Há sete anos, o distrito de Guangming simplesmente não existia. A decisão de ergue-lo ocorreu depois que empresas estabelecidas em Shenzhen, na China, identificaram uma escassez de algumas peças, pesquisas de ponta e, principalmente, de cientistas.
Como resultado, o governo decidiu criar uma cidade inteira da ciência, hoje com 1 milhão de habitantes.
Se por décadas o local era ocupado por fazendas, hoje ele conta com centros para ciências médicas, IA e novas matérias. Durante a visita da reportagem do ICL Notícias ao local, os responsáveis pelo distrito explicaram como a ambição é de que a região se transforme num dos epicentros do mundo para a criação de “ciência original”.
Em outras palavras: Guangming é parte de uma estratégia de soberania tecnológica.
Para os chineses, a ideia de apenas ser a “fábrica do mundo” está ultrapassada. Hoje, mais de 100 mil empresas estão sediadas no novo distrito, incluindo 1 mil companhias classificadas como “especializadas e sofisticadas” e mais de 2,2 mil empresas nacionais de alta tecnologia.
Uma das vitrines é o a Infraestrutura de Biologia Sintética, a maior plataforma de biologia sintética padronizada, automatizada e inteligente do mundo. Por menos de 100 reais, um cientista pode solicitar que sua pesquisa seja testada no local em equipamentos automatizados onde braços robóticos realizaram procedimentos com precisão.

Desde o seu lançamento oficial em 2024, a instalação tem prestado serviços a 97 universidades, institutos e empresas. Mais de 120 empresas de biologia sintética se estabeleceram em Guangming, avaliadas em um total de 5 bilhões de euros.
“No século 20, construíamos ferrovias e aeroportos”, contou um dos cientistas que apresentava o local. “Hoje, essa é a infraestrutura que estamos erguendo para abrir novos horizontes”, disse.
Hoje, Guangming já é a sétima maior cidade de ciência da China, num ranking que conta com mais de cem locais espalhados pelo país.
O caso, de fato, não é isolado. O setor de pesquisa e inovação foi selecionado pelo governo chinês como propriedade no desenvolvimento econômico do país.
Se pelas ruas das cidades do país já se pode ver carros sem motoristas circulando, a compra de produtos apenas mostrando a palma da mão ou robôs disputando maratonas – e vencendo – o foco está orientado nos avanços e controle da Inteligência Artificial.
Há dez anos, o Conselho de Estado da China apresentou o primeiro esboço de sua estratégia de IA. Naquele momento, foi estabelecido que, até 2030, a China deveria ter desenvolvido sua “competitividade na indústria de IA” a um “nível de liderança mundial”.
Quando a estratégia começou a ser implementada, ela foi acusada de ser ambiciosa demais para um país que ainda era visto como culpado por piratear produtos estrangeiros.
Hoje, a realidade revela que a China já ocupa um dos postos de liderança no segmento, em meio a uma “corrida armamentista” épica em IA.
Segundo um levantamento da Universidade de Stanford, a liderança incontestável dos EUA por anos já não é mais uma garantia. Em 2025, a China já ocupou o primeiro lugar em publicações e citações de pesquisas em IA e está implantando robôs industriais integrados com IA a uma taxa quase nove vezes maior que a dos EUA.
O registro de patentes – um dos termômetros mais importantes para avaliar o êxito de um país em inovação – também revela uma transformação global sem precedentes nos últimos 80 anos.
Em 2024, a China representou mais de 74% das concessões de patentes de IA no mundo, em comparação com os distantes 12% dos EUA e os míseros 3% da União Europeia.
De acordo com a Organização Mundial de Propriedade Intelectual, a China submeteu metade de todos os pedidos de patentes do mundo. Um total de 1,8 milhão de pedidos de patentes foram apresentados pelo país naquele ano, três vezes o número apresentado aos EUA.
No que se refere às patentes internacionais, a China também lidera com ampla vantagem. Em 2025, os pedidos de patentes de Pequim aumentaram 5,3%, chegando a 73.718, enquanto os EUA registraram 52.617 — uma queda de 3%.
2025 foi o quarto ano consecutivo de declínio nos pedidos de patentes dos EUA. O ranking é completado pelo Japão, com 47.922, Coreia do Sul, com 25.016, e Alemanha, com 16.441.
Entre as empresas, mais uma vez a China lidera. A gigante de tecnologia Huawei foi, em 2025, a maior responsável por pedidos de patentes, com 7.523 casos. A empresa americana Qualcomm aparece apenas com 3 mil pedidos.
Por: ICL






