Negócios que viraram história: empresas atravessam gerações e marcam a trajetória de Cruzeiro do Sul

Quando uma cidade cresce, muita coisa muda. Mudam as ruas, os hábitos, a forma de comprar, de trabalhar e até de se comunicar. Mas, em meio a tantas transformações, algumas empresas permanecem. São negócios que atravessam décadas, acompanham diferentes gerações e, com o tempo, passam a fazer parte da própria memória de Cruzeiro do Sul.

No aniversário da segunda maior cidade do Acre, histórias como as da A Cruzeirense, da Da’lu Modas e da Baby-Lu ajudam a lembrar que a história de um município também é construída por quem empreende, trabalha e acompanha de perto as mudanças vividas pela população.

São trajetórias diferentes, em segmentos distintos, mas marcadas por elementos em comum: persistência, capacidade de adaptação e a participação de novas gerações das famílias.

A história da A Cruzeirense começou há mais de 60 anos, com a família de Núcia Melo. Antes de chegar ao formato atual, a família passou por diferentes atividades comerciais e acompanhou as transformações do comércio local.

Hoje, Núcia administra a A Cruzeirense Magazine ao lado da filha, Maria Eduarda. Mas a relação da família com o comércio começou muito antes de elas assumirem a empresa.

“Bom, se eu fosse te contar a história inteira a gente ia passar algumas horas aqui do seu tempo, mas tudo começou, tudo começou, com meu pai, meu tio João Melo. E depois eles foram abrindo empresas, a Casa Melo, era bem lembrada por muitas pessoas antigas de Cruzeiro do Sul, depois Supermóveis Melo. [...] E depois com meu tio e meu pai resolveram dividir a empresa, aí ficamos eu, meu pai e meu irmão com a Cruzeirense”, relembra Núcia Sales de Melo, proprietária da A Cruzeirense Magazine.

Para ela, uma palavra resume a trajetória construída ao longo dessas décadas: persistência.

“Persistência. Cê sabe que esse ramo de comércio ele é muito flutuante, né? Hoje antigamente a gente tinha só a nossa loja que vendia eletrodoméstico, depois vieram redes pra cá e você vai se reinventando. E isso eu herdei muito do meu pai também, ele era muito fino, ele era muito intuitivo. [...] Então ele sempre foi muito visionário”, afirma.

A continuidade desse trabalho já acontece dentro da própria família. Maria Eduarda cresceu frequentando a loja, conheceu diferentes áreas do negócio e, com o passar dos anos, assumiu novas responsabilidades até se tornar sócia da mãe.

Para ela, a sucessão aconteceu de maneira gradual, à medida que as responsabilidades foram sendo divididas.

“Eu cresci dentro da loja. Meu avô tinha a loja Cruzeirense, que hoje em dia é Cruzeirense Matriz, que está lá no mercado, e a minha mãe sempre trabalhou lá. Então eu, desde pequenininha, tinha rotina de ir pra loja. À medida que fui crescendo, fui ganhando algumas responsabilidades. [...] Então eu sinto que desde sempre o comércio está no meu sangue”, conta Maria Eduarda de Melo Bardi, sócia da A Cruzeirense Magazine e Cabana Mix.

Em outro segmento, a Da’lu Modas também construiu uma trajetória de décadas em Cruzeiro do Sul. A empresa completa 34 anos em outubro, mas a história de Luciete Inácio com o comércio começou ainda antes da primeira loja.

Aos 16 anos, ela começou a vender roupas em casa. Dois anos depois, criou a própria empresa. Naquele período, empreender na região significava enfrentar dificuldades que hoje fazem parte da memória de quem acompanhou o crescimento do comércio local.

As viagens para comprar mercadorias, por exemplo, podiam durar dias dentro de ônibus até os grandes centros comerciais.

“Eu comecei a minha história com dezesseis anos, eu comecei a empreender, vender roupa, em casa mesmo e com dezoito anos eu montei a minha empresa, criei meu CNPJ. Naquela época a dificuldade era grande, tinha que ir de ônibus, passava três, quatro dias dentro do ônibus até chegar nos grandes centros, tudo era muito, muito difícil. [...] Mas que perseverem, que vocês conseguem”, relata Luciete Inácio, proprietária da Da’lu Modas.

A empresa cresceu junto com a cidade e também passou a fazer parte da rotina de outras gerações da família.

O filho de Luciete, André Inácio, cresceu dentro da Da’lu e posteriormente levou a marca para Rio Branco. A experiência adquirida ao longo dos anos em Cruzeiro do Sul foi fundamental nesse processo de expansão.

“Na verdade eu cresci dentro da Dalu. Quando eu nasci, minha mãe já tinha a Dalu. [...] Então a loja, eu cresci dentro do comércio, essa sempre foi minha vida. [...] Em 2018 eu me vi, falei assim, eu quero voar um pouco mais alto, aí foi quando eu decidi abrir a Dalu em Rio Branco.”

Mais do que números ou tempo de mercado, essas histórias revelam uma outra forma de enxergar o desenvolvimento de Cruzeiro do Sul. Cada mudança na cidade também significou uma adaptação para quem mantinha as portas abertas.

Os produtos mudaram, as formas de comprar se transformaram, novas empresas chegaram e a tecnologia modificou a maneira de vender. Ainda assim, negócios familiares conseguiram atravessar diferentes períodos e permanecer presentes na vida dos moradores.

A Baby-Lu, que iniciou as atividades em dezembro de 1986, trabalhando inicialmente com armarinho e mercadorias em geral, em 1992 mudou de ramo e passou a atuar como sorveteria, sendo uma das mais conhecidas e antigas da cidade.

O proprietário, Luiz Carlos, conta que a produção começou de forma experimental, mas a boa aceitação do público levou a família a investir no negócio.

“A gente abriu a empresa em dezembro de 1986, a gente trabalhava com armarinho e mercadoria em geral. E, a partir de 1992, a gente mudou o ramo para a sorveteria. A gente começou vendendo um sorvete experimental, aquele sorvetezinho espumoso, mas a população aceitou. Foi uma venda muito boa desse sorvete e aí a gente, em 1994, resolveu investir em equipamentos de última geração.”

Ao longo dos anos, a Baby-Lu passou por diferentes endereços e formatos de venda. No início, a empresa chegou a utilizar uma carrocinha para comercializar os produtos em festivais de praia, eventos, municípios vizinhos e na praça central de Cruzeiro do Sul.

Com o crescimento da empresa, a produção passou a ser feita pela própria sorveteria e Luiz Carlos continuou acompanhando de perto o processo. A administração também ganhou uma nova geração da família: aos 20 anos, Iana Oliveira, filha do proprietário, assumiu a gerência.

Para Iana, a responsabilidade representa a continuidade de uma história que acompanha desde a infância.

“Para mim é muito gratificante, porque desde pequena eu sempre estive ali por perto, acompanhando os meus pais, vendo tudo aquilo, e é uma coisa também que eu gosto. Eu gosto de estar aqui, eu gosto de vender. Quando eu entrei, eu já entrei sabendo como fazer, como administrar e também como vender, atender.”

Nas três empresas retratadas nesta história, os negócios começaram de formas diferentes, mas encontraram um ponto em comum: a necessidade de acompanhar as transformações de Cruzeiro do Sul sem abandonar os valores que ajudaram a construir a relação com os clientes.

Mais do que produtos e serviços, essas empresas carregam histórias de famílias que construíram suas trajetórias profissionais no município e que, décadas depois, continuam apostando na cidade.

No aniversário de Cruzeiro do Sul, essas empresas representam uma parte dessa memória. São histórias de trabalho que começaram em outras épocas, atravessaram gerações e continuam sendo escritas por filhos, pais e netos.

Porque a história de uma cidade não está apenas nas ruas, nas praças ou nos prédios antigos. Ela também está nas portas que se abriram durante décadas, nas famílias que fizeram do comércio seu modo de vida e nas pessoas que, ao longo dos anos, ajudaram a construir a Cruzeiro do Sul que existe hoje.

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