
O Acre encerrou 2025 com o pior índice de vacinação contra o papilomavírus humano (HPV) entre crianças e adolescentes no Brasil, ficando bem abaixo das médias nacional e da região Norte. Os dados oficiais revelam uma cobertura considerada crítica por especialistas, especialmente diante do histórico positivo do estado em anos anteriores.
Entre meninas de 9 a 15 anos, a cobertura vacinal atingiu apenas 57,52%. Os percentuais variaram conforme a idade, indo de 47,37% aos 9 anos até um pico de 65,51% aos 11 anos, com queda progressiva nas faixas etárias seguintes. Já entre os meninos de 9 a 14 anos, o cenário é ainda mais preocupante: a média ficou em 49,01%, com destaque negativo para crianças de 9 e 14 anos, que registraram índices inferiores a 43%.
Apesar de representar uma leve melhora em relação a 2024 — quando a cobertura era de 38,17% no público masculino e 48,77% no feminino —, o avanço ainda é insuficiente. Em comparação, a média nacional em 2025 alcançou 84,94% entre meninas e 73,25% entre meninos. Na região Norte, os percentuais também superaram com folga os números acreanos, evidenciando o isolamento do estado no ranking nacional.
Especialistas apontam que a queda na vacinação tem múltiplas causas. O médico pediatra e imunologista Guilherme Augusto Pulici lembra que o Acre chegou a atingir índices superiores a 100% em 2015, impulsionado por campanhas intensivas, especialmente em escolas. Segundo ele, desde então, fatores como desinformação, receio quanto à segurança da vacina, redução da recomendação ativa por profissionais de saúde e dificuldades de acesso contribuíram para a retração.
A hesitação vacinal, intensificada após a pandemia de Covid-19, tem reflexos diretos na rotina dos consultórios. Doenças associadas ao HPV, vírus responsável por diversos tipos de câncer — como o de colo do útero — e verrugas genitais, tendem a se tornar mais frequentes em populações com baixa cobertura vacinal.
Entre as principais dúvidas relatadas por pais e responsáveis estão possíveis efeitos adversos, eficácia da vacina, idade adequada para a imunização e a necessidade de vacinação em meninos. Episódios regionais envolvendo supostos eventos adversos, posteriormente descartados por estudos científicos, também contribuíram para o aumento da desconfiança.
O especialista reforça que a vacina contra o HPV possui segurança amplamente comprovada por evidências científicas internacionais, sem associação com doenças autoimunes, neurológicas ou óbitos. Segundo ele, o perfil de segurança é semelhante entre as diferentes versões do imunizante disponíveis no país.
Para reverter o cenário, Pulici destaca a importância de estratégias eficazes já adotadas em outros países, como a vacinação em ambiente escolar, aliada a campanhas educativas e comunicação clara com a população. Os dados de 2025 também mostram desigualdades internas no estado, indicando a necessidade de ações específicas por faixa etária e gênero.
A Secretaria de Estado de Saúde do Acre foi procurada para comentar os dados e as medidas adotadas, mas não houve retorno até o fechamento da matéria.





