Professor do Instituto São José descreve medo, abalo psicológico e insegurança após atentado que deixou duas mulheres mortas e feridos dentro da unidade escolar
Cinco dias após o ataque que abalou o Instituto São José, em Rio Branco, o clima entre servidores, estudantes e familiares ainda é de choque, medo e profunda insegurança. O silêncio que tomou conta da escola desde a tragédia vai além do luto pelas vidas perdidas: ele revela uma comunidade escolar emocionalmente devastada e sem condições de retomar a rotina.
Em entrevista exclusiva, um professor da instituição afirmou que o retorno das atividades presenciais previsto para os próximos dias preocupa grande parte dos profissionais, que ainda enfrentam fortes impactos psicológicos após os momentos de terror vividos dentro da escola.
“Não temos condições de voltar. Estamos muito abalados psicologicamente. Os alunos também estão traumatizados”, desabafou o servidor.
O ataque aconteceu na última segunda-feira, 5 de maio, quando um adolescente de 13 anos entrou armado na unidade escolar. Duas mulheres morreram tentando impedir o avanço do estudante em direção às salas de aula: a inspetora Alzenir Pereira da Silva, de 56 anos, e a coordenadora Raquel Sales Feitosa, de 36.
Além das mortes, uma estudante de 11 anos foi baleada e outra funcionária ficou ferida.
“A sensação de segurança foi destruída”
Segundo o docente, o trauma vivido dentro da escola ainda impede qualquer sensação de normalidade. Ele relata que sons inesperados, movimentações bruscas e até lembranças do dia do atentado desencadeiam medo entre alunos e profissionais.
“As pessoas ainda estão em choque. Qualquer barulho assusta. A sensação de segurança foi destruída”, afirmou.
O professor avalia que o retorno imediato às aulas pode agravar ainda mais o estado emocional da comunidade escolar.
“Para a próxima segunda-feira, sinceramente, não vemos condições de retornar de maneira segura e emocionalmente estável. É muito difícil”, disse.
Professor cobra apoio emocional e valorização da educação
Durante a entrevista, o servidor também fez um desabafo sobre a realidade enfrentada pelos profissionais da educação e pediu mais apoio psicológico, valorização e proteção institucional aos professores.
Segundo ele, educadores frequentemente se tornam alvos de críticas e cobranças excessivas, enquanto enfrentam jornadas emocionalmente desgastantes dentro das escolas.
“É preciso acreditar nos funcionários, apoiar os professores. Nós também somos seres humanos e precisamos de cuidado psicológico”, destacou.
O docente também chamou atenção para o distanciamento entre parte das famílias e o ambiente escolar. Para ele, a responsabilidade pela formação emocional e comportamental dos adolescentes não pode recair exclusivamente sobre os educadores.
“Muitos pais acabam colocando toda a responsabilidade na escola e nos professores. Esse fardo é muito pesado”, afirmou.
Ele defende uma relação mais próxima entre família e escola como ferramenta essencial para prevenir situações de violência e fortalecer o acompanhamento dos estudantes.
“Se a família trabalhasse junto com a escola, em muitos casos, seria muito melhor”, completou.
Investigações continuam
Enquanto a comunidade escolar tenta lidar com o trauma, a Polícia Civil segue investigando a motivação do ataque.
As autoridades apuram se o adolescente teve influência de conteúdos violentos na internet ou contato com grupos virtuais que possam ter incentivado o crime. A investigação também busca esclarecer como o jovem teve acesso ao armamento utilizado no atentado.
O governo do Acre decretou luto oficial após a tragédia e anunciou medidas emergenciais, incluindo reforço na segurança das escolas estaduais e apoio psicológico para estudantes, familiares e servidores.
“O desafio agora é reconstruir”
Para quem sobreviveu aos momentos de terror dentro do Instituto São José, o desafio agora vai além da reabertura dos portões.
A ferida deixada pelo ataque permanece aberta na memória de alunos, professores e funcionários que conviviam diariamente com as vítimas.
Mais do que retomar aulas, a comunidade escolar tenta encontrar forças para reconstruir emocionalmente um ambiente marcado pela dor.
“Antes de qualquer coisa, a escola precisa de humanidade, acolhimento e união”, concluiu o professor.






