Conquista do voto feminino no Brasil resistiu à misoginia histórica, dizem pesquisadores

A conquista do voto feminino no Brasil, obtida em 1932, foi precedida e seguida por ataques misóginos que persistem até o presente, segundo estudiosas ouvidas pela Agência Brasil. Em 1891, o senador constituinte Coelho e Campos declarou: “Minha mulher não irá votar”. No mesmo ano, Serzedelo Corrêa afirmou que jogar a mulher no meio das paixões políticas seria “tirar-lhe a santidade”.

Em 2026, o influenciador Paulo Figueiredo (neto do ex-presidente não eleito João Figueiredo, do período ditatorial) afirmou: “Mulher vota estatisticamente mal, principalmente as solteiras. As casadas costumam acompanhar o marido”. A fala gerou reação de pesquisadoras, que classificam os ataques como parte de uma lógica patriarcal e machista recorrente.

A professora de direito Fernanda Abreu, da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN), afirma que discursos que questionam o voto feminino violam o Artigo 14 da Constituição Federal (sufrágio universal) e o Artigo 5º (vedação à discriminação). Ela avalia que tais manifestações são inconstitucionais e criminosas, e que há iniciativas para acionar a Procuradoria-Geral da República sobre o tema.

A pesquisadora Cibele Tenório, da Universidade de Brasília (UnB), afirma que a recorrência dos ataques em mais de um século é “absurda”, mas não surpreende em uma estrutura de machismo estrutural. Ela é biógrafa da sufragista alagoana Almerinda Gama (1899-1999), uma das primeiras mulheres negras na política brasileira.

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), estão aptas a votar em 2026 83.877.126 brasileiras, contra 74.845.001 homens. As mulheres representam 53% do eleitorado. Em relação à educação, 29,28% das mulheres têm ensino médio completo (contra 26,35% dos homens) e 13,08% concluíram o ensino superior (contra 9,1% dos homens). Entre as eleitoras, 51,76% são pardas, 10,96% pretas e 35,71% brancas; 50% declararam-se solteiras.

As pesquisadoras apontam que os ataques atuais se inserem no fenômeno chamado de backlash (retaliação): a cada avanço dos direitos das mulheres, surgem tentativas de violação. “Quanto mais as mulheres avançam, mais as estruturas que sustentam a misoginia, o patriarcado e o machismo resistem”, diz Fernanda Abreu.

Historicamente, a primeira Constituição Republicana (1891) rejeitou o sufrágio feminino sob argumento de incapacidade intelectual da mulher. Em 1919, a candidatura de Leolinda Daltro, fundadora do Partido Republicano Feminino, foi negada. As sufragistas eram ridicularizadas na imprensa como “mulheres-homens”.

O Código Eleitoral de 1932, primeiro a garantir o voto feminino, inicialmente exigia autorização do marido para mulheres casadas – cláusula retirada após pressão das sufragistas. O direito foi consolidado na Constituição de 1934. O Brasil foi o quarto país do Ocidente a garantir o sufrágio feminino, depois de Canadá, EUA e Equador. Em 1946, o voto feminino tornou-se obrigatório para mulheres alfabetizadas; a Constituição de 1988 eliminou o requisito de alfabetização.

A professora Hildete Pereira, da Universidade Federal Fluminense (UFF), afirma que a luta pelo voto foi acompanhada por outras pautas, como acesso à educação e ao mercado de trabalho. Para ela, políticas públicas devem reforçar o papel da mulher na sociedade. Ana Prestes, da UnB, defende o reforço da educação formal como caminho de resistência. Marlise Matos, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), diz que o Estado deve reafirmar compromisso com os direitos políticos das mulheres.

As sufragistas criaram jornais, escolas e conexões com o movimento global. Bertha Lutz foi uma das principais articuladoras. Cibele Tenório afirma: “Nada ocorreu sem luta e inteligência estratégica para conseguir aliados.”

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