O crescimento da economia brasileira perdeu força no segundo trimestre de 2026, em um cenário marcado por juros elevados e alto nível de endividamento das famílias. Os dois fatores são apontados por integrantes do governo e analistas do mercado como importantes obstáculos para a manutenção do ritmo de expansão do Produto Interno Bruto (PIB).
Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na última terça-feira (1º) mostram que a economia brasileira cresceu 0,5% entre abril e junho. O resultado representa uma desaceleração em relação ao primeiro trimestre, quando o PIB avançou 1,1%.
Um dos principais sinais de perda de ritmo veio do consumo das famílias. O componente recuou 0,4% no segundo trimestre, depois de ter registrado crescimento de 0,8% nos três primeiros meses do ano.
A queda preocupa porque o consumo das famílias tem impacto direto sobre o setor de serviços, que representa a maior parcela da economia brasileira. No segundo trimestre, os setores apresentaram os seguintes resultados:
- Agropecuária: crescimento de 2,8%;
- Serviços: crescimento de 0,2%;
- Indústria: crescimento de 0,1%.
Projeções para o PIB
O resultado do segundo trimestre também colocou em discussão as projeções para o desempenho da economia brasileira em 2026.
O Banco Central estima crescimento de 2% para a atividade econômica neste ano. O Ministério da Fazenda trabalha atualmente com uma previsão de expansão de 2,3%, enquanto o mercado financeiro projeta avanço de 1,92%.
O ritmo também representa uma desaceleração em relação aos anos anteriores. Em 2025, a economia brasileira cresceu 2,3%, depois de registrar expansão de 3,4% em 2024.
Diante do resultado do segundo trimestre, o Ministério da Fazenda informou que está revisando sua estimativa para 2026 e que a atualização ocorre com “viés de baixa”.
“A projeção da SPE para o PIB de 2026 é atualmente de 2,3%, encontrando-se em revisão para o próximo Boletim Macrofiscal, com viés de baixa”, informou a Secretaria de Política Econômica (SPE).
Juros elevados pesam sobre o consumo
Entre os principais fatores apontados para a desaceleração está o nível dos juros. A taxa básica de juros da economia, a Selic, está em 14% ao ano, mesmo após o início de um ciclo de redução.
Para o conselheiro da Ancord Pablo Spyer, a queda no consumo das famílias demonstra que o custo elevado do crédito continua afetando a demanda.
“O dado que chama mais atenção é o consumo das famílias, que caiu 0,4% na comparação com o primeiro trimestre. É uma sinalização clara de que os juros ainda elevados estão pesando sobre a demanda”, avaliou.
A Selic teve sua última redução em 0,25 ponto percentual, passando de 14,25% para 14% ao ano. O próximo encontro do Comitê de Política Monetária (Copom), responsável por decidir a taxa, está marcado para os dias 15 e 16 de setembro.
Endividamento das famílias preocupa governo
Além dos juros, o elevado nível de endividamento das famílias é outro ponto de preocupação. O indicador calculado pelo Banco Central está próximo do recorde histórico: 49,8% das famílias estão endividadas, diante de um pico histórico de 49,9%.
O Ministério da Fazenda atribuiu parte da desaceleração do PIB aos juros elevados e ao endividamento das famílias. Em nota técnica, a Secretaria de Política Econômica afirmou que os efeitos da política monetária restritiva continuam predominantes sobre a demanda doméstica e setores mais sensíveis ao ciclo econômico.
Segundo a pasta, o cenário afeta especialmente segmentos como a indústria de transformação, a construção civil e o comércio.
A preocupação com o comprometimento da renda das famílias também levou o governo federal a lançar, em 4 de maio deste ano, o programa Novo Desenrola Brasil, conhecido como Desenrola 2.0.
A iniciativa busca facilitar a renegociação de dívidas e permitir que a população tenha acesso a condições de pagamento com juros menores.
Banco Central prepara medidas
A preocupação com o crédito caro também foi manifestada pelo Banco Central. Na última quarta-feira (2), o Comitê de Estabilidade Financeira (Comef) publicou uma nota na qual demonstrou atenção ao cenário dos juros cobrados dos consumidores.
A autoridade monetária informou que prepara medidas para reduzir os riscos associados à elevada participação de modalidades de crédito mais caras na composição das dívidas das famílias.
“O Banco Central prepara medidas voltadas à mitigação dos riscos associados a essa dinâmica, de forma a fortalecer a sustentabilidade do crédito e a resiliência do sistema financeiro”, afirmou a instituição.
O cenário combina, portanto, três fatores que podem limitar o crescimento da economia nos próximos meses: a desaceleração do PIB, o custo ainda elevado do crédito e o alto nível de endividamento das famílias. A evolução desses indicadores será acompanhada de perto pelo governo e pelo mercado nas próximas decisões sobre juros e nas revisões das projeções para 2026.





