A internet já não é o problema. O desafio agora é a produtividade.

A economia digital vem redefinindo a forma como as pessoas trabalham, estudam, consomem, produzem e se relacionam com o Estado. O crescimento do comércio eletrônico, a expansão dos serviços financeiros digitais impulsionados pelo Pix, a digitalização da administração pública e a consolidação do trabalho remoto demonstram que a internet deixou de ser apenas uma ferramenta de comunicação para tornar-se um dos principais fatores de competitividade das economias modernas. Assim como ocorreu com a eletrificação no século passado, a conectividade passou a integrar o conjunto das infraestruturas essenciais ao desenvolvimento, influenciando diretamente a produtividade, a inovação e a capacidade de geração de riqueza dos territórios.

Os resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua TIC 2025), divulgados pelo IBGE, mostram que o Acre percorreu uma trajetória notável na última década. O Estado praticamente universalizou o acesso à internet, ampliou significativamente a cobertura da banda larga fixa, consolidou o telefone celular como principal equipamento de acesso e incorporou a conectividade ao cotidiano da grande maioria da população.

A boa notícia, entretanto, traz um novo desafio. Se a primeira etapa da inclusão digital consistia em conectar pessoas, a próxima será transformar essa conectividade em maior produtividade, inovação, competitividade e geração de renda. Os dados da pesquisa mostram que o Acre avançou de forma expressiva no acesso, mas ainda possui amplo espaço para ampliar o uso da internet em atividades econômicas, educacionais e de relacionamento com o poder público.

A inclusão digital deu um salto no Acre

Os indicadores revelam uma verdadeira revolução na conectividade do Estado. Em 2016, apenas 59,8% dos domicílios acreanos possuíam acesso à internet. Em 2025, esse percentual alcançou 90,7%, aproximando o Acre das médias da Região Norte (94,1%) e do Brasil (95,0%). Em números absolutos, o total de residências conectadas praticamente dobrou, passando de 136 mil para 270 mil.

A mesma evolução ocorreu entre os moradores. Há nove anos, somente 59,4% da população vivia em domicílios com acesso à internet. Hoje esse percentual chega a 92,2%, correspondendo a aproximadamente 799 mil pessoas.

Mais importante ainda é observar o crescimento do uso efetivo da internet. Em 2016, apenas 53,0% dos acreanos com dez anos ou mais haviam utilizado a internet nos três meses anteriores à pesquisa. Em 2025, esse percentual alcançou 87,8%, evidenciando que a expansão da infraestrutura foi acompanhada pela incorporação da tecnologia ao cotidiano da população.

Essa evolução reduziu significativamente a distância que separava o Acre do restante do país. Enquanto em 2016 a diferença em relação à média nacional era superior a treze pontos percentuais, em 2025 ela caiu para menos de três pontos. Poucas áreas apresentaram um processo de convergência tão intenso em tão curto espaço de tempo.

Quadro 1 – A transformação digital do Acre (2016–2025)

Indicador20162025
Domicílios com internet59,8%90,7%
Moradores em domicílios com internet59,4%92,2%
Pessoas que utilizaram internet53,0%87,8%

A qualidade da infraestrutura também melhorou

O avanço da inclusão digital não ocorreu apenas em quantidade. Houve uma mudança importante na qualidade da infraestrutura disponível.

Em 2016, menos da metade dos domicílios acreanos conectados utilizava banda larga fixa. A internet móvel era praticamente a única alternativa para grande parte das famílias. Nove anos depois, a situação se inverteu. A banda larga fixa passou a atender 89,1% dos domicílios conectados, percentual praticamente idêntico ao observado no Brasil e superior ao da Região Norte.

Esse talvez seja um dos resultados mais relevantes da pesquisa. A internet móvel desempenhou papel decisivo na democratização do acesso, mas a expansão da banda larga fixa amplia as possibilidades de utilização da rede para atividades que exigem maior estabilidade e velocidade, como ensino remoto, videoconferências, telemedicina, computação em nuvem e trabalho à distância.

Em outras palavras, o Acre deixou de depender quase exclusivamente da conectividade móvel e passou a construir uma infraestrutura digital mais robusta, compatível com as exigências de uma economia cada vez mais baseada no conhecimento.

O celular democratizou o acesso, mas o computador perdeu espaço

Os dados da PNAD também revelam uma mudança profunda nos equipamentos utilizados para acessar a internet.

Em 2025, praticamente todos os usuários acreanos da internet (98,9%) utilizaram telefone celular para acessar a rede. O aparelho consolidou-se definitivamente como principal porta de entrada para o mundo digital.

Ao mesmo tempo, chama atenção a forte redução do uso do computador. Em 2016, pouco mais da metade dos usuários acessava a internet por meio de microcomputadores. Em 2025, esse percentual caiu para apenas 21,1%.Em sentido oposto, a televisão conectada apresentou uma expansão impressionante. Em menos de uma década, passou de equipamento praticamente inexistente para estar presente em mais da metade dos domicílios conectados, refletindo a rápida disseminação das Smart TVs e dos serviços de streaming.

A posse de telefone celular também avançou de forma significativa. Em 2025, 86,4% dos acreanos com dez anos ou mais possuíam aparelho próprio, contra 63,5% em 2016. Entre as mulheres, esse percentual alcançou 88,8%, ligeiramente superior ao observado entre os homens.

Apesar desse avanço, a pesquisa mostra que ainda persistem obstáculos à universalização do telefone celular. Entre aqueles que não possuíam aparelho, o principal motivo continuava sendo o custo do equipamento ou do serviço, seguido pelas limitações de cobertura da telefonia móvel em determinadas localidades do Estado.

Quadro 2 – Como os acreanos acessam a internet

Indicador20162025
Banda larga fixa49,2%89,1%
Banda larga móvel87,5%84,7%
Celular95,9%98,9%
Computador51,0%21,1%
Televisão conectada2,4%53,6%

Esses resultados revelam que a inclusão digital foi fortemente impulsionada pelo telefone celular. Entretanto, a redução do uso do computador merece reflexão. Embora o celular seja extremamente eficiente para comunicação e acesso a serviços cotidianos, muitas atividades ligadas à inovação, à produção de conteúdo, ao desenvolvimento de softwares e à qualificação profissional continuam dependendo de equipamentos com maior capacidade de processamento.

O acesso cresceu mais rapidamente do que os usos econômicos da internet

Se o acesso à internet praticamente deixou de ser um problema, a utilização da conectividade para atividades econômicas ainda representa um desafio.

As funções mais frequentes continuam relacionadas à comunicação e ao entretenimento. Mais de 93% dos usuários utilizam a internet para chamadas de voz ou vídeo, 85% assistem a vídeos e séries, enquanto 83% frequentam redes sociais.

Por outro lado, apenas 27,8% realizaram compras pela internet e somente 8,1% utilizaram plataformas digitais para vender ou anunciar produtos e serviços.

Também chama atenção o reduzido uso dos serviços públicos digitais. Apenas 35,8% dos usuários recorreram à internet para acessar algum serviço governamental, percentual inferior ao observado no conjunto do país.

Já a utilização de serviços bancários apresenta resultado mais expressivo. Cerca de dois terços dos usuários acessaram bancos ou outras instituições financeiras pela internet, demonstrando o avanço da inclusão financeira digital, embora ainda abaixo da média brasileira.

Esses indicadores mostram que o Acre já consolidou a internet como ferramenta de comunicação e entretenimento, mas ainda possui margem significativa para ampliar sua utilização em atividades capazes de gerar maior impacto econômico e social.

Quadro 3 – Principais finalidades do uso da internet no Acre (2025)

Finalidade% dos usuários
Chamadas de voz e vídeo93,3
Assistir vídeos, séries e filmes85,4
Redes sociais83,0
Mensagens por aplicativos82,2
Acesso a bancos67,1
Leitura de notícias58,4
Serviços públicos35,8
Compras on-line27,8
Venda de produtos e serviços8,1

Da inclusão digital para a transformação econômica

A principal conclusão da PNAD Contínua TIC 2025 é que o Acre venceu, em grande medida, o desafio da inclusão digital. Em menos de uma década, a internet deixou de ser um serviço restrito para tornar-se uma infraestrutura presente na quase totalidade dos domicílios e utilizada regularmente pela ampla maioria da população.

Essa conquista, entretanto, representa apenas o início de uma nova etapa. O desenvolvimento econômico dependerá cada vez menos da simples expansão da conectividade e cada vez mais da capacidade de transformar essa infraestrutura em ganhos de produtividade, inovação e competitividade.

Isso significa ampliar as competências digitais da população, fortalecer o ensino de tecnologias da informação, estimular o comércio eletrônico das pequenas empresas, expandir os serviços públicos digitais e apoiar o empreendedorismo baseado em inovação. Também implica reduzir as desigualdades de acesso a equipamentos mais adequados para atividades educacionais e profissionais, especialmente computadores, fundamentais para diversas ocupações da economia do conhecimento.

A experiência internacional mostra que países e regiões que transformaram a conectividade em política de desenvolvimento alcançaram ganhos expressivos de produtividade e competitividade. O Acre reúne hoje condições muito mais favoráveis do que há dez anos para trilhar esse caminho. A infraestrutura básica já foi construída. O grande desafio da próxima década será fazer com que essa conectividade se traduza em mais conhecimento, melhores empregos, empresas mais inovadoras e uma economia mais dinâmica e diversificada.

Orlando Sabino escreve às sextas-feiras no Juruá Online

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