O que as exportações revelam sobre a nova economia do Acre

As estatísticas do comércio exterior costumam revelar muito mais do que simplesmente o desempenho das vendas para o exterior. Elas mostram quais cadeias produtivas estão ganhando competitividade, quais perderam espaço ao longo do tempo e, principalmente, onde estão as melhores oportunidades para agregar valor e gerar renda dentro do próprio Estado.

Uma análise das exportações acreanas entre 2016 e o primeiro semestre de 2026, com base nos dados da Secretaria de Comércio Exterior (SECEX/MDIC), evidencia uma transformação significativa na pauta exportadora do Acre. Em apenas uma década, produtos que antes tinham participação modesta passaram a ocupar posição de destaque, enquanto outros, historicamente importantes, perderam relevância. Mais do que isso, os números mostram que o desafio do Acre deixou de ser apenas exportar mais: passou a ser exportar melhor.

A soja é um dos exemplos mais claros dessa transformação. Praticamente inexistente nas exportações até 2017, tornou-se rapidamente um dos principais produtos da pauta estadual. As vendas cresceram de forma acelerada, alcançando mais de US$ 21 milhões em 2024. Entretanto, os dois últimos anos mostram uma desaceleração. Em 2026, considerando apenas o primeiro semestre, as exportações somaram US$ 18 milhões, acompanhadas por redução tanto da quantidade embarcada quanto do valor comercializado. Como o preço médio internacional permaneceu relativamente estável, a retração está muito mais associada à queda da produção estadual, confirmando os dados recentes do IBGE sobre a redução da área cultivada.

Se a soja perdeu fôlego, a castanha consolidou-se como a grande vencedora da última década. As exportações da castanha com casca passaram de US$ 4,7 milhões em 2016 para mais de US$ 13 milhões no primeiro semestre de 2026. O aspecto mais expressivo, porém, foi a valorização do produto. O preço médio do quilograma, que girava em torno de US$ 1,00 durante boa parte da série, atingiu US$ 2,54 em 2026. Trata-se de uma combinação extremamente favorável: crescimento simultâneo do volume exportado e da remuneração obtida no mercado internacional.

Ainda mais interessante é o comportamento da castanha sem casca. Embora represente um volume muito menor de exportações, seu preço médio alcança US$ 12,52 por quilograma, aproximadamente cinco vezes superior ao da castanha com casca. Isso demonstra, de forma inequívoca, que o maior potencial econômico da cadeia não está na exportação da matéria-prima, mas no beneficiamento realizado dentro do próprio Estado. Cada tonelada industrializada gera muito mais receita, emprego e renda do que a simples comercialização do produto in natura.

Outra mudança estrutural ocorreu na cadeia da carne bovina. Até poucos anos atrás, sua participação era relativamente modesta. A partir de 2024, entretanto, as exportações cresceram rapidamente, impulsionadas pela habilitação de frigoríficos acreanos para novos mercados internacionais. Em 2025, a carne bovina desossada congelada tornou-se um dos principais produtos exportados pelo Acre. Além do crescimento do volume, chama atenção a evolução do preço médio, que passou de US$ 2,77 por quilograma em 2016 para US$ 5,09 em 2026. A carne bovina refrigerada apresenta comportamento semelhante, reforçando o processo de consolidação da pecuária como um dos pilares das exportações acreanas.

Também merece destaque a cadeia da carne suína. Entre 2021 e 2024, as exportações cresceram de forma acelerada, chegando a quase US$ 16 milhões. Nos dois últimos anos, entretanto, ocorreu uma retração importante. Como o preço médio permaneceu praticamente estável, a redução decorre principalmente da queda do volume exportado, indicando dificuldades de mercado ou de oferta, e não perda de competitividade do produto.

Situação bastante diferente vive o setor madeireiro. Durante muitos anos, a madeira esteve entre os principais produtos da pauta exportadora do Acre. Hoje, sua participação é muito menor. As exportações de madeiras tropicais, madeiras perfiladas e outros produtos derivados apresentaram forte redução ao longo dos últimos anos. O curioso é que essa queda não decorre de desvalorização internacional. Os preços médios permaneceram relativamente estáveis. O problema parece estar na redução da oferta, nas restrições ambientais, na menor disponibilidade de planos de manejo e, principalmente, na mudança da estrutura produtiva do Estado, que passou a depender mais das cadeias agropecuárias e agroindustriais.

Outro produto que evidencia forte dependência da produção agrícola é o milho. O comportamento das exportações acompanha quase integralmente o desempenho das safras. O preço internacional varia pouco ao longo dos anos, enquanto o volume embarcado oscila significativamente. Isso mostra que o milho continua funcionando muito mais como um excedente exportável do que como uma cadeia estruturada voltada ao mercado externo.

Observando a pauta como um todo, fica evidente que o Acre exporta hoje uma cesta de produtos muito mais diversificada do que exportava há dez anos. Como demostrado no quadro 1, amadeira deixou de exercer a liderança quase absoluta. Em seu lugar ganharam espaço a soja, a carne bovina, a carne suína e, principalmente, a castanha. Essa diversificação torna a economia estadual menos vulnerável às oscilações específicas de um único setor e amplia as oportunidades de crescimento.

Quadro 1
Como mudou a pauta de exportações do Acre entre 2016 e 2026
Cadeia produtivaTendência na décadaO que mostram os dados
Soja▲ Forte expansão até 2024, seguida de retraçãoConsolidou-se como uma das principais commodities do Estado, mas perdeu dinamismo em 2025 e 2026 devido à redução da produção.
Castanha com casca▲ Crescimento muito forteTornou-se uma das grandes vencedoras da década, combinando aumento do volume exportado com forte valorização internacional.
Castanha sem casca▲ Alto valor agregado, porém pequena escalaContinua representando pequena parcela das exportações, mas possui o maior potencial de geração de renda devido ao elevado preço de venda.
Carne bovina▲ Expansão aceleradaTransformou-se em um dos principais motores das exportações acreanas, impulsionada pela abertura de novos mercados internacionais.
Carne suína▲ Crescimento até 2024 e queda recenteA cadeia ganhou importância, embora tenha apresentado retração nos dois últimos anos.
Milho► Elevada volatilidadeAs exportações acompanham o comportamento das safras, funcionando mais como excedente agrícola do que como cadeia estruturada.
Madeira tropical▼ Perda de protagonismoUm dos setores que mais perdeu participação na pauta exportadora, refletindo mudanças estruturais na economia e nas condições de oferta.
Fonte: SECEX/MDIC. Elaboração do autor.

Mas talvez a principal conclusão dessa série histórica esteja em outro aspecto. Quando se compara o preço médio dos produtos exportados, percebe-se claramente onde está o verdadeiro potencial de desenvolvimento. Enquanto a soja é comercializada por cerca de US$ 0,41 por quilograma e o milho por apenas US$ 0,19, a castanha beneficiada alcança US$ 12,52 por quilograma e a carne bovina supera US$ 5,00. Ou seja, o mercado internacional remunera muito melhor os produtos que incorporam processamento, qualidade e diferenciação, conforme demostrado no quadro 2.

Quadro 2
Agregar valor faz diferença: o preço por quilograma dos principais produtos exportados pelo Acre (2026) *
ProdutoPreço médio (US$/kg)
Castanha sem casca12,52
Carne bovina fresca ou refrigerada5,26
Carne bovina congelada5,09
Mogno3,92
Carnes suínas congeladas2,93
Carne suína fresca2,70
Carne suína não desossada2,58
Castanha com casca2,54
Miudezas bovinas2,09
Madeira tropical perfilada1,51
Madeira tropical1,11
Outras madeiras serradas0,78
Soja0,41
Milho0,19
Fonte: SECEX/MDIC. Elaboração do autor. *Janeiro a junho de 2026.

Essa constatação reforça uma lição que o Acre vem aprendendo ao longo dos últimos anos: aumentar a produção continua sendo importante, mas já não é suficiente. O grande salto econômico dependerá da capacidade de agregar valor às matérias-primas produzidas no Estado. Beneficiar a castanha, ampliar a industrialização das carnes, desenvolver novos produtos da sociobiodiversidade e investir em tecnologia e inovação representam caminhos muito mais promissores do que simplesmente ampliar o volume das commodities exportadas.

Em outras palavras, os dados mostram que o futuro das exportações acreanas não depende apenas de produzir mais. Depende, sobretudo, de transformar recursos naturais em produtos de maior valor agregado. É nessa direção que estão as maiores oportunidades de geração de emprego, renda e desenvolvimento para o Acre nas próximas décadas.

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