Hormuz pode seguir bloqueado após cessar-fogo, e petróleo a US$ 60 não volta mais

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Mesmo que os combates entre Estados Unidos e Irã cessem, o Estreito de Hormuz pode permanecer parcialmente fechado por semanas — e o preço do petróleo não deve retornar aos patamares anteriores à guerra.

A avaliação é do cientista político Gunther Rudzit, doutor pela Universidade de São Paulo e professor de relações internacionais da ESPM. Para ele, os danos à cadeia produtiva de energia e a nova lógica geopolítica da região tornaram a transformação estrutural, não conjuntural.

O bloqueio seletivo já está em curso. Navios da Índia e da China seguem navegando pelo estreito, enquanto embarcações de países aliados dos Estados Unidos enfrentam restrições.

Segundo o analista, o regime iraniano não tem qualquer incentivo para liberar a passagem — pelo contrário: a morte do líder supremo Ali Khamenei e de outros membros da cúpula política e militar transformou o bloqueio em instrumento de vingança.

A situação é agravada pelo armamento que o Irã plantou no corredor marítimo. Minas, drones e mísseis compõem uma camada de ameaças que, segundo Rudzit, os Estados Unidos terão enorme dificuldade de neutralizar — mesmo em um cenário de negociação.

O país teria se preparado para esse confronto por pelo menos duas décadas, desde que as tensões se intensificaram com a eleição de Mahmoud Ahmadinejad, em 2005.

O diagnóstico foi apresentado no programa Expert Talks, da XP Investimentos, conduzido pelo estrategista macro Victor Scalet e pela analista de política Sol Azcune, em uma conversa que buscou mapear os desdobramentos do conflito e suas implicações para os mercados globais.

Minas no fundo do oceano, drones no ar

A limpeza do estreito, caso um cessar-fogo seja alcançado, não será rápida nem simples. As minas utilizadas pelo Irã não são do tipo convencional — metálicas e rastreáveis por varredores tradicionais.

São equipamentos modernos, fixados no fundo do leito oceânico e acionados remotamente, o que torna a detecção significativamente mais difícil. “O Irã não tem nenhum incentivo para dizer onde elas estão”, disse Rudzit.

Mesmo com esforço americano intenso, o especialista estima entre uma e duas semanas de trabalho apenas para tornar a rota minimamente segura.

Os drones representam uma ameaça paralela e igualmente difícil de conter. Rudzit recorre a um precedente recente para dimensionar o problema: a Ucrânia, sem marinha convencional, conseguiu neutralizar ou afundar a maior parte da frota russa no Mar Negro usando apenas drones de baixo custo — lanchas rápidas e torpedos controlados remotamente.

O Irã dispõe de tecnologia equivalente e, segundo o professor, não a esgotou. “Fazer com que o Irã não consiga atingir os navios, eu diria que é praticamente impossível”, afirmou. “A tecnologia dos drones ficou tão mais barata e o Irã se preparou tanto para esse conflito.”

Há ainda uma dimensão do problema que passa despercebida no debate público: o risco à própria infraestrutura de produção de petróleo. Fechar e reabrir um poço não é operação trivial.

A interrupção no bombeamento pode, dependendo das condições de pressão interna do campo, comprometer de forma irreversível toda a estrutura — obrigando a uma reconstrução completa antes que a produção possa ser retomada. “Se você fechar, parar de bombear, pode colocar em risco perder esse poço”, explicou Rudzit.

Somados, esses fatores criam um cenário em que a normalização do fornecimento de energia — mesmo após um acordo político — pode levar muito mais tempo do que os mercados antecipam.

A analogia que o professor usa é a da pandemia: assim como em 2020 o petróleo chegou a preços negativos por falta de espaço de armazenagem, o desequilíbrio estrutural agora é na direção oposta, e igualmente difícil de reverter rapidamente.

Rudzit é categórico ao descartar qualquer expectativa de retorno do barril de petróleo aos patamares pré-conflito.

“Se alguém estiver esperando que esse preço do barril volte ao que estava antes do conflito, na casa dos 60 dólares, melhor deitar, porque sentado vai cansar a coluna. ”

A mudança, na sua avaliação, não é cíclica — é geopolítica, e portanto duradoura.

Antes da guerra, havia uma janela de oportunidade na região. Um novo acordo nuclear entre Irã e Estados Unidos poderia reduzir as tensões, reaproximar as monarquias do Golfo de Teerã e abrir espaço para os grandes projetos de transformação econômica em curso nesses países.

Essa perspectiva foi encerrada. Os vizinhos do Golfo, que se mantiveram neutros durante o conflito, sofreram ataques iranianos — e alguns já defendem abertamente que Washington prossiga até a mudança de regime em Teerã.

Segundo ele, pode-se levar dez anos para reparar os danos dos ataques, mas é preciso “tornar a solução mais duradoura”

No plano interno iraniano, Rudzit projeta uma deterioração acelerada. A economia já estava em crise antes da guerra; depois dela, estará pior.

“Se a população já foi para as ruas, começando pelos comerciantes, porque a economia estava ruim, depois dessa guerra a situação vai estar muito pior”, disse.

O professor acredita que o regime perdeu legitimidade de forma irreversível — mas que sua queda, quando vier, não virá por pressão militar externa, e não será imediata.

O horizonte mínimo que Rudzit enxerga para o conflito é de mais duas semanas de operações — tempo estimado para que o navio anfíbio americano com fuzileiros navais chegue ao Golfo e realize alguma ação concreta.

Mas o especialista é cético quanto a qualquer desfecho célere. Para ele, os mercados globais precisam se ajustar a uma nova realidade energética e geopolítica que não se resolve por decreto — e tampouco por cessar-fogo.

Por: Agência Brasil

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