O falso salvador e o custo do extremismo

A ascensão recente da extrema direita não é fruto de genialidade política nem de virtudes excepcionais. Ela nasce, quase sempre, do medo social, da frustração econômica e da exploração calculada da desconfiança nas instituições. Apresenta-se como “antissistema”, mas governa como aquilo que diz combater: um projeto de poder personalista, instável e corrosivo.

O discurso é recorrente. Um líder se autoproclama o último bastião contra uma ameaça vaga — “a esquerda”, “o comunismo”, “a corrupção” — e se investe da missão de salvar a nação. Esse salvacionismo, porém, cobra um preço alto. Ao transformar adversários em inimigos e instituições em obstáculos, a extrema direita mina os próprios alicerces que sustentam a democracia e a economia. O resultado não é ordem, mas caos; não é moralização, mas arbitrariedade; não é prosperidade, mas incerteza.

O Brasil conheceu esse roteiro antes de muitos outros países. Em 2018, Jair Messias Bolsonaro chegou ao poder surfando na rejeição à política tradicional e prometendo uma ruptura redentora. O que se viu, no entanto, foi um governo marcado pela beligerância permanente, pela hostilidade ao Poder Judiciário, pela sabotagem do sistema eleitoral e pelo desprezo às regras básicas do jogo democrático. O extremismo deixou de ser retórica de campanha e passou a orientar a condução do Estado.

No campo econômico, os efeitos desse desgoverno foram sentidos no cotidiano: inflação pressionando itens essenciais, perda de renda real e um ambiente de insegurança que afastou investimentos e comprometeu a previsibilidade. A retórica agressiva pode mobilizar seguidores, mas não paga contas, não estabiliza mercados e não melhora a vida da população.

Diante desse cenário, a reação de 2022 foi menos ideológica e mais racional. A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, à frente de uma frente ampla, representou uma escolha clara: preservar a democracia para que qualquer projeto econômico ou social seja possível. Lula não venceu apenas pelo passado, mas pelo contraste com o presente que se oferecia — um presente de conflito institucional contínuo e risco democrático real.

Há quem tente reduzir esse movimento a uma simples alternância de poder. É mais do que isso. Trata-se de uma resposta ao extremismo, um recado de que a sociedade brasileira, quando confrontada com o abismo autoritário, prefere o caminho da reconstrução, do diálogo e da política feita dentro das regras. A esquerda, nesse contexto, reaparece não como ameaça, mas como força de estabilização democrática.

Em 2026, o país ainda lida com os escombros desse ciclo. A extrema direita segue ruidosa, mas seu projeto mostrou limites claros: sabe destruir, mas não governar. O Brasil, por sua vez, redescobre uma verdade simples e incômoda para os extremistas: não há salvação fora das instituições, e não há futuro possível onde a democracia é tratada como obstáculo.

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