Agente do ICE é indiciado nos EUA por supostamente mentir sobre tiro contra imigrante

Um agente do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) foi indiciado em âmbito federal por supostamente mentir sobre as circunstâncias que levaram ao disparo contra um imigrante venezuelano no início deste ano. O homem atingido foi baleado na perna durante uma operação de imigração.

O agente, identificado como Christian Castro, enfrenta várias acusações relacionadas à prestação de declarações falsas, segundo pessoas familiarizadas com o caso. As acusações federais ainda não haviam sido divulgadas publicamente.

O caso ganhou repercussão por envolver uma operação do ICE e pode representar um precedente. Trata-se, segundo as informações disponíveis, da primeira vez que o Departamento de Justiça dos Estados Unidos acusa federalmente um agente por conduta praticada durante o serviço em operações de imigração amplamente acompanhadas em todo o país.

Castro também responde a acusações separadas em Minnesota, onde promotores estaduais o acusam de agressão de segundo grau e de prestar falso testemunho.

Investigação mudou versão apresentada pelo agente

Inicialmente, promotores federais haviam acusado Julio Cesar Sosa-Celis, de 24 anos, que foi baleado por Castro, e outro homem de agredirem um agente do ICE utilizando uma pá de neve e um cabo de vassoura.

As acusações contra os dois, porém, foram retiradas depois que investigadores analisaram imagens de câmeras de segurança e outros materiais relacionados ao episódio. As evidências, segundo os investigadores, contradiziam a versão apresentada por Castro.

Após o episódio, Castro e outro agente envolvido na operação foram colocados em licença administrativa.

Promotores federais informaram ao juiz responsável pelo processo contra Sosa-Celis que os agentes haviam feito “declarações falsas” sob juramento. Posteriormente, o então diretor do ICE, Todd Lyons, confirmou que o Departamento de Justiça investigava as declarações consideradas inverídicas.

Como ocorreu o disparo

Os promotores de Minnesota acusaram Castro, em maio, de ter atirado contra Sosa-Celis na parte de trás da perna através da porta do apartamento onde o imigrante estava.

De acordo com a acusação apresentada pelo estado, o episódio ocorreu depois que agentes do ICE tentaram abordar uma caminhonete pertencente a Joffre Barrera, um imigrante sem documentação.

O veículo era conduzido por Alfredo Alejandro Aljorna, primo de Sosa-Celis e entregador da plataforma DoorDash. Segundo as autoridades, Aljorna fugiu dos agentes.

Sosa-Celis relatou que Aljorna deixou o veículo e foi derrubado por um agente do ICE a poucos passos de seu apartamento. Ele afirmou que ordenou que o primo entrasse no imóvel e que, depois que os dois estavam atrás da porta, ouviu um disparo.

“Fechei a porta e, enquanto a trancava, ouvi o tiro. Foi aí que percebi que tinha sido baleado na perna”, relatou Sosa-Celis na época, durante uma transmissão ao vivo realizada do hospital.

Castro também enfrenta processo de extradição

O agente foi libertado de uma prisão no Texas na semana passada, depois que o governador do estado decidiu não aprovar imediatamente sua extradição para Minnesota.

Além das acusações estaduais, o Departamento de Justiça avalia se apresentará contra Castro acusações relacionadas à violação de direitos civis.

Uma fonte familiarizada com o caso afirmou que ainda não havia sido tomada uma decisão formal sobre a apresentação dessas acusações.

Procurador é demitido durante investigação

No início desta semana, um procurador federal que atuava no caso informou aos advogados de Sosa-Celis e de outras vítimas que funcionários do Departamento de Justiça haviam impedido uma tentativa de apresentar uma acusação mais grave contra Castro por violação de direitos civis relacionada ao tiroteio.

A informação foi divulgada na quarta-feira (2).

O procurador Matthew Evans foi posteriormente demitido e passou a ser investigado por uma suposta tentativa de obstrução de uma investigação de júri, segundo uma pessoa familiarizada com o caso.

Uma resposta automática do e-mail do departamento de Evans informava que ele estava de licença. Outras tentativas de contato com o procurador não tiveram resposta.

Advogada cobra responsabilização integral

Robin M. Wolpert, advogada de Sosa-Celis, afirmou que o indiciamento federal por declarações falsas não é suficiente diante das circunstâncias do caso.

Segundo ela, Castro teria mentido para encobrir o disparo contra seu cliente através da porta de uma residência ocupada.

A advogada também afirmou que as evidências sustentam acusações de violação de direitos civis e defendeu que o agente seja responsabilizado integralmente.

Casos envolvendo possíveis abusos de autoridade por agentes públicos costumam ter investigações prolongadas e podem levar meses ou anos até a conclusão. Como exemplos, processos relacionados às mortes de George Floyd e Breonna Taylor levaram períodos consideráveis até que acusações por violações de direitos civis fossem apresentadas.

Até o momento, o Departamento de Justiça ainda não havia anunciado uma decisão definitiva sobre novas acusações contra Christian Castro.

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