As funerárias francesas enfrentaram um aumento expressivo na demanda durante a intensa onda de calor que atingiu o país no fim de junho. Segundo profissionais do setor, o número de mortes cresceu significativamente, especialmente entre idosos e pessoas vulneráveis.
Em Orléans, o empresário funerário Gautier Caton relatou que precisou alugar cinco contêineres refrigerados para armazenar corpos devido ao volume incomum de atendimentos. Com quase 25 anos de experiência na área, ele afirmou nunca ter presenciado uma situação semelhante.
O aumento das temperaturas, que chegaram a 43,8°C em algumas regiões da França, resultou em 2.025 mortes acima da média durante o período, de acordo com dados preliminares das autoridades de saúde. Em Paris, o número de óbitos cresceu cerca de 65%, enquanto na região Centre-Val de Loire o aumento foi próximo de 50%.
Especialistas apontam que, apesar dos avanços nos sistemas de alerta criados após a histórica onda de calor de 2003, que provocou quase 15 mil mortes adicionais no país, ainda existem vulnerabilidades estruturais em hospitais, escolas e instituições de longa permanência para idosos.
Segundo François Bourdillon, ex-diretor da agência francesa de saúde pública, a França melhorou sua capacidade de monitoramento e resposta às ondas de calor, mas ainda precisa investir na adaptação de sua infraestrutura para enfrentar eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes.
A situação também expôs dificuldades em casas de repouso. Em algumas instituições, moradores precisaram permanecer em áreas comuns climatizadas para escapar das altas temperaturas. Dados do Ministério da Saúde francês indicam que 41% das instituições de longa permanência consultadas não possuem áreas comuns com ar-condicionado, enquanto menos de 10% contam com climatização nos quartos dos residentes.
O governo francês anunciou investimentos de centenas de milhões de euros para ampliar a climatização em hospitais e casas de repouso. No entanto, críticos avaliam que os recursos ainda são insuficientes diante dos desafios impostos pelo envelhecimento da população e pelas mudanças climáticas.
Profissionais do setor funerário também relataram aumento de mortes de pessoas que viviam sozinhas. Segundo Caton, durante a onda de calor, a proporção de atendimentos relacionados a óbitos ocorridos em residências saltou de cerca de 25% para 80% dos casos atendidos por sua empresa.
As autoridades francesas seguem monitorando os impactos da onda de calor, enquanto especialistas alertam para a necessidade de medidas estruturais que reduzam os riscos associados aos eventos climáticos extremos.






