Medo de assaltos faz taxistas pedirem que passageiros guardem celulares em São Paulo

O medo de assaltos tem levado taxistas de São Paulo a fazer um pedido cada vez mais frequente aos passageiros: guardar o celular durante as viagens. O que antes era apenas uma recomendação passou a ser um alerta insistente diante do risco de criminosos quebrarem os vidros dos veículos para roubar aparelhos.

Além dos prejuízos financeiros, os ataques podem deixar os motoristas dias sem trabalhar. Gangues especializadas na chamada modalidade “quebra-vidro”, além de criminosos que agem sozinhos, atuam em diferentes regiões da capital paulista e fazem com que taxistas e motoristas de aplicativo adotem medidas para tentar evitar os assaltos.

O uso do celular durante a viagem é comum entre passageiros, que aproveitam o tempo dentro do veículo para trabalhar, responder mensagens ou realizar outras tarefas. No entanto, deixar o aparelho exposto próximo às janelas pode aumentar o risco de uma abordagem criminosa.

Taxista perdeu dois vidros em um ano

A taxista Luciana Malheiros perdeu dois vidros do veículo em um período de apenas um ano devido à ação de criminosos. Em uma das ocorrências, ela chegou a alertar uma passageira sobre o risco pouco antes do assalto.

“Disse para a mocinha desligar o celular, ela falou que estava desligando, mas não deu nem tempo”, relatou.

Segundo Luciana, somente a substituição de um dos vidros custou quase R$ 500. Embora o seguro cubra a peça, o prazo para o reparo pode chegar a sete dias, o que representa perda de renda para quem depende do veículo para trabalhar.

“A seguradora dá o vidro, mas demora sete dias. Você acaba comprando do próprio bolso para não ficar parada”, afirmou.

Prejuízo inclui dias sem trabalhar

O taxista Luiz Evandro, de 62 anos, passou 24 anos trabalhando pelas ruas de São Paulo e também já foi vítima de criminosos.

Além do custo para substituir o vidro quebrado, ele afirma ter perdido vários dias de trabalho. O prejuízo total chegou a aproximadamente R$ 1 mil.

“Quebraram o vidro no sábado à noite, faltando duas horas para eu terminar o trabalho. No domingo, iria trabalhar para compensar um dia. Na segunda, não trabalhei. Só na terça à tarde fui trabalhar. Além de pagar o vidro, deixei de trabalhar”, contou.

Segundo o taxista, mesmo com os pedidos para que os passageiros mantenham os celulares guardados no bolso ou na bolsa, alguns insistem em utilizar os aparelhos.

“Eu sei, mas eu preciso trabalhar”, costumam responder alguns passageiros, de acordo com Luiz.

Taxistas alertam passageiros

Custódio Caetano Pinto, de 67 anos, também já enfrentou uma situação semelhante. O taxista, que trabalha há 26 anos na profissão, suspeita que um limpador de vidros tenha sido responsável por quebrar o menor dos vidros traseiros de seu carro e roubar o celular de um passageiro.

“Deu o golpe certinho. Foi na mão do senhor de idade”, relatou.

Diante dos riscos, Pinto afirma que procura orientar os passageiros sempre que considera necessário.

“Recomendo não usar de jeito nenhum, principalmente nos bairros de periferia ou lugar de perigo”, disse.

São Paulo tem uma das maiores taxas do país

A Secretaria da Segurança Pública (SSP) não possui dados específicos sobre roubos e furtos de celulares envolvendo exclusivamente taxistas.

De forma geral, porém, dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública apontam que a cidade de São Paulo tem a terceira maior taxa de celulares roubados ou furtados entre as cidades brasileiras.

No ano passado, a capital paulista registrou 1.390,5 celulares levados por criminosos para cada 100 mil habitantes. O índice é quase quatro vezes maior que a média nacional, de 371,2 ocorrências por 100 mil habitantes.

SSP afirma que combate foi intensificado

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública informou que as Polícias Civil e Militar atuam de forma integrada no combate aos crimes patrimoniais na capital.

Segundo a pasta, o enfrentamento aos roubos e furtos de celulares foi intensificado por meio de ações de inteligência, investigação e policiamento ostensivo. Entre as medidas estão operações específicas contra a modalidade “quebra-vidro”, ações preventivas voltadas a motoristas e reforço da segurança em vias com maior número de ocorrências.

A SSP também informou que os roubos de celulares na capital caíram 14,8% no primeiro semestre deste ano em comparação com o mesmo período de 2025.

Desde junho de 2025, mais de 31,9 mil celulares foram recuperados no estado por meio do programa SP Mobile, que busca localizar aparelhos roubados ou furtados quando são ativados por terceiros, inclusive pessoas que podem não saber da origem ilícita dos dispositivos.

Desse total, cerca de 33% dos aparelhos recuperados já foram devolvidos aos proprietários.

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