Campeão nacional precisa vender estádio de 94 anos para quitar metade de dívida milionária

Títulos, acessos, times marcantes, ídolos. Todas estas glórias ficarão para sempre na história do Tupi. No entanto, esta trajetória vitoriosa ficou para trás. Vítima de más administrações, o clube mineiro, campeão da Série D do Campeonato Brasileiro de 2011 e com vários títulos em âmbito estadual, escreve e vive as piores páginas da própria história e vai precisar vender um estádio quase centenário para iniciar um longo caminho para tentar retornar aos dias de glória.

A Justiça determinou que o Alvinegro venda o Estádio Salles Oliveira, de 94 anos de história, como parte do plano para prosseguir na Recuperação Judicial. O Tupi sanou as pendências que travavam a RJ, que foi homologada no fim de março.

O problema é que o caminho não será fácil. A praça esportiva, que não é mais utilizada desde o começo dos anos 2000 para jogos oficias do profissional, mas tem história para o Carijó com grandes jogos no Século XX, está avaliada em R$ 12 milhões. A dívida total do Tupi é o dobro e ultrapassa os R$ 24 milhões.

A Recuperação Judicial é um passo importante para que o Galo Carijó avance para se tornar uma Sociedade Anônima do Futebol. O Alvinegro e a Magnitude Participações Ltda., que aparece como principal interessada na aquisição do clube, optaram pelo regime com objetivo de controlar o passivo da entidade.

Campeão da Série D do Campeonato Brasileiro, seis vezes campeão do Mineiro do Interior e com acessos e times importantes no cenário nacional, o Tupi está em grave crise financeira, que teve origem após más administrações e que foi agravada com a pandemia da Cobid-19.

Em oito anos o time teve uma derrocada esportiva e administrativa. O clube saiu da Série B do Campeonato Brasileiro e da elite do Mineiro, onde era uma das principais forças do interior, para a terceira e última divisão estadual, sem calendário nacional.

Vendas do Salles Oliveira e da SAF

O juiz de Direito titular da Vara de Sucessões, Empresarial e de Registros Públicos da Comarca de Juiz de Fora, Augusto Vinícius Fonseca e Silva, determinou no dia,19 de março, a alienação do Salles Oliveira, que fica no Bairro Santa Terezinha, Zona Nordeste de Juiz de Fora.

O estádio, que foi fundado em 19 de junho de 1932, deixou de ser a casa do Tupi há décadas para se tornar uma possível salvação para aliviar as dívidas do clube.

Objeto constante de penhoras por conta de processos trabalhistas, a praça esportiva foi o trunfo utilizado pelo Alvinegro para ter a Recuperação Judicial aprovada

.O Tupi, que chegou até a firmar uma parceria com uma construtora de Juiz de Fora para ceder o estádio em troca do pagamento de dívidas e da construção de um novo CT em 2020, foi determinado a vender o Salles Oliveira.

De acordo com a decisão judicial, o Tupi fará isso através de uma UPI (Unidade Produtiva Isolada). O mecanismo é comum em recuperações judiciais de clubes de futebol.

Como um clube endividado não pode se desfazer dos bens que possui para manter as garantias de pagamento aos credores, a UPI é uma estrutura que separa ativos, como marca, estádio, SAF e clube social para permitir a venda sem riscos de ações de quem tem dinheiro receber da entidade.

O estádio não vai a leilão. A praça esportiva será colocada à venda de maneira aberta e o pagamento será de forma parcelada. Assim que o Tupi receber as parcelas, o dinheiro será destinado aos credores, Todo o processo só será concluído com o crivo da Justiça.

Além isso será constituída a UPI Futebol. A estrutura vai englobar os ativos relativos ao futebol para a eventual venda da SAF. As propostas serão enviadas para um Administrador Judicial, responsável por fiscalizar a empresa devedora, organizar o quadro de credores, elaborar relatórios e garante a saúde do processo para devedores e credores. A negociação também depende do crivo judicial para ser concluída e homologada.

Até o momento, a única empresa que demonstrou publicamente o desejo de adquirir a SAF do Tupi é a Magnitude Participações Ltda. A companhia tem conversado com o clube desde 2024, quando o Galo Carijó aprovou a adequação do estatuto para se tornar uma Sociedade Anônima de Futebol.

Tupi sana pendências e Justiça homologa RJ

O processo de Recuperação Judicial do Tupi foi aceito pela Vara de Sucessões, Empresarial e de Registros Públicos da Comarca de Juiz de Fora em dezembro de 2024.

De lá para cá, o clube precisou fazer adequações solicitadas pelo Administrador Judicial e acolhidas e determinadas pela Justiça para que a RJ tivesse prosseguimento.

Depois de alguns credores contestarem o plano de RJ, o que é permitido neste tipo de caso, a Justiça indeferiu alguns pedidos ou homologou a desistência por parte de quem tem direito de receber dinheiro do Tupi de se opor à Recuperação Judicial,

Mesmo assim, apesar de ter caminho livre para dar sequência ao regime, o Tupi precisou resolver pendências após decisão judicial de dezembro de 2025.

O clube apresentou a Certidão Negativa de Débito do Estado de Minas Gerais e conseguiu a Certidão Positiva com efeito de Negativa junto à Receita Federal do Brasil.

A CND relativa ao município de Juiz de Fora não foi conseguida pelo clube. O Tupi alegou que não conseguiu o documento por conta da inexistência de legislação específica do ente público que autorize parcelamento diferenciado para sociedade em Recuperação Judicial.

Além disso, a Administradora Judicial apontou divergência entre a legislação municipal que rege o parcelamento concedido às sociedades devedoras e a previsão de parcelamento que consta na Lei Federal n. 11.101/2005, que regula a recuperação judicial, a extrajudicial e a falência do empresário e da sociedade empresária.

Assim, o juiz de Direito titular da Vara de Sucessões, Empresarial e de Registros Públicos da Comarca de Juiz de Fora, Augusto Vinícius Fonseca e Silva, dispensou a apresentação da CND.

Derrocada esportiva e administrativa

O pior momento esportivo e administrativo do Tupi estourou na gestão de Eloísio Pereira de Siqueira, atual presidente do clube. No entanto, o cenário atual é consequência de más administrações mascaradas pelo sucesso dentro de campo.

Seis vezes campeão do Mineiro do Interior — o segundo maior da história, atrás apenas da Caldense, com oito — e conhecido como o Fantasma do Mineirão, pelas vitórias diante de Atlético-MG, Cruzeiro e América-MG em 1966 (relembre no vídeo acima), o Carijó tinha tradição a nível estadual. Porém, a partir de 2011, o Galo ficou conhecido nacionalmente.

Com uma grande campanha, o Tupi conquistou o acesso na Série D do Brasileirão naquele ano e chegou a decisão diante do Santa Cruz. Considerado como azarão, o time mineiro venceu os dois jogos, calou o Estádio do Arruda com mais de 60 mil pessoas e se sagrou campeão sob a batuta do experiente técnico Ricardo Drubscky (confira o especial abaixo).

Apesar do rebaixamento na Série C de 2012, onde o clube já enfrentava problemas financeiros com salários atrasados, o time conseguiu outro acesso na Série D, desta vez em 2013, quando o time do técnico Felipe Surian eliminou o Mixto-MT e conquistou a promoção.

Apesar do acesso, aquela campanha ficou marcada por outro motivo. O Tupi teve um gol evitado por Esquerdinha, massagista da Aparecidense, no jogo de volta das oitavas de final. Ele invadiu o campo e impediu que o chute do atacante Ademilson entrasse. O Galo acabou eliminado em campo com o empate em 2 a 2, mas ganhou a vaga nos tribunais, por decisão do STJD (relembre o caso na íntegra). Mário Bittencourt, atual presidente e que era advogado do Fluminense, defendeu o time mineiro.

De volta à Série C, o Tupi fez uma grande campanha na competição sob comando de Leo Condé, atualmente no Ceará. No entanto, o time foi eliminado pelo Paysandu nas quartas de final e ficou pelo caminho em 2014.

No ano seguinte, o acesso veio. O time de Leston Júnior foi consistente em 2015 e conseguiu subir de divisão ao eliminar o ASA-AL

Em todas as campanhas acima, que aconteceram durante as gestões de Áureo Fortuna e Myrian Fortuna, houve dois padrões. O Tupi teve grande desempenho desportivo, mas viveu problemas financeiros sérios, com dificuldades de pagamento de obrigações trabalhistas, premiações e de sustentar o dia a dia.

A partir de 2016, o que se viu foi o início de uma derrocada desportiva e administrativa. A boa campanha na Série C de 2017, onde o time perdeu o acesso para o Fortaleza, e o título do Mineiro do Interior em 2018 foram os últimos suspiros de um projeto vencedor, mas insustentável economicamente.

Com isso, o Tupi fez um bate e volta na Série B e foi rebaixado em 2016, com algumas rodadas de antecipação (confira os erros que o clube cometeu). A equipe cairia novamente de divisão em 2018, após péssima campanha na Série C.

Tudo piorou em 2019. O Alvinegro foi rebaixado no Campeonato Mineiro, algo que não acontecia desde 2004, e foi eliminado na primeira fase da Série D do Campeonato Brasileiro.

A partir dali, o Tupi ficou sem disputar a primeira divisão estadual e, sem índice técnico por não competir na elite em Minas Gerais, perdeu o calendário nacional.

Após disputar o Módulo 2 por quatro temporadas, o Carijó acabou rebaixado para a Segunda Divisão do Mineiro, a terceira em Minas Gerais, em 2024, não conseguiu o acesso em 2025 e deve tentar a promoção novamente em 2026.

Por Globo Esporte

spot_img

Notícias relacionadas:

ÚLTIMAS NOTÍCIAS