Os dados mais recentes da Pesquisa Agrícola Municipal (PAM), do IBGE, revelam uma transformação importante na agricultura acreana. Entre 2019 e 2025, não ocorreu apenas aumento do valor produzido. Mudaram também a composição das lavouras e a distribuição territorial da produção.
A mandioca continua fundamental, principalmente nas regiões de agricultura mais tradicional, mas perdeu participação relativa. Em sentido contrário, milho e soja ampliaram significativamente sua presença, enquanto o café aparece como uma das mudanças mais importantes do período.
Os números mostram, portanto, uma agricultura maior, mais diversificada e territorialmente diferenciada.
A área cresceu e mudou de composição
A soma das áreas colhidas das principais culturas analisadas passou de 79,2 mil hectares em 2019 para 97,2 mil em 2025, crescimento de 22,8%. Mais importante, porém, foi a mudança na composição dessa área.
Quadro 1 – Acre: área colhida dos principais produtos – 2019 e 2025
| Produto | 2019 (ha) | 2025 (ha) | Variação | Part. 2025 |
| Milho | 28.840 | 39.188 | +35,9% | 40,3% |
| Mandioca | 26.650 | 21.734 | -18,4% | 22,4% |
| Soja | 1.590 | 15.156 | +853,2% | 15,6% |
| Banana | 7.125 | 7.084 | -0,6% | 7,3% |
| Feijão | 5.385 | 5.032 | -6,6% | 5,2% |
| Arroz | 3.750 | 3.495 | -6,8% | 3,6% |
| Café | 1.153 | 1.926 | +67,0% | 2,0% |
| Total | 79.177 | 97.206 | +22,8% | — |
Fonte: IBGE/PAM. Elaboração própria.
A soja representa a mudança mais expressiva: sua área passou de apenas 1,6 mil para 15,2 mil hectares. O milho avançou de 28,8 mil para 39,2 mil hectares. Juntos, milho e soja passaram a ocupar aproximadamente 56% da área considerada.
A mandioca percorreu caminho inverso. Sua área caiu 18,4%, reduzindo sua participação de 33,7% para 22,4%. Já o café, embora ainda ocupe uma área relativamente pequena, cresceu 67%.
A agricultura acreana, portanto, não apenas incorporou novas áreas. Houve uma importante recomposição da pauta agrícola.
Soja, milho e café avançam na produção
A produção física reforça essa transformação. A soja saltou de 5 mil toneladas em 2019 para 56,7 mil em 2025. O milho passou de 75,4 mil para 123,6 mil toneladas.
No café Canephora, a mudança também chama atenção: a produção aumentou de aproximadamente 2,1 mil para 6,6 mil toneladas, crescimento de 222%. Como a produção cresceu muito mais que a área, os números sugerem importantes ganhos de rendimento.
A mandioca apresentou movimento contrário: sua produção caiu de 628,4 mil para 493,9 mil toneladas, acompanhando principalmente a redução da área cultivada.
Essa diferença entre expansão de área e aumento da produção por hectare será importante para compreender outra dimensão da agricultura acreana: a produtividade.
O valor da produção mais que dobrou
O valor das culturas analisadas passou de R$ 424 milhões em 2019 para R$ 984,5 milhões em 2025, crescimento nominal de 132,2%.
Quadro 2 – Acre: valor da produção agrícola – 2019 e 2025
| Produto | 2019 (R$ mi) | 2025 (R$ mi) | Variação nominal |
| Mandioca | 221,3 | 358,5 | +62,0% |
| Milho | 55,0 | 171,9 | +212,7% |
| Banana | 60,4 | 128,0 | +112,1% |
| Café | 8,8 | 119,5 | +1.258,1% |
| Soja | 6,4 | 112,2 | +1.664,9% |
| Feijão | 12,1 | 14,8 | +21,9% |
| Arroz | 4,1 | 8,2 | +101,0% |
| Total | 424,0 | 984,5 | +132,2% |
Fonte: IBGE/PAM. Valores correntes. Elaboração própria.
A mandioca continua sendo a cultura de maior valor, com R$ 358,5 milhões em 2025. Mas sua participação caiu de aproximadamente 52% para 36% do total.
No sentido contrário, milho, soja e café ganharam espaço. Juntos, representavam cerca de 16,5% do valor das culturas analisadas em 2019 e chegaram a aproximadamente 41% em 2025.
Talvez seja esse o indicador que melhor sintetize a mudança de perfil da agricultura acreana.
Uma nova geografia da produção
A transformação também não ocorre da mesma maneira em todo o território.
O Baixo Acre tornou-se o principal núcleo agrícola estadual. Em 2025, concentrou 47,5% da área e 48,1% do valor das culturas analisadas. É nessa Regional que está grande parte da expansão dos grãos: aproximadamente 88% do valor estadual da soja e 65% do milho.
Capixaba, Plácido de Castro, Senador Guiomard, Rio Branco e Porto Acre aparecem com destaque nesse movimento.
O Juruá apresenta uma trajetória diferente. A mandioca permanece importante, mas a grande novidade é o café. Em 2025, a Regional respondeu por cerca de 47% do valor da cafeicultura acreana, com destaque para Mâncio Lima e Cruzeiro do Sul.
O Alto Acre apresenta uma estrutura mais diversificada, combinando mandioca, milho, banana, soja, café, arroz e feijão. Já Purus e Tarauacá/Envira permanecem relativamente mais dependentes das culturas tradicionais.
Essa diferenciação mostra que não existe um único processo de expansão agrícola no Acre. Cada território vem construindo um perfil próprio.
Uma agricultura maior, mas sobretudo diferente
Entre 2019 e 2025, a agricultura do Acre mudou de escala, composição e geografia.
A área das culturas analisadas cresceu 22,8%, mas dentro dela ocorreu uma transformação mais profunda: a mandioca perdeu participação, a soja multiplicou sua presença, o milho avançou e o café ganhou importância econômica.
Ao mesmo tempo, o valor da produção mais que dobrou em termos nominais, alcançando R$ 984,5 milhões. E essa mudança ganhou expressão territorial: o Baixo Acre consolidou-se como território dos grãos, enquanto o Juruá combina a força tradicional da mandioca com a emergência de um importante polo cafeeiro.
Mas existe uma segunda questão: essa expansão também significou produzir mais em cada hectare?
Os números indicam situações bastante diferentes entre as culturas. E, quando o rendimento agrícola do Acre é comparado ao da Região Norte e do Brasil, surgem contrastes ainda mais interessantes.
Essa será a questão do próximo artigo: o Acre está conseguindo produzir mais em cada hectare?
Orlando Sabino escreve às sextas-feiras no Juruá Online
Nota metodológica: os valores da produção da PAM são expressos a preços correntes; portanto, as variações monetárias são nominais. Os dados de 2025 são preliminares e poderão ser revistos pelo IBGE.





