Compreender os sentimentos e como eles impactam nossas escolhas é um dos papéis da terapia. Para muitas pessoas, o acompanhamento é visto como algo necessário apenas em momentos difíceis, mas ele pode ser uma ferramenta importante para entender comportamentos da vida, inclusive na alimentação.
Segundo a psicóloga Fabiana Escudeiro, professora da PUCPR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná), as sessões podem ser aliadas em processos de reeducação alimentar porque estimulam uma reflexão sobre a relação com a comida e caminhos para mudá-la. “A terapia é uma aliada para qualquer tipo de mudança comportamental. Não tem perfil mais indicado para fazê-la em processos de reeducação, mas sim aquele que entende que a terapia faz parte desse processo e pode ser uma excelente auxiliar em fazer as mudanças acontecerem e se manterem ao longo do tempo”, diz.
Em alguns casos, como na obesidade e em transtornos alimentos (bulimia, anorexia e compulsão alimentar, por exemplo), a terapia é parte obrigatória do tratamento. Esses quadros demandam uma equipe multidisciplinar, geralmente com nutricionistas, psicólogos e demais profissionais conforme as especificidades de cada distúrbio.
“Há evidências de que a sensibilidade à recompensa é fator de risco para ganho de peso e obesidade. Isso apoia a recomendação que os indivíduos que vivem com obesidade devem ser informados sobre fundamentos neurobiológicos do impulso para comer, e apoiados para desenvolver habilidades comportamentais de enfrentamento para gerenciar essas questões”, diz a endocrinologista Sylka Rodovalho, da SBEM-SP (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo).
- Controlar emoções sem recursos externos
Um dos principais objetivos da terapia é criar ferramentas para que a pessoa consiga regular as emoções sem usar recursos externos. Comer pode ser um deles, assim como o acolhimento de terceiros e o consumismo podem assumir esse papel.

“A comida geralmente é um regulador de humor, não é porque a pessoa não tem disciplina, mas porque não suporta passar um dia sem aquele recurso para se sentir bem”, indica a psicóloga Andréa Pato, especialista em psicanálise pela UFBA (Universidade Federal da Bahia).
Na obesidade e sobrepeso, por exemplo, a terapia também é indicada quando a vida do paciente é ditada pela sua autoimagem, quando sua visão sobre si impacta as relações e situações do dia a dia, explica a profissional.
“O quanto estar ou ser obeso tem relação com o que você pensa sobre você? Seu lugar nas relações, posição na família, porque emagrecer não é só questão estética”, descreve Pato, também especialista em obesidade e transtornos alimentares pela USP (Universidade de São Paulo).
Terapia ajuda a fugir de perfeccionismos
Outra ideia também é romper com perfeccionismos comuns em dietas. Isso normalmente faz com a pessoa desista dos novos hábitos ainda na primeira “escapada”, além de causar interpretações muito restritivas sobre comer e ser saudável.
“A reeducação alimentar não é perfeita. E muitas pessoas a interrompem na primeira ‘jacada’. A terapia entra para dar estratégias e a pessoa não cair nessas armadilhas. A mente influencia na escolha alimentar de diversas maneiras, cada paciente tem o seu jeito de ser, e um pode não permitir cometer uma falta”, indica Escudeiro.
Por isso, a terapia também pode ser uma ferramenta para pessoas que desejam adotar hábitos mais saudáveis, no geral, mas não encontram caminho para se organizar e esbarram nos mesmos comportamentos —como não conseguir praticar atividade física, comer melhor ou apenas manter uma rotina mais equilibrada.

Segundo Escudeiro, mesmo que a rotina não se sustente para sempre, afinal os períodos de instabilidade ou a necessidade de se investir em outras áreas da vida são comuns, é importante que essa pessoa já conheça os dispositivos para reconhecer padrões de comportamentos e saber como restabelecer boas práticas à saúde.
- Quais abordagens são mais indicadas?
A TCC (terapia cognitivo-comportamental) é bastante associada aos tratamentos para perder peso. A abordagem atua no desenvolvimento de metas e na interpretação das ações dessa pessoa para entender, por exemplo, quando ela não conseguiu aderir à dieta e o que sentiu naquele momento.
“Cada pessoa tem um jeito diferente de funcionar, tem gente que come porque está feliz, porque não percebe, está entediado. A função da terapia é entender o padrão de funcionamento daquela pessoa, qual é a função da comida e como fazer para mudar isso, se necessário”, diz a psicóloga Fabiana Escudeiro.
Por VivaBem






