Nos últimos dez anos, o comércio exterior do Acre passou por uma transformação que vai muito além do crescimento das exportações. O Estado vende hoje muito mais ao exterior, alcançou novos mercados, incorporou produtos à pauta e alterou até mesmo os caminhos utilizados para fazer sua produção chegar a outros países.
Em 2016, as exportações acreanas somaram US$ 12,6 milhões. Em 2025, atingiram US$ 98,8 milhões, o maior valor da série analisada. Somente entre janeiro e agosto de 2026, já chegaram a US$ 85,6 milhões.
Como 2026 ainda é um ano incompleto, a comparação mais adequada é com o mesmo período de 2016. Nos oito primeiros meses daquele ano, o Acre exportou aproximadamente US$ 9,4 milhões. No mesmo intervalo de 2026, foram US$ 85,6 milhões. Em dez anos, portanto, as vendas externas cresceram mais de 800%, tornando-se nove vezes maiores.
Quadro 1 – Acre: evolução do comércio exterior – 2016 a 2026* – US$ milhões FOB
| Ano | Exportações | Importações | Saldo |
| 2016 | 12,63 | 1,75 | 10,88 |
| 2017 | 21,66 | 2,01 | 19,64 |
| 2018 | 39,80 | 2,76 | 37,04 |
| 2019 | 32,85 | 1,96 | 30,89 |
| 2020 | 33,96 | 2,85 | 31,10 |
| 2021 | 48,84 | 3,74 | 45,10 |
| 2022 | 54,37 | 5,25 | 49,12 |
| 2023 | 45,82 | 5,19 | 40,62 |
| 2024 | 87,30 | 4,43 | 82,86 |
| 2025 | 98,83 | 5,18 | 93,65 |
| 2026* | 85,62 | 2,81 | 82,81 |
Fonte: SECEX/MDIC. Elaboração do autor. 2026: janeiro a agosto.
A trajetória não foi linear, mas a tendência de longo prazo é clara. O salto mais recente ocorreu a partir de 2024, quando as exportações praticamente dobraram em relação a 2023. O saldo comercial também avançou: de US$ 10,9 milhões em 2016 para US$ 93,6 milhões em 2025.
Esse resultado não contradiz o elevado déficit do Acre no comércio com os demais estados brasileiros. No comércio internacional, as importações diretas são pequenas. Muitos produtos estrangeiros consumidos no Acre chegam depois de importados por empresas de outras unidades da Federação.
A pauta também mudou
Mais importante que o crescimento do valor exportado é observar o que o Acre exportava em 2016 e o que exporta atualmente. Há dez anos, predominavam castanha e madeira. Juntas, representavam cerca de dois terços das vendas externas. Bovinos e derivados respondiam por apenas 11,2%.
Em 2026, a fotografia é outra. Bovinos e derivados assumiram a liderança, a castanha permanece importante, a soja tornou-se o terceiro grande grupo exportador e a carne suína ganhou espaço. A madeira perdeu grande parte da participação que possuía.
Quadro 2 – Como mudou a pauta exportadora do Acre – Grupos selecionados de produtos de produção local
| Grupo | 2016 – US$ mi | Part. % | 2026* – US$ mi | Part. % |
| Bovinos e derivados | 1,41 | 11,2 | 33,57 | 39,2 |
| Castanha | 4,78 | 37,9 | 21,18 | 24,7 |
| Soja | — | — | 18,50 | 21,6 |
| Suínos e derivados | — | — | 7,87 | 9,2 |
| Madeira | 3,67 | 29,1 | 1,81 | 2,1 |
| Milho | 0,26 | 2,1 | 0,21 | 0,2 |
Fonte: SECEX/MDIC. Elaboração do autor. 2026: janeiro a agosto. Os grupos selecionados representavam 80,2% das exportações em 2016 e 97,1% em 2026.
A mudança é significativa. Em 2016, a pauta estava fortemente associada à economia florestal e extrativista. Em 2026, embora a castanha continue relevante, pecuária e agricultura passaram a ocupar posições centrais.
Carne bovina lidera; castanha mostra o valor do beneficiamento
Nenhum grupo simboliza melhor essa transformação que os bovinos e derivados. Em 2016, foram exportados apenas US$ 1,4 milhão, com predominância de miudezas, tripas e outros subprodutos. Em 2026, até agosto, o grupo movimentou US$ 33,6 milhões, tornando-se responsável por 39,2% das exportações estaduais.
A principal mudança ocorreu dentro do próprio grupo: a carne bovina desossada congelada passou a liderar, com US$ 23,3 milhões, 4,4 milhões de quilos e valor médio de US$ 5,30/kg. O Acre deixou, portanto, de exportar predominantemente subprodutos bovinos e passou a vender carne propriamente dita, em escala muito maior.
A castanha também avançou. As vendas passaram de US$ 4,8 milhões em 2016 para US$ 21,2 milhões em 2026. Mas os dados revelam um ponto particularmente importante para o desenvolvimento estadual.
Enquanto a castanha com casca foi comercializada por aproximadamente US$ 2,24/kg, a castanha beneficiada alcançou US$ 11,17/kg, quase cinco vezes mais. A diferença traduz uma questão recorrente no desenvolvimento acreano: quanto maior o processamento realizado dentro do Estado, maior tende a ser o valor incorporado à produção.
Quadro 3 – O valor da agregação: produtos selecionados em 2026*
| Produto | US$ milhões | Milhões kg | US$/kg |
| Carne bovina congelada | 23,32 | 4,40 | 5,30 |
| Castanha com casca | 17,13 | 7,64 | 2,24 |
| Castanha sem casca | 4,05 | 0,36 | 11,17 |
| Soja em grãos | 18,50 | 45,01 | 0,41 |
| Carne suína congelada | 7,42 | 2,56 | 2,90 |
| Outras madeiras tropicais serradas | 1,05 | 1,00 | 1,05 |
Fonte: SECEX/MDIC. Elaboração do autor. 2026: janeiro a agosto.
O problema é que, dos US$ 21,2 milhões exportados pelo grupo em 2026, cerca de US$ 17,1 milhões ainda correspondem à castanha com casca, principalmente destinada ao Peru.
Soja, suínos e a perda de espaço da madeira
A soja é outra expressão da nova pauta. Praticamente ausente entre os principais produtos selecionados em 2016, respondeu por US$ 18,5 milhões entre janeiro e agosto de 2026, ou 21,6% das exportações estaduais. Foram cerca de 45 milhões de quilos comercializados a US$ 0,41/kg. O grande volume e o baixo valor unitário mostram uma característica da commodity: aumenta consideravelmente a escala física das exportações, mas gera menor valor por quilo que produtos como carne e castanha beneficiada.
A carne suína também ganhou importância, alcançando US$ 7,9 milhões em 2026, com o Peru absorvendo quase toda essa produção.
A madeira percorreu caminho inverso. Representava 29,1% das exportações em 2016, com US$ 3,7 milhões, e caiu para pouco mais de 2% em 2026, com US$ 1,8 milhão. Não houve apenas perda de participação relativa, mas redução do próprio valor exportado.
Novos mercados e novas rotas
A transformação da pauta modificou também a geografia do comércio exterior acreano. Em 2016, Peru e Bolívia tinham enorme importância, enquanto Estados Unidos e países europeus apareciam principalmente como mercados para produtos de madeira.
Em 2026, o Peru permanece importante, mas novos destinos ganharam espaço. A Turquia tornou-se grande compradora de carne bovina e soja; os Emirados Árabes Unidos destacam-se na carne bovina; o México, na soja; e os Estados Unidos, na castanha beneficiada. China, Filipinas, Arábia Saudita e países africanos também aparecem na nova geografia exportadora.
Mudaram também as portas de saída.
Quadro 4 – Principais corredores das exportações acreanas em 2026*
| Local de saída | Valor aproximado | Principais produtos |
| Porto de Santos | US$ 29,6 milhões | Carne bovina, castanha beneficiada e madeira |
| Assis Brasil | US$ 25,1 milhões | Castanha, carne suína, bovinos e milho |
| Porto de Manaus | US$ 19,7 milhões | Soja e madeira |
| Outros locais | US$ 8,7 milhões | Carnes, madeira e outros produtos |
Fonte: SECEX/MDIC. Elaboração do autor. Valores referentes aos grupos de produção local selecionados na tabela de 2026.
A logística apresenta certa especialização: Santos tornou-se fundamental para carnes e produtos destinados a mercados mais distantes; Manaus é a principal saída da soja; e Assis Brasil consolida-se como corredor terrestre para o mercado peruano.
Nesse contexto, o Porto de Chancay, na costa peruana, surge como alternativa estratégica, sobretudo para ampliar o acesso aos mercados asiáticos. Aproveitar essa possibilidade, pela Rodovia Interoceânica e por Assis Brasil, exige melhorar a infraestrutura e a integração logística com o Peru. Para o Acre, o desafio não é apenas exportar mais, mas também encontrar rotas mais eficientes e competitivas para chegar aos mercados internacionais.
O desafio agora é exportar melhor
A comparação entre 2016 e 2026 mostra uma transformação expressiva. Em períodos equivalentes, as exportações cresceram mais de 800%, a pauta tornou-se mais diversificada e novos países e produtos foram incorporados.
Mas nem todo crescimento das exportações produz os mesmos efeitos sobre a economia local. Exportar soja a US$ 0,41/kg é diferente de exportar castanha beneficiada a mais de US$ 11/kg ou carne bovina a cerca de US$ 5,30/kg.
Por isso, a questão para os próximos anos não deve ser apenas quanto o Acre consegue exportar, mas principalmente o que exporta e quanto valor permanece dentro da economia estadual.
Depois de multiplicar suas exportações por nove em uma década, o desafio é transformar essa expansão em mais agroindustrialização, renda, investimentos e empregos no Acre.
Orlando Sabino escreve às sextas-feiras no Juruá Online.





