Desenvolvido há 11 anos em Cruzeiro do Sul, o Projeto Mina apresentou nesta semana os resultados de avaliações realizadas com crianças acompanhadas desde o nascimento. A iniciativa busca analisar o desenvolvimento infantil ao longo dos anos e reúne informações que podem contribuir para o aprimoramento das políticas públicas voltadas à infância.
A pesquisa é coordenada por Bárbara Lourenço, professora da Universidade de São Paulo (USP), e teve, inicialmente, o apoio da rede de saúde do município. Atualmente, o projeto também conta com a parceria das secretarias Municipal e Estadual de Educação, ampliando a atuação e o acompanhamento das crianças participantes.
O Projeto Mina teve início com o acompanhamento de nascimentos registrados na maternidade de Cruzeiro do Sul entre julho de 2015 e junho de 2016. Na primeira etapa, 1.246 famílias, mães e bebês, participaram da pesquisa, que busca compreender como as condições vivenciadas durante a gestação e os primeiros anos de vida influenciam o crescimento, a saúde, o desenvolvimento e a aprendizagem. Ao longo do estudo, as crianças passaram por diferentes avaliações e, atualmente, os resultados obtidos no ano passado estão sendo apresentados a professores do Ensino Fundamental I, com discussões sobre alimentação, saúde, comportamento e convivência no ambiente escolar.
Segundo Bárbara Lourenço, o acompanhamento prolongado permite identificar impactos das experiências da primeira infância no desenvolvimento durante a idade escolar.
Entre as pesquisas do projeto, estão a identificação de alimentos típicos da região que podem contribuir para aumentar a ingestão de vitamina A na alimentação infantil. O nutriente é especialmente importante nessa fase por contribuir para o crescimento e desenvolvimento, fortalecer o sistema imunológico, proteger a visão e auxiliar na manutenção de tecidos do organismo. Entre os alimentos identificados está o buriti, fruta amazônica rica em vitamina A, cuja presença na alimentação pode ajudar a prevenir deficiências nutricionais e reduzir a vulnerabilidade das crianças a infecções.
A pesquisa apontou ainda, através de constante observação e pesquisa genética, que a amamentação continuada durante o primeiro ano de vida pode diminuir muito o risco de contração da malária, que é tão comum na região do Acre.
Projeto Mina amplia atuação para a educação
Inicialmente, o Projeto Mina foi desenvolvido em parceria principalmente com o setor de saúde. A partir de 2025, porém, a iniciativa passou a atuar também de forma mais próxima com a área da educação, com a qual foi realizada o Projeto Mina Escola.
Na primeira edição, o Projeto Mina esteve presente em 36 escolas de Cruzeiro do Sul, ampliando a coleta de informações e fortalecendo o diálogo com profissionais da educação sobre as condições enfrentadas pelas crianças acompanhadas. O trabalho contribuiu muito para identificar problemas recorrentes, como a anemia, registrada em 7,5% das crianças, e o excesso de peso infantil. Os resultados reforçam a importância de medidas de prevenção, especialmente por meio do incentivo ao consumo da merenda escolar, que passou por avanços significativos nos últimos anos com o fortalecimento do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
À medida que o projeto se aproxima de sua etapa final, diversas oficinas estão sendo realizadas com profissionais da educação para ampliar o debate sobre questões presentes no cotidiano das crianças. Entre os temas abordados estão a convivência no ambiente escolar, o uso excessivo de telas e o consumo de alimentos ultraprocessados, buscando fortalecer estratégias que contribuam para a saúde e o bem-estar dos estudantes.
Para a Bárbara Lourenço, os resultados obtidos ao longo dos anos podem ajudar escolas e gestores públicos a conhecer melhor as necessidades das crianças e, a partir dessas informações, aperfeiçoar políticas e ações nas áreas de saúde, alimentação e educação.
Embora a etapa da pesquisa do Projeto Mina, em Cruzeiro do Sul, esteja chegando ao fim, a coordenadora Bárbara Lourenço afirma que o encerramento não representa necessariamente um ponto final para o trabalho.
“Na verdade, a gente não gosta de colocar um ponto final. Então, sempre vamos fazer um esforço para conseguir novos recursos para o financiamento da pesquisa científica, que é uma coisa muito importante e que guia o nosso projeto. A gente está sempre nesses contatos para poder continuar o acompanhamento das crianças, que é do nosso interesse nos próximos anos. Então, a gente vai mandar noticias para as famílias, para as escolas e todos os nossos parceiros assim que a gente puder fazer novas avaliações”, explicou.






