A imagem de Nossa Senhora Aparecida, um dos principais símbolos da fé católica no Brasil, voltou ao centro do debate público durante as eleições de 2026. A circulação de conteúdos nas redes sociais associando o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) a uma suposta proposta para retirar da santa o título de Padroeira do Brasil reacendeu uma discussão que mistura religião, política e desinformação.
A controvérsia também trouxe de volta um episódio ocorrido em 2025, quando o papa Leão XIV recebeu uma representação de Nossa Senhora Aparecida durante um encontro no Vaticano. Em 11 de outubro daquele ano, o pontífice recebeu a imagem das mãos de integrantes da redação brasileira do Vatican News. No dia seguinte, 12 de outubro, data dedicada à padroeira do Brasil, a fotografia foi publicada nas redes sociais do papa.
Em setembro de 2025, Leão XIV também havia enviado uma mensagem ao encontro “Com Deus, Tem Jeito”, realizado em Cachoeira Paulista, no interior de São Paulo. Na ocasião, concedeu uma bênção apostólica aos participantes, mencionando a intercessão de Nossa Senhora Aparecida, reconhecida pela Igreja Católica como Rainha e Padroeira do Brasil.
As publicações que relacionam Flávio Bolsonaro à retirada do título de padroeira mencionam o Projeto de Lei 2.623/2007. O texto, porém, não foi apresentado pelo atual candidato do PL à Presidência.
De acordo com os registros oficiais da Câmara dos Deputados, o projeto foi apresentado em dezembro de 2007 pelo então deputado Professor Victório Galli. A proposta pretendia alterar a Lei nº 6.802/1980 para substituir a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”.
A proposta também previa manter o feriado nacional de 12 de outubro, mas modificar a forma como a homenagem à santa era descrita na legislação. O projeto foi rejeitado na Comissão de Educação e Cultura e posteriormente arquivado pela Câmara em 22 de agosto de 2008.
Portanto, trata-se de uma proposição apresentada quase duas décadas antes da atual eleição presidencial e que não tem autoria de Flávio Bolsonaro, conforme os registros oficiais da Câmara.
A controvérsia também chegou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), após a circulação de publicação que associava a família Bolsonaro a um suposto ataque à imagem de Nossa Senhora Aparecida.
O episódio passou a integrar a disputa eleitoral em meio à circulação de diferentes versões sobre o tema nas redes sociais. O TSE vem analisando casos relacionados à disseminação de conteúdos sobre candidatos durante a campanha de 2026, incluindo publicações consideradas potencialmente enganosas ou sem comprovação.
A devoção a Nossa Senhora Aparecida ocupa lugar de destaque na tradição católica brasileira. A imagem foi encontrada por pescadores no Rio Paraíba do Sul, em 1717, e a devoção se espalhou pelo país ao longo dos séculos.
O título de Padroeira do Brasil foi oficialmente reconhecido pela Igreja Católica em 1930. Posteriormente, a legislação brasileira instituiu 12 de outubro como feriado nacional em homenagem à santa.
A presença da imagem em eventos públicos e manifestações políticas não é recente. Ao longo da história, Nossa Senhora Aparecida passou a aparecer em diferentes cerimônias e contextos ligados à vida pública brasileira.
O episódio de 2026, portanto, insere um símbolo religioso tradicional em uma disputa eleitoral marcada também pela circulação de conteúdos nas redes sociais. A CNBB tem reiterado que a Igreja Católica não declara preferência por candidatos ou partidos, enquanto representantes da instituição vêm discutindo os limites da relação entre religião e política.





