Os rebeldes Houthis assumiram o controle da ilha de Perim, no Iêmen, localizada no estratégico Estreito de Bab al-Mandeb, uma das principais rotas marítimas entre o Mar Vermelho e o Oceano Índico. A tomada da ilha, ocorrida na sexta-feira (11), aumenta a capacidade do grupo, aliado do Irã, de ameaçar a navegação internacional e pode ampliar os impactos da guerra envolvendo Teerã e os Estados Unidos.
Perim, também conhecida como Mayyun, fica em um dos pontos mais estreitos do Bab al-Mandeb, a cerca de 20 quilômetros do Chifre da África. A posição transforma a ilha em um ponto estratégico para o controle do tráfego marítimo. Na quinta-feira (10), os Houthis também haviam tomado a cidade costeira de Mocha, localizada aproximadamente 80 quilômetros ao norte de Perim.
A importância da região aumentou depois que o Estreito de Ormuz, outra passagem fundamental para o comércio mundial de petróleo, foi efetivamente fechado em meio ao conflito entre Estados Unidos e Irã. Com isso, países produtores passaram a utilizar rotas alternativas pelo Mar Vermelho.
A Arábia Saudita, por exemplo, desviou parte de suas exportações de petróleo para o Mar Vermelho. Agora, com o avanço Houthi sobre Perim e áreas próximas ao Bab al-Mandeb, cresce o risco de interrupções no transporte de petróleo e outras mercadorias.
O grupo já controla a capital Sanaa, grandes áreas do noroeste do Iêmen e boa parte da costa do Mar Vermelho. A expansão ocorre em meio ao agravamento da guerra civil iemenita e à crescente participação dos Houthis no conflito regional envolvendo o Irã, Israel, Estados Unidos e Arábia Saudita.
Segundo Tarik Saleh, vice-presidente do governo internacionalmente reconhecido do Iêmen, a possibilidade de os Houthis controlarem o Bab al-Mandeb representa uma mudança de escala no conflito. Ele afirmou que uma eventual expulsão do grupo da região exigiria uma grande operação internacional e a participação de forças navais.
A guerra civil do Iêmen começou em 2014, quando os Houthis tomaram Sanaa e expulsaram o governo reconhecido internacionalmente. No ano seguinte, a Arábia Saudita iniciou uma campanha militar contra os rebeldes. O Irã, por sua vez, passou a fornecer armas e treinamento ao grupo e mantém influência sobre suas decisões.
O conflito ganhou dimensão internacional após o ataque do Hamas contra Israel, em outubro de 2023. Os Houthis passaram a lançar ataques contra Israel e contra embarcações no Mar Vermelho, afirmando agir em solidariedade aos palestinos de Gaza.
Mais recentemente, o grupo declarou um bloqueio naval contra a Arábia Saudita e ameaçou embarcações ligadas às exportações sauditas pelo Bab al-Mandeb. Também foram registrados ataques com mísseis e drones contra instalações petrolíferas, aeroportos e outros alvos no território saudita.
Apesar da proximidade com o Irã, analistas afirmam que os Houthis também possuem interesses próprios. O pesquisador Farea Al-Muslimi, do Chatham House, avaliou que o grupo busca utilizar a guerra como forma de fortalecer sua posição interna e pressionar a Arábia Saudita a voltar às negociações.
O avanço dos Houthis já provocou efeitos sobre o comércio marítimo. Dados da Kpler indicam que o volume de petróleo transportado pelo Bab al-Mandeb caiu pela metade em relação a três anos atrás. Uma nova campanha de ataques pode reduzir ainda mais o tráfego pela região.
A população local também sofre os efeitos da escalada. Pescadores relatam queda no movimento de embarcações e prejuízos nos negócios. Autoridades do governo iemenita afirmam ainda que ataques de drones dos Houthis atingiram áreas utilizadas por pescadores e deixaram mortos e feridos.
A cidade portuária de Mocha também foi duramente atingida. Segundo o diretor do porto, Abdel Malek Al-Sharaabi, mais de 25 foguetes atingiram a área enquanto navios comerciais descarregavam mercadorias. Dezesseis pessoas morreram e 22 ficaram feridas. Seis embarcações comerciais foram afundadas e cerca de 14 mil motocicletas foram destruídas.
Os Houthis possuem um arsenal que inclui mísseis antinavio de longo alcance, sistemas de defesa aérea e drones. O grupo também afirma ter mísseis hipersônicos e já realizou ataques contra alvos a mais de 1,6 mil quilômetros de distância, incluindo território israelense.
As forças do governo iemenita, por sua vez, passaram a utilizar novos drones FPV contra posições Houthi. Autoridades afirmam que o Exército também recebeu treinamento e novos equipamentos para enfrentar os rebeldes.
O governo do Iêmen acusa ainda o Irã de manter um amplo esquema de fornecimento de armas aos Houthis. Em um carregamento apreendido antes de chegar ao grupo, foram encontrados mísseis de aproximadamente cinco metros, radares de longo alcance, motores de drones, equipamentos ópticos e munições. Segundo autoridades, contrabandistas teriam relatado outros 11 carregamentos semelhantes, que juntos somariam cerca de 750 toneladas.
Com o controle de Perim, autoridades iemenitas temem que os Houthis possam avançar para uma estratégia ainda mais agressiva contra a navegação. Uma das preocupações é a possibilidade de instalação de minas marítimas no estreito, o que poderia dificultar ainda mais a passagem de navios.
O avanço reforça a percepção de que a guerra civil do Iêmen deixou de ser apenas um conflito doméstico e passou a integrar diretamente a disputa geopolítica envolvendo Irã, Estados Unidos, Arábia Saudita e outras potências.
Para as autoridades do governo iemenita, uma eventual ausência de apoio internacional poderá elevar o custo de uma futura operação para recuperar os territórios controlados pelos Houthis. O impacto, segundo elas, não ficaria restrito ao Iêmen e poderia atingir também forças estrangeiras, o comércio internacional e o mercado de energia.





