Aviso: este artigo contém detalhes que alguns leitores podem considerar perturbadores.
Até aquele momento, a guerra era algo que acontecia em outras partes de Teerã, a capital do Irã.
Não havia afetado a vida de Setareh e seus colegas. Então, ela ouviu um ruído sinistro e vibrações atingiram seu escritório.
Ela gritou para os colegas: “Acho que é uma bomba”. Eles saíram de suas mesas e subiram as escadas até o telhado do prédio.
“Vimos fumaça subindo ao céu, mas não sabíamos qual lugar havia sido atingido”, ela lembra.
“Depois disso, todos que trabalhavam na empresa entraram em pânico. As pessoas gritavam, berravam e fugiam. Por uma ou duas horas, a situação permaneceu um caos completo.”
Naquele mesmo dia, o chefe dela fechou a empresa e demitiu todos os funcionários.
Apesar da rígida censura estatal, a BBC conseguiu acessar fontes confiáveis em campo para obter depoimentos de diversos iranianos em diferentes partes do país.
Não podemos revelar o nome verdadeiro de Setareh nem dizer que tipo de trabalho ela faz — nenhum detalhe que possa identificá-la para a polícia secreta do regime.
Mas podemos dizer que ela é uma jovem de Teerã que adorava ir trabalhar, onde podia encontrar seus amigos, compartilhar histórias de suas vidas e, claro, tinha a garantia de um salário semanal.
Agora, os bombardeios noturnos roubaram dela a capacidade de dormir naturalmente. Ela fica acordada, preocupada com o presente e o futuro.
“Posso dizer honestamente que não durmo há várias noites e dias seguidos. Tento relaxar tomando analgésicos muito fortes para conseguir dormir. A ansiedade é tão intensa que afetou meu corpo. Quando penso no futuro e imagino essas condições, realmente não sei o que fazer.”
Por “essas condições”, ela se refere às dificuldades econômicas e ao medo de futuros confrontos de rua entre o regime e seus inimigos. A guerra custou o emprego de Setareh e ela está ficando sem dinheiro.
Milhões de iranianos estão em situação semelhante. Mesmo antes da guerra, a economia já estava em profunda crise, com os preços dos alimentos em alta de 60% em 2025. Setareh descreve um crescente desespero à medida que as pessoas ficam sem recursos para sobreviver.
“Não temos dinheiro nem para comprar comida básica. O que temos no bolso não corresponde aos preços do mercado… O Irã também está sob sanções há anos, e os problemas criados pela República Islâmica significam que, durante esse tempo, não conseguimos fazer nenhuma reserva financeira, pelo menos não o suficiente para sobreviver agora ou ter alguma base de apoio. Resumindo, as pessoas que eu achava que poderiam ter dinheiro para emprestar também não têm nada.”
As dificuldades econômicas impulsionaram enormes protestos em todo o país no final de 2025 e início de 2026, e Setareh acredita que isso acontecerá novamente.
“Não sei como essa gigantesca onda de desemprego será administrada. Não há sistema de apoio e o governo não fará nada por todas essas pessoas desempregadas. Acredito que a verdadeira guerra começará se esta terminar sem nenhum resultado.” O resultado que ela deseja é a queda do regime.
Recebemos informações de fontes de seis cidades diferentes. Foram conversas com indivíduos de diversos segmentos da sociedade — lojistas, taxistas, funcionários públicos e outros.
Todos descreveram a crescente pressão econômica e a maioria falou da esperança de que a guerra possa levar à queda do governo.
Escassez de medicamentos
Tina é enfermeira em um hospital nos arredores de Teerã e está preocupada com a escassez de medicamentos.
“A escassez ainda não é generalizada, mas está começando”, diz ela.
“A questão mais importante é que esta guerra não pode chegar aos hospitais. Se o conflito continuar, a infraestrutura for atacada, e os medicamentos não puderem ser importados, enfrentaremos problemas muito sérios.”
Ela é assombrada pelas imagens da guerra que testemunhou nas últimas semanas. Após os bombardeios, corpos chegaram ao hospital “irreconhecíveis… alguns sem mãos, outros sem pernas — foi horrível”.
Uma lembrança recorrente é a de uma jovem grávida atingida por um ataque aéreo no início da guerra.
“Devido aos bombardeios na região onde ela morava — sua casa ficava perto de um centro militar —, a casa dela foi danificada. Quando a levaram para o hospital, nem a mãe nem o feto estavam vivos”, recorda Tina.
“Ambos haviam morrido. Ela estava a apenas dois meses de dar à luz, mas, infelizmente, nem ela nem o bebê sobreviveram. Foi uma situação terrível.”
Essa imagem se torna ainda mais comovente pelas histórias da infância de Tina. Sua mãe estava grávida dela durante a guerra Irã-Iraque, na década de 1980, e lhe contou sobre ter que fugir para abrigos antiaéreos quando mísseis iraquianos atingiram sua cidade.
Estima-se que quase 1 milhão de pessoas — iranianos e iraquianos, militares e civis — morreram no conflito, sendo o Irã o país com o maior número de baixas.
O legado da guerra fez com que Tina quisesse trabalhar como enfermeira.
“Ouvir essas histórias sempre me fazia parar para pensar, imaginar-me naquelas circunstâncias e me colocar no lugar dela. Agora, me encontro na mesma situação que minha mãe enfrentou. Não consigo acreditar na rapidez com que a história se repete.”

Qualquer manifestação pública de dissidência no Irã é extremamente perigosa. O regime mobilizou suas forças de segurança interna e apoiadores leais para patrulhar as ruas. Há prisões, tortura e execuções. Os iranianos não têm dúvidas sobre o perigo que enfrentam caso se manifestem.
Durante as manifestações anti-governo de janeiro, o regime matou milhares de seus próprios cidadãos e Behnam — um ex-preso político — acredita que faria o mesmo novamente com facilidade.
Ele mantém um estoque de antibióticos e analgésicos em seu apartamento, caso haja uma nova onda de violência nas ruas. Ele ainda está escondido depois de ter sido baleado durante os últimos protestos. Segurando uma radiografia de seu torso, Behnam mostra os fragmentos de metal que permanecem alojados em seu corpo.
“Eles nos emboscaram em um dos becos — o beco que leva à praça. Atiraram balas e gás lacrimogêneo”, diz ele.
“Depois que você vê como sua vida pode ser ameaçada facilmente — que um simples incidente ou uma reviravolta do destino pode significar morte ou sobrevivência — depois disso, sua vida não tem mais o mesmo valor para você. Essa experiência faz com que você se importe menos consigo mesmo.”
Quando criança, ele ouvia os relatos de seus pais sobre a violência do regime. O medo era o fator determinante em suas vidas.
Havia histórias de familiares que tiveram as unhas arrancadas pela Guarda Revolucionária. Ele ouviu falar da humilhação e da agonia de um parente que teve pesos pesados amarrados aos testículos durante a tortura.
“Todos nós crescemos conhecendo alguém talentoso em nossa família — um primo, um tio, uma tia — cujo futuro foi destruído simplesmente porque outro parente havia se envolvido em atividades políticas proibidas”, diz ele.
“Não me curarei até o dia em que formos livres e, em um mundo livre, possamos olhar para trás e ver o sofrimento que suportamos em um mundo sem liberdade, e, no fim, rir disso. Tenho certeza de que esse dia chegará.”
Um mês após o início da guerra, com o presidente americano Donald Trump ameaçando bombardear o Irã “de volta à Idade da Pedra” e a repressão do regime se intensificando, o tempo do riso ainda parece distante.
Reportagem adicional de Alice Doyard – BBC






