A polícia da Coreia do Sul realizou, nesta quarta-feira (5), buscas nos escritórios da Starbucks Korea como parte da investigação sobre uma campanha publicitária acusada de desrespeitar a memória das vítimas do Levante de Gwangju, um dos episódios mais marcantes da luta pela democracia no país.
A apuração foi aberta após um grupo da sociedade civil e familiares das vítimas apresentarem uma denúncia contra integrantes do Grupo Shinsegae, responsável pela operação da Starbucks na Coreia do Sul, sob acusação de difamação.
As buscas representam um novo capítulo da crise enfrentada pela empresa, que já havia pedido desculpas publicamente, demitido o principal executivo da operação sul-coreana e implementado treinamentos obrigatórios para seus funcionários.
Origem da polêmica
A controvérsia teve início em 18 de maio, quando a Starbucks Korea lançou uma campanha para divulgar uma nova linha de copos térmicos chamada “SS Tank”. A empresa promoveu a data como “Tank Day” (“Dia do Tanque”), coincidindo com o 46º aniversário do Levante de Gwangju.
O levante ocorreu em maio de 1980, quando estudantes e moradores da cidade protestaram contra a ditadura militar. A repressão foi conduzida pelo Exército, que mobilizou soldados, tanques e outros veículos militares. Segundo dados oficiais, 165 civis morreram, embora organizações de direitos humanos estimem que o número de vítimas tenha sido maior.
A campanha foi amplamente criticada por associar um produto comercial a um símbolo da repressão militar e por banalizar um episódio considerado fundamental na história democrática sul-coreana.
O anúncio também utilizava o slogan “Bata na mesa!”, expressão que críticos relacionaram a uma frase usada por autoridades em 1987 para tentar encobrir a morte sob tortura do estudante e ativista Park Jong-chol, cuja morte impulsionou os protestos que levaram ao processo de redemocratização do país.
Medidas adotadas pela empresa
Diante da forte repercussão negativa, o Grupo Shinsegae retirou a campanha do ar poucas horas após seu lançamento. A empresa também demitiu o CEO da Starbucks Korea e publicou um pedido oficial de desculpas, assinado pelo presidente do grupo, Chung Yong-jin, reconhecendo a gravidade do episódio.
Em junho, a companhia anunciou novas medidas para evitar casos semelhantes. Pela primeira vez desde a chegada da Starbucks ao país, em 1999, todas as mais de 2 mil lojas da rede na Coreia do Sul encerraram o expediente mais cedo para que os funcionários participassem de um treinamento obrigatório sobre história, memória e sensibilidade social.
Os cursos foram ministrados por especialistas em história e sociologia para executivos e colaboradores da sede, enquanto os demais funcionários acompanharam as aulas em formato gravado.
Segundo a empresa, a iniciativa tem como objetivo reforçar a responsabilidade cultural da marca e prevenir novos episódios que possam desrespeitar acontecimentos históricos relevantes.
A crise ganhou ainda mais repercussão porque a Coreia do Sul é o terceiro maior mercado da Starbucks no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e da China.





