Quando se fala em biodiversidade, o Acre costuma aparecer entre os estados mais ricos do Brasil. Afinal, cerca de 85% do território estadual permanece coberto por florestas, abrigando uma enorme variedade de espécies animais e vegetais. Mas uma questão igualmente importante é saber quanto dessa riqueza natural é efetivamente conhecida pela ciência.
Dados recentemente divulgados pelo IBGE ajudam a responder essa pergunta. O levantamento mostra que o Acre registrou avanços expressivos no conhecimento de sua biodiversidade entre 2022 e 2025, acompanhando uma tendência nacional de ampliação dos registros científicos sobre espécies da fauna e da flora. A boa notícia é que o estado está reduzindo um antigo déficit de informações. A má notícia é que ainda existem grandes áreas pouco estudadas e importantes lacunas de conhecimento.
O Índice de Conhecimento da Biodiversidade do Acre praticamente dobrou no período, passando de 0,41 em 2022 para 0,80 em 2025, conforme os dados constantes no Quadro 1. O resultado coloca o estado em posição intermediária no ranking nacional, mas entre os mais bem posicionados da Amazônia brasileira, atrás apenas de Rondônia e Pará e à frente de Amazonas, Amapá e Roraima.
| Quadro 1 – Conhecimento da biodiversidade na Amazônia Legal (2025) | |||
| Índice de Conhecimento da Biodiversidade (0 a 1) | Número de registros de biodiversidade | ||
| Estado | Índice | Estado | Registros |
| Rondônia | 0,83 | Amazonas | 978.530 |
| Pará | 0,83 | Pará | 798.842 |
| Acre | 0,80 | Rondônia | 221.864 |
| Tocantins | 0,78 | Tocantins | 290.835 |
| Amapá | 0,76 | Acre | 159.145 |
| Amazonas | 0,72 | Roraima | 140.419 |
| Roraima | 0,69 | Amapá | 89.112 |
| Fonte: IBGE – Indicadores de Biodiversidade, 2025. | |||
O crescimento também aparece no número de registros disponíveis sobre espécies da fauna e da flora. Em apenas três anos, o total de registros do Acre saltou de 66 mil para mais de 159 mil, crescimento superior a 140%. Os maiores avanços ocorreram entre plantas vasculares, artrópodes, mamíferos e aves, indicando uma ampliação significativa do esforço de pesquisa e monitoramento.
Esses números possuem importância que vai muito além da curiosidade científica. O Acre aposta cada vez mais em estratégias de desenvolvimento associadas à bioeconomia, aos pagamentos por serviços ambientais, aos créditos de carbono e às cadeias produtivas da sociobiodiversidade. Nenhuma dessas atividades, porém, pode prosperar sem informações confiáveis sobre os recursos naturais existentes no território.
Em outras palavras, não basta possuir biodiversidade. É necessário conhecê-la.
Uma floresta desigual para a ciência
A análise dos dados municipais revela um aspecto ainda mais interessante: o conhecimento científico sobre a biodiversidade está distribuído de forma bastante desigual pelo território acreano.
Rio Branco aparece como o principal polo de produção e concentração de informações sobre biodiversidade. Conforme demostrado no Quadro 2, o município lidera o Índice de Conhecimento da Biodiversidade entre os 22 municípios acreanos, beneficiado pela presença da Universidade Federal do Acre, dos órgãos ambientais, dos centros de pesquisa e da maior infraestrutura logística do estado.
| Quadro 2 – Municípios acreanos mais e menos conhecidos pela ciência (2025) | |||
| Os mais estudados | Os menos estudados | ||
| Município | Índice | Município | Índice |
| Rio Branco | 0,56 | Xapuri | 0,30 |
| Cruzeiro do Sul | 0,43 | Porto Walter | 0,22 |
| Senador Guiomard | 0,43 | Feijó | 0,20 |
| Mâncio Lima | 0,41 | Marechal Thaumaturgo | 0,20 |
| Porto Acre | 0,41 | Jordão | 0,19 |
| Manoel Urbano | 0,39 | Santa Rosa do Purus | 0,19 |
| Brasiléia | 0,35 | Plácido de Castro | 0,17 |
| Bujari | 0,31 | Epitaciolândia | 0,15 |
| Assis Brasil | 0,30 | Acrelândia | 0,13 |
| Sena Madureira | 0,30 | Capixaba | 0,13 |
| Tarauacá | 0,30 | Rodrigues Alves | 0,13 |
| Fonte: IBGE – Indicadores de Biodiversidade, 2025. | |||
Na sequência surgem Cruzeiro do Sul (também com Campus da UFAC), Senador Guiomard, Mâncio Lima, Manoel Urbano e Brasiléia, formando um grupo de municípios com indicadores relativamente elevados.
O destaque de Cruzeiro do Sul e Mâncio Lima merece atenção especial. Os resultados mostram que o Vale do Juruá vem se consolidando não apenas como um polo econômico regional, mas também como um importante polo de produção de conhecimento sobre a biodiversidade acreana. Esse avanço está associado às pesquisas desenvolvidas na Serra do Divisor, à atuação do Campus Floresta da UFAC e aos diversos projetos de monitoramento ambiental realizados na região.
Por outro lado, municípios como Jordão, Santa Rosa do Purus, Acrelândia, Capixaba, Rodrigues Alves, Epitaciolândia e Plácido de Castro apresentam indicadores significativamente inferiores.
O caso de Jordão e Santa Rosa do Purus é particularmente emblemático. Ambos possuem extensas áreas preservadas, elevada cobertura florestal e grande riqueza biológica potencial. Ainda assim, figuram entre os municípios menos conhecidos do ponto de vista científico.
Essa aparente contradição revela uma característica comum da Amazônia: os locais mais biodiversos nem sempre são os mais estudados.
| O paradoxo acreano• Municípios mais preservados não são necessariamente os mais estudados; • A distância dos centros de pesquisa influencia a quantidade de registros; • O Vale do Juruá surge como novo polo de conhecimento da biodiversidade; • Os maiores vazios científicos concentram-se em áreas remotas da floresta. |
O desafio da próxima década
Os dados do IBGE sugerem que o Acre está deixando de ser apenas um território rico em biodiversidade para se tornar também um território mais conhecido pela ciência. Trata-se de um avanço importante, mas insuficiente diante dos desafios futuros.
A consolidação da bioeconomia, dos mercados de carbono, dos programas de conservação e das cadeias produtivas sustentáveis dependerá cada vez mais da capacidade de gerar informações qualificadas sobre a fauna, a flora e os serviços ecossistêmicos existentes no estado.
Nesse contexto, investimentos em pesquisa científica, inventários biológicos, monitoramento ambiental, ciência cidadã e fortalecimento das instituições de ensino e pesquisa devem ser encarados não como despesas, mas como investimentos estratégicos para o desenvolvimento.
Afinal, a biodiversidade somente pode ser protegida, valorizada e transformada em riqueza sustentável quando é conhecida.
Os números do IBGE mostram que o Acre avançou muito nos últimos anos. Mas também revelam que ainda existem grandes áreas da floresta acreana que permanecem praticamente invisíveis para a ciência. O desafio da próxima década será justamente iluminar esses vazios do conhecimento.



