânia. A Esquerda concentra sua atuação em questões como salários, desigualdade, aluguéis, concentração de riqueza e políticas sociais.
Os resultados das eleições estaduais mostram, portanto, mudanças no comportamento eleitoral em diferentes regiões da Alemanha, com crescimento de alternativas à direita e à esquerda e perdas para partidos que tradicionalmente ocupam o centro da política nacional.





