O pesadelo, parte II

O bolsonarismo não foi apenas um governo ruim. Foi uma advertência histórica.

O Brasil experimentou, entre 2019 e 2022, não uma simples alternância de poder, mas um projeto político que flertou com o autoritarismo, desprezou o conhecimento técnico, atacou as instituições e transformou o Estado em palco de guerra ideológica. O resultado foi previsível: desorganização administrativa, isolamento internacional, erosão do diálogo democrático e uma sucessão de crises que o país pagou caro para enfrentar.

A eleição de Jair Bolsonaro não foi fruto da ignorância pura e simples, mas de um contexto de medo, revolta e desilusão com a política tradicional. O eleitorado apostou na ruptura. Mas a ruptura revelou-se vazio, improviso e conflito permanente. O discurso de ordem produziu desordem; a promessa de eficiência gerou incompetência; o apelo moral terminou em degradação institucional.

A derrota do bolsonarismo em 2022 foi, portanto, mais do que uma disputa eleitoral: foi um gesto de autopreservação democrática. Em meio à polarização, o Brasil escolheu a política em vez do caos, a institucionalidade em vez da aventura, a previsibilidade em vez do salto no escuro.

Agora, tenta-se reembalar o mesmo projeto sob outra face: Flávio Bolsonaro. Mas não há ilusão possível. O bolsonarismo não é um sobrenome; é um método. É a política do conflito permanente, do desprezo pela ciência, da hostilidade à imprensa, da suspeita contra a democracia, da substituição do Estado por uma lógica de facção.

A eventual chegada de Flávio Bolsonaro à Presidência não representaria renovação, mas reincidência. Não seria mudança, mas continuidade. Não seria alternativa, mas recaída.

O Brasil já viu esse filme — e conhece o final. Permitir o retorno do bolsonarismo ao poder seria aceitar a repetição de um experimento que falhou, insistir em um modelo que produziu instabilidade, dividir novamente o país entre inimigos imaginários e inimigos reais.

Seria, em termos políticos, morais e históricos, a legitimação do erro.
Seria o retrocesso travestido de novidade.
Seria o pesadelo — parte II

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