Projeto do Ministério da Saúde enfrenta doença negligenciada na Amazônia e tem foco no Acre

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O Ministério da Saúde lançou o projeto Aptra Lobo para enfrentar a lobomicose, também conhecida como Doença de Jorge Lobo (DJL), considerada uma das enfermidades mais negligenciadas da Amazônia Ocidental. A iniciativa acompanha atualmente 104 pacientes nos estados do Acre, Amazonas e Rondônia e busca estruturar o diagnóstico, tratamento e acompanhamento da doença dentro do Sistema Único de Saúde (SUS).

O Acre lidera em número de casos no país. De acordo com o Ministério da Saúde, das 907 ocorrências registradas no Brasil, 496 estão no estado. A doença atinge principalmente populações ribeirinhas, povos originários e trabalhadores extrativistas, grupos que vivem em áreas de difícil acesso aos serviços de saúde.

Descrita pela primeira vez em 1931 pelo dermatologista Jorge Oliveira Lobo, em Pernambuco, a enfermidade é causada por um fungo que penetra na pele, provocando lesões nodulares semelhantes a queloides, geralmente nas orelhas, braços e pernas. Com a evolução do quadro, essas lesões podem causar desfiguração e até incapacitação.

Um dos pacientes atendidos pelo projeto é o seringueiro e agricultor familiar Augusto Bezerra da Silva, de 65 anos, morador do interior do Acre. Ele conviveu com a doença por mais de quatro décadas e relatou que o estigma o levou ao isolamento. “Eu tinha vergonha até da minha própria família. Resolvi viver sozinho, num local distante”, contou.

Após iniciar o tratamento pelo projeto, com o uso do antifúngico itraconazol disponibilizado pelo SUS, Augusto apresentou melhora significativa. “Hoje me sinto mais tranquilo. Os caroços diminuíram e estou mais aliviado”, afirmou. Com a evolução do quadro, ele voltou a conviver com a família.

O projeto é desenvolvido pelo Hospital Israelita Albert Einstein, em parceria com a Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente (SVSA), dentro do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (Proadi-SUS). Mais de 50% dos pacientes acompanhados já apresentaram melhora clínica.

Além do tratamento, a iniciativa também leva diagnóstico a regiões remotas, com realização de biópsias e exames laboratoriais diretamente nas comunidades. Em casos específicos, são realizadas cirurgias para retirada de lesões. O acompanhamento dos pacientes ocorre a cada três meses, com apoio de centros de referência em Rio Branco, Manaus e Porto Velho.

Segundo o infectologista e patologista clínico do Einstein, João Nobrega de Almeida Júnior, as equipes locais têm papel central na execução do projeto. “São os profissionais da região que identificam os casos, realizam o diagnóstico e conduzem o tratamento conforme as diretrizes estabelecidas”, explicou. Ele destaca que o acesso às comunidades ribeirinhas ainda é um dos principais desafios.

Em dezembro do ano passado, foi lançado o primeiro manual com orientações práticas para diagnóstico, tratamento e prevenção da lobomicose, voltado aos profissionais de saúde. A publicação é considerada um marco no enfrentamento da doença, historicamente negligenciada.

Como próximo passo, está prevista para 2026 a elaboração de um Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT), com o objetivo de padronizar o atendimento no SUS e ampliar o alcance das ações. A meta é retirar a Doença de Jorge Lobo da lista de enfermidades negligenciadas no país.

Com informações da Agência Brasil

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