A análise da população ocupada no Acre, nos primeiros trimestres de 2016 a 2026, revela uma mudança importante na estrutura do mercado de trabalho. O dado mais relevante é que o peso do setor informal caiu de forma consistente, embora ainda permaneça elevado quando comparado ao Brasil.
Mais do que medir a quantidade de empregos, esses indicadores ajudam a compreender a qualidade das ocupações existentes no estado. A evolução da informalidade e as diferenças de rendimento entre as diversas posições na ocupação revelam avanços importantes, mas também desafios persistentes para o desenvolvimento econômico acreano.
Neste artigo, considera-se como setor informal a soma dos empregados do setor privado sem carteira assinada, trabalhadores domésticos sem carteira, empregadores sem CNPJ, trabalhadores por conta própria sem CNPJ e trabalhadores familiares auxiliares. Por esse critério, o Acre tinha, em 2016, 167 mil pessoas ocupadas nessas condições, o equivalente a 54,4% da população ocupada. Em 2026, esse contingente caiu para 141 mil pessoas, ou 43,8% do total, conforme gráfico a seguir.
Fonte: IBGE – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua trimestral
Ou seja, em dez anos, a informalidade no Acre recuou 10,6 pontos percentuais. No Brasil, a queda foi bem menor: de 38,3% para 37,3%, redução de apenas 1 ponto percentual. Isso mostra que o Acre teve uma melhora relativa mais expressiva, mas partiu de uma informalidade muito mais alta.
O destaque principal está entre os trabalhadores por conta própria. Em 2016, eles somavam 92 mil pessoas no Acre, representando 30% da população ocupada. Em 2026, caíram para 61 mil, ou 18,9% do total. No Brasil, ocorreu o contrário: os conta própria passaram de 22,6 milhões para 26 milhões, mantendo participação próxima de 25% da ocupação.
Dentro desse grupo, chama atenção o peso dos conta própria sem CNPJ. No Acre, eles eram 85 mil em 2016 e passaram para 54 mil em 2026. A participação desse grupo na população ocupada caiu de 27,7% para 16,8%. Mesmo assim, entre os trabalhadores por conta própria do estado, 88,5% ainda não tinham CNPJ em 2026. No Brasil, esse percentual era menor: 71,9%.
Portanto, a boa notícia é que o Acre reduziu a informalidade e diminuiu o peso do trabalho por conta própria sem CNPJ. A má notícia é que a informalidade ainda continua acima da média nacional e fortemente concentrada em ocupações de baixa proteção social, baixa formalização e menor acesso a crédito, previdência e políticas públicas.
Quem ganha menos no Acre? As diferenças de renda entre as posições na ocupação
No primeiro trimestre de 2026, conforme demonstrado na tabela a seguir, o rendimento médio mensal real dos ocupados no Acre foi de R$ 2.817, enquanto a média brasileira alcançou R$ 3.610. Isso significa que o trabalhador acreano recebeu, em média, apenas 78% do rendimento nacional, uma diferença de R$ 793 por mês.A tabela revela uma das principais fragilidades estruturais do mercado de trabalho acreano: além de apresentar uma elevada participação de trabalhadores informais, o estado também registra rendimentos médios inferiores aos observados no Brasil em praticamente todas as posições de ocupação analisadas.
| Rendimento médio mensal real das pessoas de 14 anos ou mais de idade ocupadas na semana de referência com rendimento de trabalho, habitualmente recebido no trabalho principal (Reais) – Brasil e Acre – primeiro Trimestre de 2026 pela Posição na ocupação e categoria selecionadas | ||
| Posição na ocupação de Categorias Selecionadas | Brasil | Acre |
| Média total | 3.610 | 2.817 |
| Ocupados no setor formal (sem o setor público) | 5.178 | 3.533 |
| Ocupados no setor público | 5.559 | 5.099 |
| Ocupados no setor informal (sem carteira assinada e sem CNPJ) | 2.867 | 2.259 |
| Empregados conta própria sem CNPJ | 2.250 | 1.669 |
| Fonte: IBGE – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua trimestral – Cálculos do autor | ||
Essa distância reflete características estruturais da economia estadual, marcada por baixa densidade industrial, predominância de atividades de serviços de menor produtividade e forte presença de ocupações informais.
O setor público continua pagando os melhores salários
Entre as categorias analisadas, os maiores rendimentos são observados no setor público. No Acre, os ocupados nesse segmento receberam, em média, R$ 5.099 mensais, valor 81% superior à média geral do estado. Apesar da diferença em relação ao Brasil — onde o rendimento médio do setor público alcançou R$ 5.559 — a distância é relativamente pequena, de apenas 8,3%. Isso demonstra que a remuneração do funcionalismo público acreano está mais próxima do padrão nacional do que ocorre nas demais categorias.Esse resultado ajuda a explicar por que a administração pública continua exercendo papel central na sustentação da renda das famílias acreanas.
O setor formal privado apresenta remuneração intermediária
Os trabalhadores do setor formal privado receberam em média R$ 3.532,50 no Acre, valor superior à média estadual, mas ainda bastante inferior aos R$ 5.178 observados no Brasil. A diferença de aproximadamente R$ 1.645 por mês evidencia que mesmo os empregos formais no Acre estão concentrados em atividades de menor produtividade quando comparados ao restante do país.
A informalidade não representa apenas menor proteção: representa também menor renda
Os dados mostram que a informalidade está associada a rendimentos significativamente menores. No Acre, os ocupados em atividades informais (sem carteira assinada e sem CNPJ) receberam, em média, R$ 2.258,50, cerca de 36% menos do que os trabalhadores do setor formal privado e 56% menos do que os ocupados do setor público. No Brasil, essa diferença também existe, mas os rendimentos são mais elevados: R$ 2.867,25. Isso significa que o trabalhador informal acreano sofre uma dupla desvantagem: possui menor proteção trabalhista e previdenciária e, ao mesmo tempo, recebe menos que seus equivalentes em nível nacional.
O grupo mais vulnerável é o dos conta própria sem CNPJ
A situação mais preocupante é observada entre os trabalhadores por conta própria sem CNPJ. No Acre, esse grupo recebeu apenas R$ 1.669 por mês, o menor rendimento entre todas as categorias analisadas. Esse rendimento equivale a apenas 59% da média estadual, 47% do rendimento dos trabalhadores formais privados e somente um terço da remuneração média dos ocupados no setor público. No Brasil, os conta própria sem CNPJ receberam em média R$ 2.250, valor 34,8% superior ao observado no Acre.
Os dados analisados mostram que o Acre avançou na redução da informalidade ao longo da última década, especialmente pela diminuição da participação dos trabalhadores por conta própria sem CNPJ. Ainda assim, a informalidade continua acima da média nacional e permanece associada aos menores níveis de rendimento.
O desafio do mercado de trabalho acreano não está apenas na geração de novas ocupações, mas principalmente na melhoria de sua qualidade. A ampliação da formalização, o fortalecimento do microempreendedorismo, o acesso ao crédito produtivo, a qualificação profissional e o aumento da produtividade das atividades econômicas locais são caminhos fundamentais para elevar a renda dos trabalhadores.
Em outras palavras, o Acre precisa continuar gerando empregos, mas sobretudo criar oportunidades capazes de transformar ocupações de sobrevivência em atividades mais produtivas, mais protegidas e mais bem remuneradas. É nessa transição que se encontra uma das chaves para o desenvolvimento econômico e social do estado.



