O que seria um casamento coletivo em um estádio terminou em uma cerimônia emocionante dentro da sala de emergência de um hospital. A manicure Francisca Mesquita da Silva, de 39 anos, passou mal momentos antes de oficializar a união com o companheiro Francisco Jander Costa Bezerra, de 35 anos, e precisou ser levada às pressas para a Unidade Mista de Saúde de Rodrigues Alves, no interior do Acre.
Mesmo diante da emergência médica, o casal não precisou adiar o sonho do casamento. Sensibilizada com a situação, a juíza Mirella Ribeiro, responsável pela celebração do Casamento Coletivo promovido pelo Projeto Cidadão, deixou o Estádio Pedro Santana após o encerramento da cerimônia e foi até o hospital para oficializar a união.
Vestida de noiva e deitada em um leito da sala de emergência, Francisca respondeu “sim” ao lado do companheiro, que permaneceu com ela durante todo o atendimento. A cerimônia foi marcada por emoção, lágrimas, troca de alianças e um beijo, transformando um momento de preocupação em uma lembrança inesquecível para o casal.
Emergência antes dos votos
Segundo Francisca, ela começou a sentir uma forte dor de cabeça enquanto aguardava o início da cerimônia. Em seguida, apresentou enjoo, dormência no rosto e perdeu os movimentos do lado esquerdo do corpo.
A pressão arterial chegou a 16 por 11, levando a equipe médica a suspeitar do início de um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Diante do quadro, o noivo decidiu levá-la imediatamente ao hospital, sem esperar pela chegada do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).
"Eu só queria casar. Mesmo passando mal, pedi para não me tirarem de lá", relembrou a noiva.
Após ser estabilizada, Francisca foi surpreendida com a chegada da magistrada.
"O médico perguntou se eu autorizava a entrada dela. Eu disse: 'Claro. Era tudo o que eu queria'. Ela foi muito humana e realizou nosso sonho", afirmou.
Casamento no hospital
Ao chegar à unidade de saúde, a juíza realizou uma breve cerimônia ao lado do leito da paciente.
Durante os votos, perguntou ao noivo se aceitava Francisca como esposa e, em seguida, fez a mesma pergunta à noiva. Após o tradicional “sim”, declarou oficialmente o casal como marido e mulher.
Para a magistrada, o local não poderia impedir a realização de um sonho.
"Era o desejo da noiva e não custava nada irmos até a unidade de saúde fazer o casamento dela. O Projeto Cidadão existe justamente para concretizar sonhos", destacou Mirella Ribeiro.
União aguardada há anos
Moradores do bairro Cohab, em Cruzeiro do Sul, Francisca e Jander vivem juntos há seis anos e buscavam oficializar a união há bastante tempo. Segundo eles, os custos do casamento civil impediram a realização desse sonho em outras oportunidades.
A participação no Casamento Coletivo representava a oportunidade de finalmente regularizar a união.
"Apesar de não ter sido como imaginávamos, foi um momento muito gratificante. Graças a Deus foi apenas um susto e agora estamos bem e casados", comemorou Jander.
Histórico de superação
A emoção do casamento também foi marcada pelo histórico recente de dificuldades enfrentadas por Francisca.
Em 2025, ela descobriu uma gravidez que evoluiu com pré-eclâmpsia e foi considerada de alto risco. Durante os exames, médicos identificaram uma síndrome grave no bebê e recomendaram a interrupção da gestação. O casal, porém, decidiu manter a gravidez por convicção religiosa.
A bebê morreu ainda no ventre da mãe, aos seis meses de gestação.
Após o parto, Francisca enfrentou complicações que exigiram cinco procedimentos de curetagem. Durante os exames, recebeu ainda o diagnóstico de câncer no colo do útero.
Há oito meses, ela realiza tratamento oncológico em Rio Branco e já passou por uma Cirurgia de Alta Frequência (CAF), sem necessidade de quimioterapia.
Mesmo diante das dificuldades, ela mantém a esperança.
"De agora em diante quero viver em paz. Temos enfrentado muitas batalhas, mas tenho fé que vamos viver o extraordinário de Deus."
Após o atendimento em Rodrigues Alves, Francisca foi transferida para o Hospital Regional do Juruá, em Cruzeiro do Sul, onde realizou uma tomografia e permaneceu internada para observação.
A história do casal emocionou familiares, profissionais de saúde, servidores da Justiça e participantes do Casamento Coletivo, tornando-se um dos momentos mais marcantes da edição do Projeto Cidadão realizada no Vale do Juruá.





