As operações de busca e resgate foram temporariamente suspensas nesta sexta-feira (28) após um lago formado pelo deslizamento de uma geleira, na fronteira entre o Nepal e a China, começar a transbordar. O aumento do nível da água elevou o risco de uma nova enxurrada nas áreas já devastadas por uma inundação ocorrida dois dias antes.
Mais de 480 pessoas morreram e cerca de 1,5 mil estão desaparecidas após o colapso de uma geleira provocar uma violenta corrente de rochas, gelo, lama e outros detritos pelos sistemas fluviais do Himalaia.
A inundação atingiu vilarejos e vales e destruiu usinas de energia, estradas e pontes ao longo da rota que liga Katmandu a Lhasa, no Tibete chinês, utilizada por praticantes de trekking e peregrinos religiosos. A força da correnteza também fez com que a Índia recolhesse corpos que acredita serem de vítimas da tragédia.
Após o desastre, os detritos bloquearam o curso da água e formaram um lago represado, aumentando o risco de novas inundações nas comunidades localizadas rio abaixo.
Até esta sexta-feira, o reservatório já havia ultrapassado 2,5 milhões de metros cúbicos de água, acima da estimativa de 1,5 milhão a 2 milhões de metros cúbicos feita por uma equipe chinesa de engenharia no dia anterior.
Moradores do distrito de Rasuwa, no Nepal, próximo à fronteira com o Tibete chinês, foram vistos deixando áreas mais baixas e correndo para regiões elevadas diante do temor de uma elevação repentina do nível do rio.
O risco de rompimento do lago fez com que equipes e veículos de resgate chineses fossem temporariamente retirados para uma área segura de prontidão. O trabalho foi retomado pouco depois, após as autoridades considerarem os riscos relacionados ao represamento como administráveis.
No lado nepalês, o Exército confirmou que as operações de resgate foram interrompidas por aproximadamente 90 minutos.
Durante uma reunião nesta sexta-feira, presidida pelo presidente chinês Xi Jinping, autoridades destacaram a existência de riscos relacionados a geleiras, lagos glaciais e desastres geológicos na região. Também foi ressaltada a dificuldade das operações de resgate.
Sobrevivente relata momento da enxurrada
Equipes nepalesas utilizaram helicópteros para procurar sobreviventes e levar suprimentos de emergência a milhares de pessoas que ficaram isoladas em cidades e vales. Enquanto isso, equipes terrestres, algumas acompanhadas de cães farejadores, trabalhavam na localização e recuperação de corpos levados pela correnteza.
Um dos sobreviventes foi o agente da alfândega Karbir Gaire, que estava trabalhando em um escritório em Timure, vilarejo nepalês localizado próximo à fronteira com a China, quando sentiu o primeiro tremor.
“Logo depois, percebi uma nuvem negra vindo em nossa direção. Todos começaram a correr imediatamente para fora e, em poucos segundos, estávamos subindo uma encosta no lado oposto ao prédio do escritório. Acho que aqueles cerca de 10 segundos salvaram alguns de nós”, relatou.
Gaire não soube informar quantas pessoas estavam no escritório no momento do desastre. Segundo ele, 15 colegas continuam desaparecidos.
O sobrevivente descreveu Timure como uma comunidade movimentada, com repartições públicas, hotéis, cafés, bancos, escolas, casas de chá e prédios residenciais. Mais de 1,5 mil pessoas viviam no local.
“Parecia uma cena de filme de Hollywood. Eu não chamo isso de enchente, foi um tsunami”, afirmou.
Cientistas relacionam desastre às mudanças climáticas
Imagens divulgadas após a tragédia mostraram grandes volumes de água barrenta e detritos destruindo estruturas na região da passagem de fronteira em poucos segundos e atingindo pessoas que tentavam escapar.
Cientistas que analisaram imagens de satélite afirmaram que a geleira foi arrastada pelo colapso das rochas que estavam abaixo dela. O deslizamento atingiu magnitude 5,2 em medições sísmicas.
As rochas e a água do degelo aumentaram o volume dos rios nos vales abaixo, provocando uma torrente que arrastou edifícios, pontes e grandes quantidades de solo tanto no Tibete quanto no Nepal.
O geógrafo Alton Byers, especialista em regiões montanhosas da Universidade do Colorado, afirmou que a área ficou em um cenário de grande devastação e que a recuperação deverá levar muitos anos.
Pesquisador de riscos relacionados a geleiras, Byers viveu no Nepal e retorna ao país anualmente para estudar os perigos associados a essas formações e auxiliar comunidades na preparação para possíveis desastres. Segundo ele, essa foi a maior inundação provocada por geleiras que já presenciou.
O pesquisador também relacionou o desastre às mudanças climáticas. Segundo ele, o aquecimento global contribui para o derretimento de geleiras e do permafrost, aumentando a instabilidade e favorecendo o desprendimento de grandes massas de neve e gelo em regiões de alta altitude.
“Todos os indícios, para mim, apontam para os impactos das tendências de aquecimento”, afirmou. Segundo Byers, o permafrost, que durante milhares de anos ajudou a manter unidos rochas, gelo, solo e geleiras em grandes altitudes, está se tornando mais frágil e instável.
Nepal não pretende aceitar ajuda internacional
Apesar das ofertas de auxílio feitas por diversos países, o governo do Nepal informou que, neste momento, não considera necessária a participação de equipes internacionais nas operações de busca e resgate.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Lok Bahadur Chhetri, afirmou que as próprias agências de segurança do país estão conduzindo os trabalhos.
Uma equipe sul-coreana de resposta rápida já está em Katmandu, mas ainda não foi mobilizada porque o governo nepalês não apresentou um plano para receber equipes estrangeiras de resgate. Trabalhadores sul-coreanos de uma usina hidrelétrica da região estão entre os mortos e desaparecidos.
Além da Coreia do Sul, Índia, China, Estados Unidos, Reino Unido, Japão, Sri Lanka e Bangladesh teriam solicitado autorização para participar das operações.
Para Dinesh Bhattarai, ex-embaixador do Nepal junto às Nações Unidas em Genebra, a decisão pode estar relacionada à localização estratégica do distrito de Rasuwa, atingido pelas inundações e situado na fronteira com o Tibete chinês.
“Eles podem ter levado em consideração a sensibilidade geográfica da região e decidido não aceitar equipes estrangeiras”, afirmou.
No lado chinês, equipes de resgate ainda enfrentavam dificuldades para alcançar a região mais afetada, na passagem fronteiriça de Gyirong. Trabalhadores atuavam na remoção dos escombros da principal estrada de acesso.
Até o momento, cinco mortes foram confirmadas no lado chinês. As informações sobre a situação no Tibete são limitadas, já que a região é amplamente inacessível a jornalistas estrangeiros e os dados dependem das autoridades chinesas.
O primeiro-ministro chinês, Li Qiang, chegou a Gyirong na tarde de quinta-feira (27), segundo a agência estatal Xinhua. A presença do segundo mais alto dirigente do país indica que Pequim considera a tragédia uma questão de grande prioridade nacional.





