Se ganhar na altitude já é difícil, imagina vencer por um placar elástico? Mas não é que o Flamengo já conseguiu isso? E foi justamente no palco da estreia do time nessa Libertadores: o estádio Garcilaso de la Veja, localizado 3.350 metros acima do nível do mar, em Cusco, no Peru
Para ter noção da dificuldade, em 18 jogos acima dos 2.500 metros, o Flamengo perdeu metade. Empatou outros cinco e venceu só quatro vezes. Três delas por apenas um gol de diferença: 2 a 1 no Jorge Wilstermann nos 2.560m de Cochabamba, na Bolívia, em 1981; 1 a 0 no San José nos 3.700m de Oruro, também em solo boliviano, em 2019; e 3 a 2 na LDU nos 2.850m de Quito, no Equador, em 2021.
Nenhum desses triunfos chegaram perto do 3 a 0 em cima do Cienciano na Libertadores de 2008. E olha que curioso: a maior vitória do Flamengo na altitude foi antes de o clube ficar rico, ainda no período de “vacas magras”. Aquele time dirigido por Joel Santana tinha Bruno, Léo Moura, Fábio Luciano, Angelim, Juan, Cristian, Ibson, Kleberson, Toró, Renato Augusto e Souza.
— É engraçado, tenho uns flashes. Lembro que o adversário tinha um ponta direita que deu bastante trabalho (Guizasola), jogador muito rápido, forte. O placar favoreceu, a gente fez o primeiro gol e conseguiu jogar mais posicionado. O segundo saiu de contra-ataque também, então teve toda essa estratégia para conseguir suportar bem o jogo e a altitude. E lembro muito da viagem, do trajeto bem longo, cansativo… Para esse jogo não me recordo, mas para outros fizemos treinos em piscina, movimentos embaixo d’água, sem respirar. Em outros a gente fez câmara hiperbárica, respirando ar rarefeito. São estratégias que cada comissão técnica usa — disse Juan em entrevista ao ge.
Mas diferentemente do que o placar sugere, não foi um jogo fácil. O Cienciano não perdia em casa na época há nove meses, e o primeiro tempo só terminou 0 a 0 porque os peruanos pararam em Bruno. Na volta do intervalo, Renato Augusto aproveitou contra-ataque para fazer 1 a 0 aos oito minutos. Os mandantes seguiam melhores e obrigando o goleiro rubro-negro a grande defesa.
Até que aos 17 Bazalar foi expulso por falta dura em Léo Moura. Com a vantagem numérica, o Flamengo ganhou fôlego e campo. Mas só foi marcar o segundo aos 32 minutos, em mais um contra-ataque que terminou nos pés de Toró. E aos 48, nos acréscimos, ainda deu tempo do Juan cobrar uma falta na gaveta para fechar o 3 a 0.
— Para o chute ao gol facilita, a bola fica mais rápida, é mais difícil para o goleiro. Ali na hora da falta estava mentalizado que ia bater no canto do goleiro. Uma bola rápida, que o ar rarefeito deixa mais rápida ainda. Não mudei tanto a batida.
Aos 44 anos, o ex-lateral-esquerdo rubro-negro trabalha atualmente como diretor de futebol do Cosmopolitano Sports, time de base no interior de São Paulo. E continua acompanhando o Flamengo mesmo à distância. Ele deu dicas para os jogadores no retorno do clube a Cusco depois de 18 anos:
— Tem que ter controle de dosar, não querer atacar toda hora senão depois não dá para voltar, falta ar. Tem que ter esse controle e ir na hora certa. Jogar bem posicionado, fazer um grande jogo taticamente, de muita concentração, evitando desgaste físico na medida do possível. Nem tudo a gente controla, fazendo um jogo bem posicionado o Flamengo vai fazer um grande placar também.
Quando a bola rolar no Garcilaso de la Vega às 21h30 (de Brasília) nesta quarta-feira, o Flamengo tentará repetir o roteiro agora contra outro adversário da cidade: o Cusco FC, antigo Real Garcilaso que mudou de nome para buscar uma identificação mais forte com o município.🗞️ Leia mais
Por Globo Esporte






