Após 30 anos do Crime da Motosserra, viúva de vítima consegue pensão provisória de um salário mínimo no Acre

Três décadas após um dos episódios mais violentos da história do Acre, a Justiça concedeu uma pensão mensal provisória de um salário mínimo a Evanilda Lima de Oliveira, de 71 anos, viúva de Agilson Firmino dos Santos, conhecido como “Baiano”, assassinado em julho de 1996 junto com o filho, Wilder Firmino dos Santos, de 13 anos. O caso ficou conhecido nacionalmente como o “Crime da Motosserra”.

A decisão foi proferida na quarta-feira (28), pela 1ª Vara da Fazenda Pública da Comarca de Rio Branco, após pedido de urgência apresentado pelo Ministério Público do Estado do Acre (MPAC). O Estado terá dez dias, a partir da intimação, para implantar o benefício, com o primeiro pagamento previsto ao término desse prazo.

A pensão foi concedida dentro de uma ação civil pública que busca responsabilizar o Estado do Acre pelas violações de direitos humanos sofridas pela família. Segundo o Ministério Público, documentos reunidos no processo apontam o possível envolvimento de agentes públicos nos assassinatos e a utilização de estruturas policiais durante os crimes.

Viúva enfrenta problemas de saúde

Ao solicitar a antecipação da pensão, o MPAC destacou que Evanilda enfrenta problemas graves de saúde, tem idade avançada e depende dos cuidados dos filhos.

Depois dos assassinatos, a família precisou deixar Rio Branco e reconstruir a vida em outro estado. Conforme os argumentos apresentados pelo Ministério Público, as consequências da violência e da mudança forçada continuam afetando os familiares até hoje.

A Justiça considerou que os documentos apresentados indicam elementos que justificam a proteção imediata da viúva, especialmente diante de sua condição de vulnerabilidade. O Estado foi intimado a se manifestar sobre o pedido, mas não apresentou resposta dentro do prazo de 72 horas.

MPAC pede R$ 2 milhões em indenizações

Além da pensão provisória, a ação civil pública pede a condenação do Estado ao pagamento de R$ 2 milhões em indenizações, sendo R$ 1 milhão por danos morais à família e outros R$ 1 milhão por danos morais coletivos.

O Ministério Público também solicita uma pensão mensal vitalícia de um salário mínimo, com pagamento retroativo à época dos assassinatos, em 1996, além da realização de um ato público oficial de pedido de desculpas à família.

O valor destinado aos danos coletivos, caso o pedido seja aceito, deverá ser aplicado em projetos educativos e de preservação da memória sobre violações de direitos humanos.

Os demais pedidos ainda serão analisados pela Justiça. A concessão atual tem caráter provisório e não representa uma decisão definitiva sobre a responsabilidade do Estado.

Tentativa de reparação começou em 2015

A busca por reparação já havia sido apresentada ao poder público há mais de uma década. Em 2015, o MPAC encaminhou ao governo estadual um projeto de lei que previa a concessão de pensão especial a Evanilda e aos filhos.

A proposta, porém, não avançou no Executivo nem no Legislativo, levando posteriormente ao ajuizamento da ação civil pública.

O Ministério Público sustenta que os assassinatos representam graves violações de direitos humanos cometidas com participação de agentes estatais no exercício de suas funções e defende que a pretensão de reparação é imprescritível.

Relembre o Crime da Motosserra

Agilson Firmino dos Santos, conhecido como “Baiano”, e o filho Wilder foram assassinados em julho de 1996, em um episódio relacionado a uma vingança pela morte de Itamar Pascoal, irmão do então deputado federal Hildebrando Pascoal.

Segundo a narrativa apresentada pelo MPAC na ação, Agilson não participou da morte de Itamar, mas trabalhava para José Hugo, apontado como autor do disparo que matou o policial.

Agilson teria sido capturado ilegalmente por policiais, mantido em cárcere privado e submetido a sessões de tortura. Conforme a descrição do Ministério Público, ele foi mutilado ainda vivo com uma motosserra e morto posteriormente, em um dos crimes que marcaram a história da violência no Acre.

O filho dele, Wilder, que tinha apenas 13 anos, também teria sido sequestrado e torturado para revelar o paradeiro do pai. O adolescente foi executado com dois tiros na cabeça, e seu corpo abandonado às margens de uma rodovia.

Grupo de extermínio marcou a história do Acre

O MPAC contextualiza os assassinatos dentro da atuação de grupos de extermínio no Acre durante a década de 1990. Segundo o órgão, essas organizações envolviam agentes públicos e eram associadas a homicídios, torturas, sequestros e ameaças.

A investigação e a repercussão dos crimes provocaram a atuação da Polícia Federal, do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana e a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Congresso Nacional.

Hildebrando Pascoal teve o mandato de deputado federal cassado, e integrantes do grupo foram presos.

A ação judicial que envolve a família de Agilson e Wilder continua em tramitação. A Justiça determinou prioridade na análise do processo, condicionada à comprovação da idade da beneficiária, e exigiu que o Estado apresente a comprovação da implantação da pensão.

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