O presidente da Argentina, Javier Milei, ainda não parabenizou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pela reeleição no Brasil, prolongando o impasse diplomático entre os dois países. Milei apoiou publicamente o senador Flávio Bolsonaro (PL), derrotado no segundo turno de domingo (25), e já havia questionado a lisura do processo eleitoral brasileiro antes da votação.
Lula venceu a disputa com 51,79% dos votos válidos, enquanto Flávio recebeu 48,21%. Segundo informações publicadas pelo Metrópoles, integrantes do governo argentino chegaram a preparar uma mensagem de congratulação ao presidente brasileiro, mas a iniciativa teria sido abandonada após questionamentos da campanha derrotada.
Até terça-feira (27), Milei não havia explicado publicamente a ausência de uma manifestação oficial. Nas redes sociais, o argentino compartilhou uma publicação de um aliado com críticas a Lula e aos eleitores brasileiros.
Para o professor de relações internacionais Maurício Fronzaglia, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o silêncio representa uma escolha política, e não uma falha de comunicação. Na avaliação do especialista, a postura reflete a polarização ideológica que também influencia as relações entre governos de diferentes países.
A tensão entre os presidentes antecede a eleição brasileira. Em julho, Milei atacou Lula e o ministro Alexandre de Moraes durante um evento do PL em São Paulo. Na ocasião, o Itamaraty convocou o embaixador argentino e chamou de volta o representante brasileiro em Buenos Aires. No mês seguinte, as relações diplomáticas foram rebaixadas, e as embaixadas passaram a ser chefiadas por encarregados de negócios.
Cinco dias antes do segundo turno, Milei voltou a questionar a lisura das eleições brasileiras e insinuou a possibilidade de fraude. O Ministério das Relações Exteriores classificou as declarações como uma tentativa de ingerência externa no processo democrático do país.
A derrota de Flávio Bolsonaro também representa um revés para o projeto de aproximação entre governos de direita na América Latina, ao qual Milei está alinhado. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, também questionou a eleição brasileira na segunda-feira (26), afirmando a jornalistas que o pleito parecia ter sido “fraudado”.
Apesar do desgaste político, os laços comerciais entre Brasil e Argentina continuam relevantes. Dados do Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina citados pelo Metrópoles apontam que, entre janeiro e setembro, o Brasil foi o principal parceiro comercial argentino, recebendo 12,7% das exportações do país vizinho e respondendo por 21,4% das importações.
No período, as exportações argentinas para o Brasil cresceram 4,5%, enquanto as importações de produtos brasileiros pela Argentina caíram 17%.
A integração industrial e as cadeias produtivas compartilhadas, especialmente no setor automotivo, ajudam a manter a cooperação econômica mesmo diante das divergências políticas. O risco, segundo especialistas, é que a falta de diálogo entre os presidentes dificulte futuras negociações e iniciativas conjuntas, inclusive no âmbito do Mercosul.





