Espanha ameaça retaliar Itália se controles de fronteira não forem suspensos

A Espanha anunciou que poderá adotar medidas contra viajantes vindos da Itália caso o governo italiano não restabeleça, até este domingo (9), a livre circulação entre os dois países.

A reação ocorre após a Itália impor controles temporários na fronteira com a Espanha em resposta à chegada em massa de migrantes ao enclave espanhol de Ceuta, no norte da África.

Em comunicado divulgado nesta sexta-feira (7), o governo espanhol classificou a decisão italiana como “injusta, contrária aos interesses da União Europeia e discriminatória em relação à população da Espanha”.

Madri também ressaltou que nenhum dos migrantes que entrou irregularmente em Ceuta na última semana teve acesso livre ao Espaço Schengen, conforme determinam as regras migratórias aplicadas ao território.

Crise migratória elevou tensão entre os países

A crise começou em 30 de julho, quando mais de 50 mil migrantes atravessaram ilegalmente a fronteira entre Marrocos e Ceuta por terra e pelo mar.

Segundo autoridades espanholas, mais de 100 pessoas morreram durante a travessia.

Embora a maior parte dos migrantes tenha retornado ao Marrocos, centenas permanecem em Ceuta.

Diante da situação, ministros do Interior da União Europeia se reuniram na última terça-feira (4) e defenderam o endurecimento das ações contra redes de tráfico de pessoas, além da adoção de políticas mais rígidas para o retorno de migrantes em situação irregular.

Os ministros também pediram maior cooperação entre a União Europeia e países fora do bloco para evitar novas ondas migratórias.

União Europeia aponta atuação de redes criminosas

Após a reunião extraordinária dos ministros da Justiça e Assuntos Internos da União Europeia, o comissário europeu Magnus Brunner afirmou que o fluxo migratório foi impulsionado por organizações criminosas responsáveis pelo tráfico de pessoas e pela disseminação de informações falsas nas redes sociais.

Brunner evitou atribuir responsabilidade direta ao Marrocos e destacou a colaboração das autoridades marroquinas nas operações de retorno dos migrantes.

"Há uma investigação em curso sobre o papel de Marrocos nesse episódio. Não posso comentar mais sobre isso, mas sabemos que houve desinformação promovida por contrabandistas e traficantes de pessoas."

Na segunda-feira (3), o governo marroquino rejeitou as acusações de responsabilidade pelo aumento do fluxo migratório.

Segundo Rabat, a Espanha deveria ter previsto as consequências de uma decisão judicial que estabeleceu que migrantes que chegassem a nado não poderiam ser deportados imediatamente na ausência de barreiras físicas no local da travessia.

Pressão sobre a política migratória europeia

A nova crise reacendeu o debate sobre a estratégia migratória da União Europeia.

Nos últimos anos, o bloco ampliou acordos com países do Norte da África para conter a migração irregular antes da chegada ao território europeu.

Críticos, no entanto, afirmam que essa política aumenta a dependência da UE em relação aos países de trânsito, que podem flexibilizar os controles fronteiriços para pressionar por concessões políticas ou econômicas.

Grande parte dos migrantes foge de conflitos, pobreza e instabilidade política, enfrentando rotas perigosas em busca de segurança e melhores condições de vida.

Em Ceuta, muitos dos migrantes que permaneceram no enclave foram vistos dormindo nas praias e utilizando chuveiros públicos. A maioria não encontrou alimentação ou abrigo e acabou retornando ao Marrocos.

Países defendem endurecimento das regras

Durante as discussões na União Europeia, Dinamarca e Itália defenderam medidas mais rigorosas para conter a imigração irregular.

O ministro da Imigração da Dinamarca, Morten Bodskov, pediu o aumento dos investimentos europeus em segurança de fronteiras.

Já o ministro do Interior da Itália, Matteo Piantedosi, defendeu a criação de novos centros de processamento de pedidos de asilo fora da União Europeia e mecanismos para facilitar o retorno de migrantes a países considerados seguros.

O primeiro-ministro da Grécia, Kyriakos Mitsotakis, também propôs que a União Europeia autorize a suspensão temporária do registro de pedidos de asilo em situações de chegada repentina e em grande escala de migrantes.

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