Apenas 13% da malha rodoviária brasileira é pavimentada, e o país ainda precisa recuperar o pavimento de 26,5 mil quilômetros de rodovias e duplicar mais de 10,3 mil quilômetros de estradas. Os dados fazem parte da edição de 2026 do Plano CNT de Transporte e Logística.
Elaborado pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), o documento tem 146 páginas e reúne um diagnóstico dos principais gargalos da infraestrutura brasileira, além de projetos considerados prioritários para os próximos governos.
A sétima edição do plano apresenta 2.837 projetos, com investimento estimado em R$ 2,032 trilhões, abrangendo diferentes modalidades de transporte de cargas e passageiros.
Rodovias em situação crítica
Além da baixa cobertura de pavimentação, a conservação das estradas brasileiras continua sendo um dos principais problemas enfrentados pelo setor.
Com base em uma pesquisa realizada pela CNT e publicada em dezembro do ano passado, o relatório aponta que 62,1% dos trechos avaliados foram classificados como regulares, ruins ou péssimos. Entre as rodovias sob gestão pública, o percentual sobe para 72,8%.
A entidade defende uma combinação de medidas para enfrentar o problema, incluindo a recuperação da malha existente, ampliação da capacidade das estradas, duplicações, pavimentação de trechos ainda não asfaltados e construção de novas ligações.
Ao todo, o plano aponta 1.177 projetos rodoviários de integração nacional. Entre as principais necessidades estão os 26,5 mil quilômetros de recuperação de pavimento e os mais de 10,3 mil quilômetros de duplicações.
Para a diretora-executiva da CNT, Fernanda Resende, é necessário recompor os orçamentos e ampliar os investimentos públicos e privados destinados à infraestrutura de transporte.
“Esse é o primeiro recurso a ser cortado em momentos de crise, já que não se pode mexer em setores como saúde e educação. Mas ele movimenta empregos e comércio”, afirmou.
Ferrovias concentram quase metade dos investimentos
Dos mais de R$ 2 trilhões previstos no plano, praticamente metade está destinada a projetos ferroviários.
São 115 projetos para a construção de 25,5 mil quilômetros de ferrovias, o que representaria quase dobrar a extensão atual, de aproximadamente 32 mil quilômetros.
O documento também prevê a recuperação de 14 mil quilômetros de trilhos. Com essas intervenções, a densidade ferroviária brasileira passaria de 3,7 quilômetros para cada mil quilômetros quadrados para 6,7 quilômetros.
Apesar do avanço, o índice ainda ficaria muito abaixo do registrado nos Estados Unidos, onde a densidade da infraestrutura ferroviária chega a quase 30 quilômetros.
“Mesmo assim, ficaria muito distante dos quase 30 km de densidade de infraestrutura ferroviária dos Estados Unidos”, afirmou Fernanda Resende.
O plano também inclui cinco projetos de trens de alta velocidade, que juntos somam 1.556 quilômetros de extensão e têm custo estimado em R$ 175,4 bilhões.
Trem-bala entre São Paulo e Rio volta a aparecer
Entre os projetos de destaque está o Trem de Alta Velocidade (TAV) entre São Paulo e Rio de Janeiro, com ligação também com Campinas.
A proposta faz parte da aposta da CNT na expansão do transporte ferroviário de passageiros e aparece entre os principais projetos para a região Sudeste.
O empreendimento, porém, é antigo e nunca saiu do papel. Os primeiros estudos para um trem de alta velocidade no eixo Rio-São Paulo começaram em 1981 e foram retomados na década de 1990.
Em 2007, o governo federal incluiu o projeto no Programa Nacional de Desestatização e chegou a preparar uma concessão. O leilão realizado em 2010, no entanto, não atraiu interessados.
Na época, o governo previa o início das obras para 2011 e a operação do trem para 2020, mas o projeto não avançou.
Transporte público também aparece entre as prioridades
O diagnóstico da CNT aponta que o crescimento das cidades e a concentração populacional aumentaram a demanda por deslocamentos, enquanto a infraestrutura de transporte coletivo não acompanhou o ritmo de expansão urbana.
O resultado, segundo a entidade, são viagens mais demoradas, congestionamentos e maior dependência do transporte individual.
Para a CNT, ampliar e qualificar o transporte coletivo é essencial para melhorar a mobilidade urbana e reduzir a emissão de poluentes.
Entre as propostas estão a construção ou extensão de linhas de metrô e trens urbanos, além da implantação de novos sistemas de monotrilho, Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) e aeromóvel.
Também estão previstos projetos para recuperar e modernizar ferrovias urbanas, com o objetivo de aumentar a velocidade, o conforto e a segurança dos passageiros.
São Paulo concentra mais de R$ 196 bilhões em projetos urbanos
O estado de São Paulo aparece no plano com projetos de integração do transporte urbano entre municípios. A CNT considera que as relações econômicas e sociais das regiões metropolitanas exigem redes de transporte mais articuladas.
A proposta inclui 269 quilômetros de metrô ou trem urbano, com investimento estimado em aproximadamente R$ 173 bilhões.
São Paulo também aparece com 170,3 quilômetros de projetos de monotrilho, VLT ou aeromóvel, estimados em R$ 20,8 bilhões, além de 35,2 quilômetros de recuperação de ferrovias urbanas, com investimento de R$ 2,3 bilhões.
Somados, os projetos sobre trilhos destinados ao transporte urbano no estado ultrapassam R$ 196 bilhões.
O plano também aponta a necessidade de investimentos em sistemas de priorização de ônibus.
Segundo o relatório, a insuficiência de vias destinadas exclusivamente ao transporte público, como faixas e corredores para ônibus, compromete a eficiência dos sistemas na maioria das cidades brasileiras. A falta desses espaços reduz a velocidade média das viagens e diminui a atratividade do transporte coletivo.
A CNT também destaca as dificuldades para implantar e ampliar projetos metroferroviários, que exigem investimentos elevados e longos períodos de execução, em um cenário marcado por limitações orçamentárias e descontinuidade de políticas públicas.
“É preciso construir sistemas de transporte de massa e não fazer com que o ônibus concorra com o carro. Isso vai desafogar cidades e dar qualidade de vida para as pessoas e o transporte mais rápido de mercadorias”, afirmou Fernanda Resende.
Aeroportos enfrentam estagnação
Na área de aviação, o relatório aponta que o transporte aéreo apresentou forte crescimento entre 2003 e 2014, mas praticamente estagnou na década seguinte.
Entre 2014 e 2024, a expansão foi de apenas 0,8%.
A CNT relaciona essa desaceleração, entre outros fatores, à saturação dos grandes aeroportos e à precariedade de parte da infraestrutura regional.
“Já avançamos bem, mas há muito que crescer na aviação regional”, afirmou Fernanda Resende, destacando a necessidade de uma malha aérea mais integrada.
O Plano CNT de Transporte e Logística de 2026 apresenta, assim, um amplo conjunto de propostas para enfrentar os principais gargalos da infraestrutura brasileira, com foco na recuperação das estradas, expansão ferroviária, melhoria do transporte coletivo e fortalecimento da aviação regional.





