Entre sabores e memórias: tradições que se estendem à mesa de Cruzeiro do Sul

Cruzeiro do Sul, carinhosamente conhecida como a Princesinha do Juruá por moradores e visitantes, completou 122 anos nesta segunda-feira (28). Maior cidade do Vale do Juruá, o município carrega uma história construída ao longo de mais de um século, marcada por tradições, costumes e histórias que atravessam gerações.

E quando se fala na identidade de uma cidade, não são apenas as ruas, os prédios e os lugares que ajudam a contar essa história. Há também aquilo que chega à mesa, desperta lembranças, reúne famílias e permanece na memória mesmo quando a distância aparece.

Em Cruzeiro do Sul, a comida é parte dessa identidade. Da farinha de mandioca ao quibe de macaxeira e pastel de ovos, esses são só alguns dos sabores que ajudam a construir o jeito cruzeirense de ser. São produtos que fazem parte da rotina de quem nasceu na cidade, mas que também conquistam quem chega de fora e descobre, pouco a pouco, os sabores do Juruá.

A mandioca, em especial, tem um vínculo tão forte com a capital do Vale do Juruá, que desde 2024, Cruzeiro do Sul ostenta, oficialmente, o título de Capital Nacional da Farinha de Mandioca, concedido por lei federal.

Mais do que um título, a farinha representa o trabalho de famílias que há décadas transformam a mandioca em alimento, renda e tradição.

Na comunidade Boca da Alemanha, o empresário e produtor Francisco Moura Maciel, conhecido como Chico, conhece bem essa história. O que começou de maneira simples, com pequenas quantidades de tapioca preparadas para a própria família, aos poucos ganhou novos clientes e se transformou em um negócio.

Hoje, a Casa de Farinha do Chico produz diversos derivados da mandioca e atende consumidores de diferentes lugares.

De um café em família para uma tradição

“Começou lá no início, a gente fazia só umas tapiocas pouquinha só pra dividir com a família, pra tomar um café no domingo e tal. E através dessas vezes que a gente fez, apareceu umas pessoas atrás e a gente vendeu a tapioca. E no outro sábado ele veio atrás e a gente fazendo. [...] Era poucos itens no início e hoje nós temos vários itens que nós atendemos a nossa clientela, como bolo de macaxeira cozida, bolo ralado, pé de moleque, tapioca, pão caseiro, torta, salgado, vários itens que a gente serve à nossa população. A farinha de tapioca é há mais de quarenta anos que nós somos produtores aqui em Cruzeiro do Sul.”

O segredo, para Chico, está justamente naquilo que não aparece apenas no produto final: o cuidado. É esse modo de preparar, preservado ao longo dos anos, que ajuda a explicar por que os sabores produzidos em Cruzeiro do Sul conquistam quem prova.

E essa percepção não fica restrita a quem nasceu no Juruá.

O professor Pedro Melo nasceu em São Paulo e mora em Cruzeiro do Sul há dois anos e meio. Desde que chegou, percebeu na alimentação uma das diferenças mais marcantes em relação à sua terra natal.

Sabores que também conquistam quem chega

“Quando eu me mudei pra cá, eu comecei a ver cuscuz, macaxeira, esses hábitos de comer essas coisas de manhã, o que não acontece em São Paulo. [...] Então eu percebi que aqui a culinária tem uma certa ressonância da culinária nordestina. Acredito eu, minha hipótese, que seja talvez da época do ciclo da borracha, que muitos nordestinos vieram pra cá e isso acabou trazendo essa influência pra Amazônia.”

E quando o assunto é farinha, Pedro não esconde a admiração. Depois de experimentar produtos de diferentes regiões do país, ele diz ter encontrado na farinha de Cruzeiro do Sul um sabor que considera único.

A relação com esses alimentos também passou a fazer parte de sua rotina. Aos sábados, ele costuma voltar aos pontos de produção para levar tapioca, bolo e farinha para casa. E, quando retorna a Pernambuco para visitar a família, pretende levar um pouco dos sabores do Juruá.

“Eu concordo, viu? Que eu já experimentei farinhas de vários lugares do Brasil e igual à farinha daqui não existe. Tanto que agora eu vou a Pernambuco visitar minha família em dezembro, vou levar a farinha daqui pros meus tios. [...] Eu venho aqui quase todos os sábados, eu levo isso pra casa. Tapioca, o bolo. [...] Então nós temos que valorizar muito aquilo que é produzido localmente.”

O sabor que não se encontra em qualquer lugar

Mas a culinária que representa Cruzeiro do Sul não está apenas nos derivados da mandioca. Existem também sabores e preparações que ganharam características próprias e se tornaram parte da identidade da cidade.

No centro de Cruzeiro do Sul, Antônio José Souza do Nascimento, conhecido como Neguin dos Quibes, trabalha há 34 anos vendendo salgados. Ao longo desse tempo, viu produtos regionais conquistarem moradores e visitantes.

Entre eles, dois chamam atenção especial de quem chega de outras partes do país: o quibe de macaxeira e o ovo coberto, conhecido localmente como ovo com carne.

“Pros que vem de fora, o produto que mais faz sucesso é o quibe de macaxeira e o ovo coberto, que a gente chama aqui o ovo com carne. Sai muito. O pessoal vem de fora, de Manaus, São Paulo, Rio de Janeiro. [...] Pra fora não é comum. Esse quibe de arroz, de macaxeira, ovo com carne, é difícil, não tem não.”

Antônio explica que até mesmo a variedade da macaxeira utilizada interfere no resultado. Segundo ele, a macaxeira amarela deixa o quibe mais macio.

É um detalhe que revela como a culinária local foi sendo construída ao longo do tempo: a partir dos ingredientes disponíveis na região, das receitas passadas entre gerações e da criatividade de quem encontrou maneiras próprias de transformar esses produtos em comida.

Do Juruá para outras mesas

Outro alimento amazônico também ganhou espaço no cotidiano de Cruzeiro do Sul foi o açaí.

A presença do fruto na região não é recente. Dados históricos reunidos pela Suframa mostram que, em 1988, a produção de açaí do Acre estava concentrada principalmente no Vale do Juruá, com Cruzeiro do Sul em destaque.

Décadas depois, o açaí continua presente na produção local e na mesa da população. Além de ser consumido no próprio município, o produto também abastece outras cidades do Acre, levando um pouco do sabor do Juruá para diferentes lugares.

E para quem nasceu em Cruzeiro do Sul, mas precisou construir a vida longe daqui, esses sabores acabam se transformando em uma espécie de lembrança que pode ser levada na bagagem.

É o caso da servidora pública Taynara Martins. Moradora de Rio Branco, ela aproveita cada visita à cidade natal para reencontrar os sabores que fazem parte de sua história.

“Eu sou cruzeirense, atualmente moro em Rio Branco, mas sempre que dá eu estou aqui em Cruzeiro do Sul e todas as vezes que venho pra cá a gente faz questão de comer a nossa comida regional, que é muito específica em Cruzeiro do Sul. Nós temos a melhor farinha do Brasil, nós temos produtos regionais, o açaí. [...] Hoje eu estou aqui na casa de farinha, vim pegar uma tapioca, pegar um beiju, farinha de tapioca pra levar pra Rio Branco também, pra ter sempre lá o nosso mantimento.”

Uma cidade que também se reconhece pelo sabor

No aniversário de Cruzeiro do Sul, falar da comida que tem a cara da cidade é também falar das pessoas que estão por trás dela.

É falar de quem planta a mandioca, de quem transforma a raiz em farinha, tapioca ou bolo, de quem acorda cedo para preparar os salgados, de quem vende o açaí e de quem mantém receitas e costumes vivos mesmo diante das mudanças do tempo.

São histórias que começaram muitas vezes dentro de casa, passaram pelos quintais, chegaram aos pequenos comércios e, de geração em geração, ganharam novos caminhos.

Para quem nasceu aqui, esses alimentos podem parecer parte simples da rotina. Para quem está longe, podem trazer de volta a lembrança da infância, da família e da terra natal. E para quem chega de fora, são uma das primeiras formas de conhecer e compreender um pouco da cultura do Juruá.

Farinha, tapioca, macaxeira, quibe, pastel de ovos e açaí. Produtos diferentes, preparados de diferentes maneiras, mas unidos por algo maior: são sabores que não apenas alimentam.

Eles guardam memórias, carregam histórias e ajudam Cruzeiro do Sul a contar quem é.

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