Cinco anos após retorno do Talibã, Afeganistão enfrenta crise humanitária e restrições aos direitos das mulheres

Cinco anos após a retomada do poder pelo Talibã e a retirada das forças norte-americanas de Cabul, o Afeganistão continua enfrentando uma grave crise humanitária, econômica e de direitos humanos. Mulheres e meninas estão entre as principais vítimas das restrições impostas pelo regime, enquanto a redução da ajuda internacional agrava a pobreza e a insegurança alimentar.

Desde que voltou ao poder, o Talibã ampliou as medidas que limitam a participação feminina na sociedade. O Afeganistão é atualmente o único país do mundo onde meninas são impedidas de continuar os estudos após a sexta série. Segundo estimativa da Unesco, cerca de 2,4 milhões de meninas estão fora das escolas.

As restrições também atingem o mercado de trabalho e a liberdade de circulação. Mulheres foram afastadas de diversas profissões, obrigadas a cobrir o rosto em público e submetidas a limitações para viajar sem a companhia de um homem.

A ONU Mulheres aponta ainda um aumento do isolamento feminino. Metade das mulheres afegãs sai de casa apenas uma ou duas vezes por mês, enquanto sete em cada dez classificam sua saúde mental como ruim ou muito ruim.

Ajuda internacional diminuiu

A crise humanitária também se agravou com a redução da assistência internacional. Segundo dados apresentados na reportagem, a ajuda humanitária ao país caiu quase 70% desde 2022.

Mais de 10,7 milhões de mulheres e meninas dependem atualmente de ajuda humanitária. Ao mesmo tempo, organizações que atuam no país enfrentam dificuldades para manter serviços básicos devido à redução dos recursos.

A situação afeta diretamente as crianças. De acordo com a Save the Children, uma em cada dez crianças afegãs sofre de desnutrição aguda. O Unicef estima que mais de 11 milhões de crianças precisarão de assistência humanitária neste ano.

Quase 600 unidades de saúde também fecharam em meio aos cortes no financiamento, aumentando as dificuldades de acesso ao atendimento médico.

Decretos ampliam restrições

As medidas impostas pelo Talibã também avançaram sobre direitos familiares. Segundo a reportagem, um decreto publicado em março permite que homens apliquem castigos físicos às esposas em determinadas circunstâncias, desde que não provoquem fraturas ou ferimentos permanentes.

Outra medida dificultou o divórcio para mulheres e eliminou a idade mínima legal para o casamento, o que provocou alertas de organizações de direitos humanos sobre o risco de aumento dos casamentos infantis.

Especialistas passaram a classificar o conjunto de restrições como uma forma de “apartheid de gênero”, devido à exclusão sistemática das mulheres da vida pública, educacional e profissional.

Economia continua fragilizada

A economia afegã também enfrenta dificuldades. Antes da retomada do poder pelo Talibã, a ajuda estrangeira financiava aproximadamente três quartos dos gastos públicos do país. Grande parte desses recursos deixou de chegar após a mudança de governo.

Por outro lado, uma das poucas áreas em que o regime conseguiu reduzir drasticamente a produção foi a de ópio. Após a proibição do cultivo de papoula em 2022, a produção caiu cerca de 95%, segundo dados citados na reportagem. A medida, porém, eliminou uma importante fonte de renda para comunidades rurais sem oferecer alternativas suficientes de subsistência.

A redução da produção de ópio também abriu espaço para preocupações relacionadas ao crescimento da fabricação e do tráfico de drogas sintéticas, como metanfetaminas.

Relações internacionais

Embora nenhum país tenha normalizado completamente as relações com o Talibã, alguns governos ampliaram a aproximação com o regime. A Rússia reconheceu formalmente o governo afegão no ano passado, enquanto a China aprofundou relações econômicas e passou a atuar em setores como petróleo, cobre e lítio.

Ao mesmo tempo, grupos extremistas, incluindo o Estado Islâmico-Khorasan e a Al Qaeda, continuam ativos no país.

Cinco anos depois da retomada do poder pelo Talibã, o Afeganistão permanece marcado pela combinação de restrições aos direitos das mulheres, pobreza, insegurança alimentar, redução da ajuda internacional e fragilidade econômica. Para milhões de afegãos, especialmente mulheres e crianças, a crise continua fazendo parte do cotidiano.

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