A Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) já destinou cerca de R$ 2,8 bilhões em máquinas, veículos e equipamentos desde o início do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O valor supera os aproximadamente R$ 2,6 bilhões registrados durante toda a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), entre 2019 e 2022.
Entre os itens distribuídos estão quase 3 mil tratores, mais de 2 mil carretas, 1.037 caminhões e 828 retroescavadeiras. Os equipamentos foram entregues a prefeituras, governos estaduais, associações e consórcios públicos por meio de emendas parlamentares.
Criada para promover o desenvolvimento regional no semiárido, a Codevasf ampliou nos últimos anos sua atuação na execução de recursos indicados pelo Congresso Nacional. O modelo transformou a estatal em um dos principais instrumentos de distribuição de equipamentos ligados a bases eleitorais de parlamentares.
Os repasses cresceram de R$ 346 milhões em 2019 para R$ 806 milhões em 2025. O maior volume ocorreu em 2022, ano eleitoral, quando as doações chegaram a R$ 1,2 bilhão. Somente em 2026, os envios já somam R$ 154 milhões.
Atualmente, a estatal é comandada por Lucas Felipe de Oliveira, indicado pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Até o ano passado, a indicação da presidência era ligada ao deputado federal Elmar Nascimento (União-BA).
Estados e municípios mais beneficiados
Entre os maiores beneficiados pelas doações desde 2023 estão governos e municípios do Amapá e da Bahia. O governo do Amapá lidera os recebimentos, com R$ 32,7 milhões em equipamentos.
Na sequência aparecem:
- Prefeitura de Pedra Branca do Amapari (AP) — R$ 9,4 milhões;
- Prefeitura de Campo Formoso (BA) — R$ 8,5 milhões;
- Consórcio Cimams (MG) — R$ 8 milhões;
- Prefeitura de Santana (AP) — R$ 7,9 milhões;
- Prefeitura de Anápolis (GO) — R$ 7 milhões.
A Bahia foi o estado que mais recebeu doações no atual governo, acumulando R$ 379,8 milhões, sendo R$ 165 milhões por meio de emendas de bancada.
Auditorias apontam falhas
Relatórios da Controladoria-Geral da União (CGU) identificaram ausência de critérios técnicos em parte das compras realizadas pela estatal. Auditorias apontaram justificativas genéricas para aquisição de máquinas pesadas e falta de estudos detalhados sobre a necessidade dos equipamentos.
Segundo os órgãos de controle, em diversos casos as quantidades foram definidas com base em “indicações parlamentares”, sem documentação suficiente que comprovasse a demanda local.
As auditorias também apontaram problemas em contratos de sistemas de irrigação voltados à agricultura familiar, avaliados em cerca de R$ 190 milhões.
Entre os itens com maior volume de gastos estão:
- Caminhões — R$ 484,2 milhões;
- Tratores — R$ 395,9 milhões;
- Retroescavadeiras — R$ 280,5 milhões;
- Motoniveladoras — R$ 129,9 milhões;
- Pás carregadeiras — R$ 75,8 milhões.
Defesa da estatal
Em nota, a Codevasf afirmou que atua na execução de políticas públicas definidas pelo Congresso Nacional e sustentou que os recursos são aplicados com transparência.
A companhia declarou ainda que as licitações possuem estudos técnicos preliminares e que muitas compras utilizam sistema de registro de preços, o que não obriga contratação imediata de todo o volume previsto.
Já a assessoria do senador Davi Alcolumbre afirmou que as emendas seguem regras constitucionais e mecanismos de publicidade previstos na legislação vigente.






