
Redação Juruá Online
O Rio Juruá registrou, na manhã desta quarta-feira, 3, o nível de 9 metros e 47 centímetros, aproximando-se da cota dos 10 metros. A elevação do rio desperta atenção e expectativas entre os navegadores que há décadas dependem da via fluvial para transportar mercadorias, abastecer municípios ribeirinhos e sustentar suas famílias.
Um deles é Francisco das Chagas Barbosa de Souza, 42 anos, que trabalha há 22 anos navegando pelo Juruá. Morador de Cruzeiro do Sul, ele explica que, apesar de o rio estar subindo de forma atípica desde o início de novembro, não acredita em uma grande enchente neste ano.
“As águas estão poucas. Enche um dia e no outro já vaza. Pode ter um enchente maior só no final das águas, mas nada muito grande”, avalia. Para ele, o nível atual facilita a navegação: “Tá bom de andar. Quando tá muito cheio, é ruim, tem muito pau e fica mais difícil.”
Francisco viaja para o município de Marechal Thaumaturgo, rota que leva três dias subindo o rio. Segundo ele, além dos desafios naturais, o maior problema está no local de embarque e desembarque em Cruzeiro do Sul.
“Aqui é só lama. Não tem porto. Parece que não tem prefeito. A gente embarca a mercadoria dentro da lama. É difícil demais.”
Outro navegante experiente, Carlos Aldi Souza, 41 anos, trabalha há 20 anos no transporte fluvial e tem opinião diferente sobre o comportamento do rio. Para ele, o fato de a subida ter começado cedo indica risco de uma enchente maior.
“Quando começa muito cedo, corre risco de lagação grande. A minha previsão é de um enchente maior esse ano.”
Carlos abastece o município de Porto Walter, viagem que dura um dia e meio quando o rio está em boas condições. Ele confirma que o nível atual é favorável para navegar, mas alerta sobre os perigos quando o rio atinge picos mais altos.
“Quando tá muito cheão é perigoso por causa da correnteza. No verão também é ruim, fica raso e cheio de paus.”
Ambos são unânimes em um ponto: a falta de um porto estruturado em Cruzeiro do Sul prejudica o trabalho. Filas de embarcações, lama, dificuldade de acesso para caminhões e carregadores, além da falta de espaço, tornam o cotidiano dos trabalhadores exaustivo.
“Nós necessitamos muito de um porto aqui. Cruzeiro do Sul abastece os municípios menores. É sofrido demais. Às vezes passamos quase um dia esperando para encostar porque não tem espaço”, desabafa Carlos.
Com a oscilação constante do nível do rio e o período de chuvas se intensificando, a expectativa agora se divide entre a possível cheia e a urgente necessidade de melhorias na infraestrutura portuária. Enquanto isso, navegadores seguem enfrentando lama, correnteza, noites mal dormidas e longas viagens para garantir alimentos, produtos e insumos às cidades que dependem do fluxo fluvial.






