Arábia Saudita, Turquia e Paquistão firmam pacto de defesa para reforçar segurança regional

A Arábia Saudita, a Turquia e o Paquistão assinaram, nesta sexta-feira (7), em Meca, um acordo de defesa conjunta voltado ao fortalecimento da segurança coletiva e à promoção da paz, da estabilidade e da cooperação militar na região.

O pacto reúne três importantes aliados dos Estados Unidos no mundo islâmico sunita, em meio ao aumento das tensões no Oriente Médio provocado pelo conflito envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos.

Desde os ataques realizados por Estados Unidos e Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro, Teerã e grupos aliados intensificaram ofensivas contra a Arábia Saudita e outros países do Golfo, além de promover bloqueios ao transporte de energia na região.

Segundo comunicado conjunto, o acordo estabelece que um ataque armado contra qualquer um dos três países será considerado um ataque contra todos. O documento, no entanto, não detalha quais serão os compromissos militares específicos assumidos por cada integrante.

As três nações afirmam que o objetivo é fortalecer a capacidade de dissuasão diante de eventuais agressões, além de ampliar a cooperação em defesa e segurança.

Uma autoridade turca ressaltou que o pacto possui caráter exclusivamente defensivo, não é direcionado contra nenhum país específico, permanece aberto à adesão de outras nações da região e não substitui acordos bilaterais ou multilaterais já existentes.

Apesar disso, Arábia Saudita, Turquia e Paquistão compartilham preocupações com a crescente escalada militar envolvendo Israel e o Irã, enquanto os Estados Unidos enfrentam dificuldades para conter a instabilidade regional.

Aliança tem forte simbolismo político

Especialistas avaliam que a assinatura do acordo representa um importante movimento geopolítico.

Para Abdulaziz Sager, presidente do Gulf Research Center, a reunião demonstra uma disposição crescente das principais potências regionais em coordenar ações conjuntas na área de segurança.

"O simbolismo político da cúpula é significativo. Três dos Estados mais influentes do mundo muçulmano reúnem-se em um momento de elevada incerteza, demonstrando disposição crescente para coordenar ações em questões de segurança."

Segundo ele, caso a parceria evolua para mecanismos permanentes de cooperação, poderá fortalecer o peso diplomático e militar dos três países e contribuir para uma nova arquitetura de segurança regional.

Três potências com capacidades estratégicas

Cada um dos integrantes do acordo possui características consideradas estratégicas.

A Turquia conta com a segunda maior força militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

A Arábia Saudita é a principal potência do Golfo, abriga os locais mais sagrados do Islã e figura entre os maiores exportadores de petróleo do mundo.

Já o Paquistão é o único país de maioria muçulmana que possui armamento nuclear.

Antes da assinatura do acordo, o primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, acompanhado pelo comandante do Exército, Asim Munir, realizou a peregrinação da Umrah em Meca. Em seguida, participou da reunião com o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, e com o príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman.

A Arábia Saudita tem sido alvo frequente de ataques atribuídos ao Irã e a grupos aliados, como os Houthis, no Iêmen, e milícias xiitas no Iraque.

Além disso, o conflito comprometeu a segurança dos países do Golfo e afetou o tráfego marítimo no Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde circulava cerca de um quinto do fornecimento mundial de energia antes do início da guerra.

Negociações duraram quase um ano

O acordo foi firmado após aproximadamente um ano de negociações.

No início deste ano, autoridades turcas já defendiam a criação de uma plataforma regional de segurança capaz de ampliar a cooperação entre os países e reduzir os riscos de novos conflitos no Oriente Médio.

Cooperação militar já existia entre os três países

Embora o pacto represente um novo marco na cooperação regional, Arábia Saudita, Turquia e Paquistão já mantêm relações militares há décadas.

O Oriente Médio vive um período de intensa instabilidade desde os ataques do Hamas contra Israel, em outubro de 2023. Desde então, o conflito se expandiu para outros países da região.

Israel realizou operações militares na Faixa de Gaza, no sul do Líbano e na Síria, além de promover duas campanhas aéreas contra o Irã.

Em resposta, Teerã realizou ataques contra bases militares dos Estados Unidos e infraestruturas civis em países como Arábia Saudita, Kuwait, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Omã, Jordânia e Israel.

Embora Turquia e Paquistão tenham evitado ataques diretos de grande escala, ambos buscam reduzir as tensões por entenderem que a instabilidade representa riscos para suas economias e para sua segurança nacional.

Para a Arábia Saudita, os impactos do conflito foram ainda mais significativos, colocando em risco as exportações de petróleo e projetos estratégicos de desenvolvimento, além de levantar dúvidas sobre a capacidade dos Estados Unidos de garantir a segurança dos aliados na região.

Especialistas avaliam que a assinatura do pacto em Meca, cidade considerada a mais sagrada do Islã, reforça o peso político e simbólico da iniciativa.

Segundo Mansoor Ahmed, pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos e de Defesa da Universidade Nacional da Austrália, Turquia e Paquistão oferecem à parceria uma sólida indústria de defesa, enquanto a Arábia Saudita pode contribuir com investimentos em tecnologia militar.

O especialista pondera, entretanto, que o acordo dificilmente incluirá cooperação na área nuclear, uma vez que o arsenal atômico paquistanês continua voltado para sua estratégia de dissuasão em relação à Índia.

A cooperação militar entre os países já inclui treinamento de tropas, assistência técnica, intercâmbio de navios de guerra e aeronaves de treinamento.

Em 2023, a Arábia Saudita adquiriu drones produzidos pela Turquia no maior contrato de exportação da indústria de defesa turca.

Mais recentemente, o Paquistão enviou cerca de oito mil militares, além de caças, drones e um sistema de defesa aérea para o território saudita, ampliando a cooperação em segurança.

O governo paquistanês também negocia um novo acordo de defesa com o Kuwait, que deverá incluir cooperação energética e investimentos entre os dois países.

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