Laudos de necropsia de fisiculturistas que morreram precocemente após anos de uso de anabolizantes têm revelado um padrão preocupante: corações significativamente maiores do que o normal, espessamento das paredes cardíacas e graves alterações nas artérias responsáveis pela circulação sanguínea.
O tema voltou ao debate após uma série de mortes recentes envolvendo atletas da modalidade, entre elas a do fisiculturista baiano Mailson Araújo, de 35 anos, que faleceu nesta semana. A causa da morte ainda não foi divulgada.
Um dos casos mais conhecidos é o do norte-americano Dallas McCarver, considerado uma das principais promessas do fisiculturismo mundial. Conhecido como “Big Country”, ele morreu em 2017, aos 26 anos.
A necropsia apontou que o coração do atleta pesava 833 gramas, mais que o dobro do peso considerado normal para um homem adulto. O exame também identificou espessamento do ventrículo esquerdo, responsável por bombear sangue para todo o organismo, além de placas de gordura acumuladas nas artérias.
Segundo a análise médica, o uso prolongado de anabolizantes contribuiu para o quadro. O exame toxicológico encontrou níveis de testosterona sintética superiores a 30 vezes o limite considerado normal.
Estudos apontam risco elevado
Uma pesquisa publicada no European Heart Journal acompanhou mais de 20 mil fisiculturistas profissionais e amadores durante 16 anos. Os resultados mostraram que atletas profissionais apresentaram taxa de morte súbita cardíaca cinco vezes maior do que a observada entre amadores.
Entre competidores do Mr. Olympia, principal torneio da modalidade, o estudo identificou sete mortes para cada 100 atletas analisados, com idade média de apenas 36 anos.
Outra pesquisa, publicada em 2025 na revista Circulation, acompanhou usuários de anabolizantes por mais de uma década. O estudo concluiu que essas pessoas apresentaram risco quase nove vezes maior de desenvolver cardiomiopatia, além de maior probabilidade de infarto e insuficiência cardíaca.
O que acontece com o coração
Especialistas explicam que atletas que praticam musculação intensa podem apresentar um aumento fisiológico do coração como adaptação ao treinamento. No entanto, esse crescimento costuma ser limitado e reversível.
Já o uso contínuo de anabolizantes pode provocar alterações mais graves, incluindo aumento excessivo do músculo cardíaco, dilatação das câmaras do coração, perda da capacidade de bombeamento e surgimento de cicatrizes internas que favorecem arritmias potencialmente fatais.
Estudos forenses realizados na Itália e na Espanha identificaram fisiculturistas com corações pesando entre 420 e 440 gramas e paredes cardíacas mais de duas vezes mais espessas que o normal.
Em alguns casos, as necropsias encontraram obstruções superiores a 75% nas principais artérias coronárias, mesmo em atletas jovens sem histórico familiar conhecido de doenças cardíacas.
Falta de dados no Brasil
Apesar dos casos recorrentes, o Brasil ainda não possui um levantamento nacional sobre mortes associadas ao uso de anabolizantes.
Especialistas explicam que muitos casos acabam registrados apenas como parada cardíaca, infarto ou cardiomiopatia, sem que a relação com substâncias anabolizantes seja oficialmente identificada.
Desde 2023, o Conselho Federal de Medicina proíbe a prescrição de anabolizantes para fins estéticos. Ainda assim, médicos e pesquisadores alertam que o consumo dessas substâncias continua crescendo dentro e fora do meio competitivo.
Para especialistas, os casos reforçam a necessidade de acompanhamento médico adequado, conscientização sobre os riscos e maior produção de dados sobre os impactos do uso indiscriminado de anabolizantes na saúde cardiovascular.
Com informações da BBC News Brasil.






