A aviação privada brasileira registrou ao menos 57 acidentes envolvendo aviões em 2026, dos quais 11 foram fatais, resultando em 25 mortes. Os números representam, em média, um acidente com vítima fatal a cada cinco ocorrências registradas no setor neste ano.
Os dados são do Painel Sipaer, do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), ligado à Força Aérea Brasileira (FAB). O levantamento reúne informações sobre acidentes e incidentes graves registrados no país desde 2016.
Ao analisar os últimos dez anos, o painel aponta que a conduta dos pilotos aparece entre os principais fatores associados às ocorrências. Dos 1.110 acidentes e incidentes graves envolvendo aeronaves privadas no período, 243 tiveram o “julgamento dos pilotos” como fator contribuinte, enquanto 178 estiveram relacionados a problemas na “aplicação de comandos”.
Para o perito aeronáutico Daniel Kalazans, os números refletem um problema relacionado à tomada de decisões durante os voos. Segundo ele, a pressão por cumprimento de horários e pela redução de prejuízos pode levar pilotos a assumir riscos desnecessários.
“Muitas vezes as condições climáticas, por exemplo, não são favoráveis para a operação, mas o passageiro ou o proprietário da aeronave acabam pressionando o piloto para realizar o voo. Muitos acabam caindo nessa cilada, o que resulta, infelizmente, em acidentes”, afirmou.
Em situações de perigo, a orientação é que o piloto procure a alternativa mais segura, o que pode incluir contornar ou desviar da área de risco, pousar em um aeródromo alternativo, utilizar um campo de futebol ou retornar ao aeroporto de origem.
Tecnologia disponível nem sempre é utilizada
O especialista também chama atenção para os equipamentos de segurança disponíveis em aeronaves mais modernas. Aviões e helicópteros podem contar com sistemas capazes de emitir alertas sobre determinados riscos, como a proximidade com o terreno, especialmente importantes em situações de baixa visibilidade.
Segundo Kalazans, apesar da existência dessas tecnologias, ainda há aeronaves que não utilizam os equipamentos. Ele afirma que o custo costuma ser apontado como justificativa pelos proprietários, mas considera o investimento pequeno diante dos riscos envolvidos.
“Eu não sei por que muitos helicópteros ou aviões não fazem uso desses aparelhos disponíveis. Muitos alegam que o preço é muito alto. Para quem mantém uma aeronave, porém, eu posso garantir que o custo é irrisório em comparação ao risco. Então, eu classifico esse comportamento como uma ‘economia porca’ por parte de muitos proprietários”, disse.
Falhas na manutenção também preocupam
Outro ponto destacado pelo especialista é a manutenção das aeronaves. De acordo com os dados apresentados, 22% das ocorrências registradas neste ano tiveram influência de falhas relacionadas à manutenção.
Para Kalazans, o problema pode estar associado à pressão para manter as aeronaves em operação. Segundo ele, a interrupção de um voo ou a retirada de uma aeronave para manutenção pode ser vista como prejuízo financeiro.
“A ocultação de falhas é muito comum na aviação, geralmente motivada pela pressão dos superiores para que o voo aconteça. Muitas vezes, parar uma aeronave para manutenção é visto como prejuízo financeiro. Essa mentalidade está enraizada na cultura aeronáutica e precisa ser interrompida com urgência”, afirmou.
Quem fiscaliza e quem investiga
A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) é responsável pela regulamentação e fiscalização da aviação civil brasileira. Criada pela Lei nº 11.182, de setembro de 2005, a agência também atua na certificação, normatização e fiscalização das atividades relacionadas à aviação civil e à infraestrutura aeronáutica e aeroportuária.
Procurada sobre os principais desafios atuais da fiscalização e sobre quais segmentos da aviação apresentam maior dificuldade de controle e acompanhamento, a Anac não se manifestou.
Já o Cenipa é responsável pela investigação das ocorrências aeronáuticas. O objetivo das apurações, segundo o órgão, é identificar fatores que possam ter contribuído para os acidentes e produzir informações que ajudem a evitar novas ocorrências.
O centro ressalta que as investigações não têm como finalidade apontar culpa ou responsabilidade civil ou criminal, mas contribuir para o fortalecimento da segurança do transporte aéreo.
O Cenipa também esclarece que não fiscaliza as atividades das aeronaves nem realiza a certificação de pilotos, atribuições que competem à Anac.
Acidente que matou o cantor Rick
Os números voltaram a chamar atenção após o acidente que matou o cantor Rick Sollo, da dupla Rick & Renner, na última segunda-feira (21). O helicóptero Bell 430 em que ele estava caiu em uma região montanhosa de Urubici, na Serra Catarinense, durante o trajeto entre Porto Belo e São Joaquim.
Além do cantor, outros quatro ocupantes morreram na queda. A aeronave havia perdido contato durante o voo.
As causas do acidente ainda são investigadas. Entre as hipóteses levantadas estão as condições de baixa visibilidade provocadas pela chuva intensa no momento do voo, que poderiam ter contribuído para um pouso forçado malsucedido ou para dificuldades na operação.
Os danos identificados na parte dianteira do helicóptero também indicam que a aeronave pode ter colidido com árvores antes da queda.





