Guerra deixa marcas na saúde mental de 10 milhões de pessoas na Ucrânia

Após mais de quatro anos de guerra, a Ucrânia enfrenta uma grave crise de saúde mental. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 10 milhões de pessoas no país apresentam atualmente algum tipo de problema relacionado à saúde mental em decorrência do conflito.

Os impactos psicológicos atingem homens, mulheres e crianças e, segundo a OMS, começaram a se intensificar ainda antes da invasão russa em larga escala, iniciada em fevereiro de 2022. O médico Jarno Habicht, que atuou por oito anos como representante da organização na Ucrânia e deixou o cargo no início deste mês, afirma que a deterioração da saúde mental no país começou em 2014, quando a Rússia iniciou a ocupação da Crimeia.

Um dos relatos que ajudam a dimensionar esse impacto é o do escritor ucraniano Andrei Kurkov. Após quase dois anos de guerra, ele descreveu seu sono como ansioso e instável. No livro Ucrânia: diário de uma guerra, lançado em 2025 e baseado nos primeiros dois anos do conflito, Kurkov relata como a guerra passou a afetar o cotidiano e a saúde mental da população.

Segundo Habicht, uma em cada cinco pessoas que vivem em áreas afetadas pela guerra relatou algum tipo de condição adversa de saúde mental desde o início do conflito. Entre os fatores estão a ameaça constante à vida, ataques durante o dia e a noite, interrupções do sono, preocupação com familiares que servem nas forças armadas ou vivem em regiões próximas ao front e os impactos econômicos provocados pela guerra.

Dados recentes da OMS indicam que 76% da população ucraniana relatou problemas de saúde mental entre fevereiro de 2025 e fevereiro de 2026. Um estudo dos Médicos Sem Fronteiras, publicado em 2025, apontou a ansiedade como a principal complicação psicológica relacionada à guerra, atingindo 70% dos moradores. O estresse aparece em seguida, afetando 22% da população.

Guerra provocou milhões de deslocamentos

A guerra começou em 24 de fevereiro de 2022, quando a Rússia lançou uma invasão em larga escala contra a Ucrânia. De acordo com a Organização das Nações Unidas, cerca de 1,4 milhão de militares dos dois lados morreram. Entre os civis, o número de vítimas chega a aproximadamente 14 mil, enquanto mais de 37 mil pessoas ficaram feridas.

A violência também obrigou mais de 9 milhões de ucranianos a deixarem suas casas. Desse total, 5,9 milhões buscaram refúgio em outros países, segundo a Agência da ONU para Refugiados (Acnur), enquanto outros 3,7 milhões permanecem deslocados dentro da própria Ucrânia.

Rússia e Ucrânia iniciaram negociações sobre um possível acordo de paz em meados de 2025, com mediação dos Estados Unidos. Apesar dos esforços e da promessa do presidente Donald Trump de encerrar o conflito, as conversas não avançaram.

Para a OMS, mesmo o eventual fim dos bombardeios não significará uma recuperação imediata da saúde mental da população. Os efeitos psicológicos provocados por anos de violência, perdas e deslocamentos podem permanecer durante anos e atingir diferentes gerações.

Sistema de saúde é preparado para o pós-guerra

Diante desse cenário, a OMS defende o fortalecimento do sistema de saúde ucraniano para atender às consequências psicológicas do conflito também no período pós-guerra.

Parte desse trabalho já vem sendo realizada. Em 2019, a organização implantou na Ucrânia o Programa de Ação para Lacunas em Saúde Mental (mhGAP). Desde então, mais de 9 mil profissionais da atenção primária receberam treinamento para atender casos relacionados à saúde mental.

Em 2022, o governo ucraniano lançou o Programa Nacional de Saúde Mental “Como vai você?”, desenvolvido em parceria com a OMS, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e países aliados. A iniciativa, idealizada pela primeira-dama Olena Zelenska, oferece apoio psicossocial a pessoas afetadas pela violência.

Os esforços, porém, continuam enfrentando dificuldades devido à permanência dos ataques contra o território ucraniano. Bombardeios, mísseis, drones e artilharia também atingem a estrutura responsável por prestar atendimento à população.

Segundo a OMS, desde o início da invasão em larga escala, a organização verificou 3.257 ataques contra a assistência à saúde na Ucrânia, incluindo instalações médicas, ambulâncias, armazéns e outras estruturas do setor. Os ataques resultaram na morte de 246 pessoas e deixaram mais de 1.079 profissionais de saúde e pacientes feridos.

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