A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), órgão nuclear da Organização das Nações Unidas (ONU), pediu que o Irã seja responsabilizado por descumprimentos das salvaguardas destinadas a impedir o desenvolvimento de armas nucleares. A solicitação foi apresentada após uma votação realizada na quarta-feira (9).
Segundo autoridades diplomáticas e ex-funcionários ouvidos durante a apuração, Teerã passou, ao longo dos últimos anos, de uma postura de cooperação com os inspetores para uma série de medidas que dificultaram o trabalho da agência. Entre elas estão a desativação de câmeras de monitoramento e revistas consideradas “excessivamente invasivas” em inspetores.
O acordo nuclear de 2015, firmado entre Irã, Estados Unidos e outras potências, criou um dos regimes de inspeção nuclear mais abrangentes já estabelecidos. Durante os primeiros anos, a AIEA confirmou que o país cumpria as exigências previstas no acordo.
A situação começou a mudar após a decisão do então presidente americano Donald Trump de retirar os Estados Unidos do acordo, em maio de 2018. Em 2019, o cumprimento das restrições por parte do Irã começou a se deteriorar, segundo relatórios periódicos da AIEA.
Em julho daquele ano, inspetores informaram que Teerã havia acumulado urânio pouco enriquecido acima do limite estabelecido pelo acordo. Meses depois, o país retomou o enriquecimento utilizando centrífugas avançadas em instalações onde a atividade era proibida.
Em 2020, o Irã também impediu o acesso de inspetores a dois locais suspeitos de terem sido utilizados em atividades relacionadas a armas nucleares. No fim daquele ano, o Parlamento iraniano aprovou uma lei que reduziu significativamente a cooperação com a AIEA em medidas de monitoramento e verificação.
A legislação foi aprovada após o assassinato de um importante cientista iraniano atribuído a Israel e determinou, entre outras medidas, a aceleração do programa nuclear, incluindo o enriquecimento de urânio a 60%. Esse nível é considerado um marco importante porque permite um processamento adicional relativamente rápido até níveis próximos ao grau militar.
Câmeras foram desativadas
Inicialmente, o Irã concordou em manter equipamentos de monitoramento da AIEA instalados e armazenar localmente os dados registrados. O entendimento, porém, fracassou em 2021.
Naquele ano, autoridades iranianas desativaram câmeras de monitoramento e chegaram a destruir uma delas em uma oficina de centrífugas em Karaj. Em junho de 2022, Teerã exigiu que a agência retirasse seus equipamentos de monitoramento relacionados ao acordo.
Também em 2021, integrantes das forças de segurança iranianas realizaram revistas físicas consideradas pela AIEA como excessivamente invasivas em inspetores.
Em janeiro de 2023, a agência identificou um conjunto não declarado de centrífugas na instalação nuclear de Fordow. Segundo a AIEA, o equipamento estava enriquecendo urânio a até 83,7% de pureza, percentual próximo dos cerca de 90% considerados de grau militar.
A descoberta ocorreu depois que um inspetor russo experiente percebeu uma alteração sutil na tubulação das centrífugas, de acordo com um ex-diplomata americano. Meses depois, o Irã expulsou esse inspetor e outros especialistas da AIEA envolvidos com o monitoramento do enriquecimento de urânio.
O chefe da AIEA, Rafael Grossi, classificou a expulsão como um “golpe muito sério” para a capacidade da agência de acompanhar o programa nuclear iraniano.
Denúncia ao Conselho de Segurança
Na quarta-feira (9), 23 dos governadores do Conselho de Governadores da AIEA votaram a favor do encaminhamento do caso iraniano ao Conselho de Segurança da ONU. Rússia, China e Níger votaram contra a medida.
A decisão teve como base uma resolução aprovada em junho de 2025, que declarou o Irã em situação de descumprimento das salvaguardas nucleares.
A resolução foi aprovada sete meses antes da atual guerra com o Irã e dias antes dos ataques americanos contra instalações nucleares iranianas durante a Operação Midnight Hammer.
A última vez que o Irã foi denunciado ao Conselho de Segurança ocorreu no início de 2006. Na ocasião, o órgão aprovou uma série de medidas, incluindo sanções contra o regime iraniano.
Ainda não está claro se o Conselho de Segurança adotará medidas semelhantes desta vez. Rússia e China são membros permanentes do órgão e podem vetar individualmente qualquer resolução.
A missão diplomática iraniana junto à AIEA classificou a decisão como “política” e afirmou que ela foi adotada sem consenso.
O acordo nuclear de 2015
O Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA), nome oficial do acordo nuclear de 2015, foi negociado durante 20 meses e estabeleceu limites rígidos para o programa nuclear iraniano, principalmente para o enriquecimento de urânio.
As restrições incluíam limites aos estoques de urânio enriquecido, à fabricação de centrífugas, ao reprocessamento de plutônio e ao desenvolvimento de tecnologias relacionadas a armas nucleares.
Grande parte do excedente de urânio iraniano também foi enviada à Rússia para destruição.
O acordo permitiu ainda que a AIEA implantasse um amplo sistema de monitoramento, com lacres, câmeras, sensores, inspeções presenciais diárias e mecanismos para investigar suspeitas de instalações nucleares clandestinas.
Quando o JCPOA entrou em vigor, em janeiro de 2016, a AIEA certificou que o Irã estava cumprindo os termos. Até meados de 2019, Teerã manteve a conformidade com as exigências de acesso e com as salvaguardas relacionadas às centrífugas e ao estoque declarado de urânio, mesmo após a saída dos Estados Unidos do acordo.
A relação, porém, se deteriorou progressivamente nos anos seguintes.
AIEA perdeu acesso a instalações
Desde fevereiro de 2026, quando Estados Unidos e Israel iniciaram uma campanha aérea contra o Irã, a AIEA não conseguiu visitar nenhuma instalação nuclear iraniana, com exceção da usina de Bushehr.
Os inspetores também não tiveram acesso às instalações que foram bombardeadas pelos Estados Unidos e por Israel em junho de 2025.
A interrupção agravou uma perda de monitoramento que já ocorria desde o início de 2021, afetando a capacidade da agência de acompanhar a produção, a movimentação e a instalação de centrífugas.
Segundo autoridades da AIEA, a falta de acesso interrompeu a chamada “continuidade de conhecimento” sobre o urânio, as centrífugas de enriquecimento e outros itens iranianos que estavam sob monitoramento.
Com isso, a agência não consegue confirmar com segurança a situação, a quantidade ou a localização desses materiais e equipamentos.
Para especialistas, reconstruir essa base de informações será uma tarefa extremamente complexa.
Eric Brewer, ex-diretor de contraproliferação do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos e atual pesquisador da Nuclear Threat Initiative, afirmou que a AIEA parte de um grande déficit de informações para compreender a situação atual do programa nuclear iraniano.
Segundo ele, seria necessário estabelecer um sistema de monitoramento muito mais robusto e mantê-lo por um longo período para reconstruir as informações perdidas.
Risco de uma nova escalada
A interferência nas inspeções, o avanço do enriquecimento de urânio e a falta de transparência sobre instalações não declaradas aumentaram as preocupações internacionais sobre o programa nuclear iraniano.
O físico James Acton, chefe da divisão de política nuclear do Carnegie Endowment for International Peace, avaliou que, caso o Irã decida desenvolver uma bomba nuclear, poderá conseguir fazê-lo.
Acton estima em 50% a possibilidade de o país obter uma arma nuclear nos próximos três anos.
Agora, caberá ao Conselho de Segurança da ONU decidir se o Irã enfrentará novas consequências internacionais por sua suposta violação do Tratado de Não Proliferação Nuclear.
Após a denúncia de 2006, o órgão aprovou diversas resoluções que permitiram a adoção de pesadas sanções econômicas contra Teerã.
No cenário atual, porém, ainda não está claro qual seria o impacto de novas medidas, já que os Estados Unidos já adotam ações militares e econômicas contra o Irã. Além disso, qualquer iniciativa do Conselho de Segurança poderá enfrentar o poder de veto da Rússia e da China.
O governo iraniano contesta as acusações da AIEA e afirma que a agência nunca conseguiu comprovar o desvio de materiais nucleares.
Diplomatas de Teerã também acusaram Estados Unidos e outros países ocidentais de adotarem uma postura considerada hipócrita ao cobrar o cumprimento das regras de não proliferação enquanto, segundo o Irã, deixam de condenar ataques contra instalações nucleares que o país afirma serem pacíficas e protegidas por salvaguardas.





