Municípios na divisa Acre-AM lideram 75% da exploração ilegal de madeira na região

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STF permite desapropriação de terra por incêndio ilegal e desmatamento

O diagnóstico, produzido anualmente pela Rede Simex, formada por Imazon, Instituto Centro de Vida (ICV) e Imaflora, utiliza imagens de satélite para identificar áreas de extração e cruza os dados com as permissões emitidas pelos órgãos responsáveis. Na comparação com o ciclo anterior (agosto/2022 a julho/2023), quando 38 mil hectares foram explorados sem licença, houve aumento de 9% na retirada ilegal.

A expansão mais significativa ocorre justamente na região de fronteira entre Amazonas, Acre e Rondônia. Somente Boca do Acre e Lábrea, municípios vizinhos ao Acre, concentraram 75% da exploração irregular do estado. Boca do Acre lidera o ranking, com 20,5 mil hectares de extração ilegal, seguida por Lábrea, com 10,9 mil hectares.

Segundo a pesquisadora do Programa de Monitoramento da Amazônia do Imazon, Camila Damasceno, o avanço da atividade está ligado à expansão agropecuária na região conhecida como Amacro. Ela afirma que a exploração ilegal de madeira funciona como indicador de futuras áreas de desmatamento. “Esses municípios ficam dentro da região de expansão agropecuária chamada de Amacro, na divisa do Amazonas com o Acre e com Rondônia. Por isso, alertamos que a extração de madeira nesses territórios pode indicar o desmatamento futuro para a grilagem ou para a produção de grãos e de gado”, avaliou.

A pesquisadora destaca ainda que o cenário é “extremamente preocupante”, porque a atividade ilegal financia outros crimes ambientais, como queimadas e desmatamento, além de prejudicar o mercado legal. “A exploração ilegal também prejudica o mercado legalizado de madeira, que faz a remoção das árvores por meio do manejo florestal sustentável e gera empregos e impostos para o Amazonas”, afirmou.

Pressão sobre áreas protegidas

A atividade irregular invade também territórios de preservação. O levantamento aponta que 13% de toda a extração ilegal — equivalente a 5,6 mil hectares — ocorreu dentro de áreas protegidas. Desses, 9% estavam em terras indígenas (3,9 mil hectares) e 4% em unidades de conservação (1,6 mil hectares).

Apesar de representar uma redução de 19% em relação ao levantamento anterior, quando foram identificados 6,9 mil hectares de exploração irregular nessas áreas, o impacto permanece elevado. O volume retirado corresponde a mais de 5 mil campos de futebol dentro de territórios protegidos.

Para Camila Damasceno, além da perda florestal, há risco direto às comunidades tradicionais. “A entrada de invasores para retirada de madeira desses territórios ameaça os povos e comunidades tradicionais, que dependem da floresta em pé para manter seu modo de vida”, explicou.

Terras públicas e imóveis rurais concentram maior parte da retirada

A pesquisa também identificou que 77% da exploração ilegal ocorreu dentro de imóveis rurais registrados em bancos de dados oficiais, como o Cadastro Ambiental Rural (CAR), o Sistema de Gestão Fundiária (Sigef) e o Programa Terra Legal, somando 32,5 mil hectares.

Segundo o Imazon, isso mostra que os órgãos públicos têm condições de fiscalizar e punir os responsáveis, já que há registros fundiários suficientes para identificar proprietários e ocupantes.

Outra categoria que chamou atenção foram as florestas públicas não destinadas (FPNDs), que representaram 8% da exploração irregular, com 3,3 mil hectares. Essas áreas pertencem à União, estados ou municípios, mas ainda não têm destinação definida — como transformação em unidade de conservação ou demarcação indígena.

“Destinar essas terras a povos e comunidades tradicionais ou à conservação é uma ação urgente de proteção do patrimônio público e ambiental dos amazonenses e dos brasileiros”, concluiu o instituto.

Crescimento da exploração legal

Enquanto a exploração ilegal aumentou, os números da extração autorizada também cresceram significativamente. Entre agosto de 2023 e julho de 2024, foram registrados 26,1 mil hectares de retirada legal de madeira — uma alta de 131% em relação ao período anterior, quando foram autorizados 11,3 mil hectares.

O Imazon reforça que o avanço da ilegalidade e o avanço simultâneo da extração legal evidenciam a necessidade de ampliar fiscalização, fortalecer políticas de controle e impedir que madeira retirada irregularmente entre no mercado.

A instituição destaca que os dados demonstram que a pressão sobre a floresta na região de fronteira com o Acre deve ser encarada como um alerta urgente para autoridades ambientais dos dois estados, especialmente diante do crescimento da atividade ilegal.

Com informações da ContilNet

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