A menos de sete meses das principais provas de acesso ao ensino superior no país, o silêncio da Universidade Federal do Acre (Ufac) sobre o método de seleção para o curso de Medicina em 2026 instalou um clima de insegurança para estudantes que sonham em construir carreira profissional na área médica.
Sem a definição se a instituição manterá o vestibular próprio — organizado pelo Cebraspe no último ciclo — ou se retornará ao Sistema de Seleção Unificada (Sisu), estudantes e educadores relatam um prejuízo que vai além do conteúdo pedagógico, atingindo diretamente a saúde mental e o planejamento estratégico de quem busca a carreira médica.
Para o professor Tiago Benedetti, coordenador pedagógico e orientador de pré-vestibular, o momento é de vulnerabilidade extrema para o aluno.
“O cenário é o pior possível. Passar por tudo isso sem saber nem qual é a regra do jogo, sem saber a banca, sem saber sequer se vai ter vestibular, deixa o estudante no escuro. É ruim para o estudante que está no pré-vestibular e é ruim para a gente que está na escola orientando e organizando isso”, lamenta o docente.

Tiago observa que a transição entre a atual gestão e a equipe do reitor eleito, professor Josimar Batista, parece carecer de planejamento prévio: “A nova gestão só assume de fato em agosto, e até se resolver alguma coisa já é tarde demais. Os estudantes começam a se preparar em janeiro e ficar até agosto estudando sem saber o que vai acontecer é prejudicial para todo mundo”, frisou.
O dilema pedagógico
A principal queixa dos estudantes reside na diferença técnica entre as avaliações. Enquanto o Enem utiliza a Teoria de Resposta ao Item (TRI) e foca em competências e habilidades, vestibulares tradicionais costumam cobrar conteúdos mais diretos e específicos.

Kataria Silva, 17 anos, estudante do 3º ano do Colégio Sigma, exemplifica o “limbo” de conteúdos que a incerteza cria. “Impacta em saber que tipo de questão eu faço, por qual banca eu estudo. O Enem, por exemplo, não cobra diretamente a gramática da língua portuguesa, mas muitos vestibulares cobram. Fica essa dúvida se eu estudo ou não”, aponta a vestibulanda, que também teme a coincidência de datas com provas de outros estados.
Para quem já enfrenta a rotina de cursinhos, a frustração é um sentimento recorrente. João Vitor, 18 anos, relembra que o trauma do ano passado, quando a decisão pelo vestibular próprio foi tomada tardiamente, parece se repetir.
“Ano passado já passamos por uma situação complicada. Boa parte da nossa preparação estava focada no Enem quando a decisão mudou. Este ano, já nos aproximamos da metade da época de preparação e continuamos sem informação. Isso atrapalha a nossa preparação e até nossa autoestima”, desabafa.

João Vitor critica ainda o histórico recente da banca anterior: “Sofremos com uma prova com inúmeras questões anuladas e mal feitas. Tudo isso colabora para o estresse diário do estudante, que não tem um referencial para se apoiar”, disse.
Uma “novela sem diretores”
O setor empresarial voltado à educação também demonstra preocupação com o impacto logístico e administrativo do impasse. Gilberto Hadad, proprietário do cursinho Aprovação, classifica a situação como uma falta de zelo com o calendário acadêmico.
“A Ufac não está levando a sério devido a esta transição. Minha opinião é que devia haver uma reunião na transição para que fosse definido o que será feito e lançassem o edital com antecedência. Estamos em abril e o vestibular 2025 ainda não terminou; é uma verdadeira novela sem diretores”, critica o empresário.
Apesar das críticas à organização e à banca Cebraspe, há um consenso de que o bônus regional de 15% — defendido arduamente pela comunidade local — foi o grande trunfo do último processo, garantindo que a maioria das vagas fosse ocupada por candidatos acreanos. No entanto, o temor atual é que o descompasso entre as gestões jogue fora essa “vitória” política.
“É uma pena que depois dessa vitória a gente tenha uma sequência dessa forma, totalmente desorientada e sem qualquer fala da Ufac”, finaliza o professor Tiago Benedetti.
O que diz a Ufac
A transição entre a atual gestão e a equipe eleita é o ponto central do cronograma. O reitor eleito, professor Josimar Batista, que atualmente é vice-reitor, informou ao portal A GAZETA que qualquer deliberação depende da nomeação de sua equipe técnica e de análise orçamentária.
“Infelizmente essa questão deve ser abordada quando a equipe técnica de Pró-reitores for nomeada. Porque tem custos orçamentários para qualquer ação que for deliberada e só terei condições técnicas após a posse”, explicou Batista.
Ele ressaltou ainda que a decisão final cabe ao Conselho Universitário (Consu), o que deve ocorrer apenas a partir de agosto. E, enquanto o segundo semestre não chega com as definições prometidas, os candidatos de Medicina do Acre seguem estudando para um jogo cujas regras ainda não foram definidas.






