A extrema direita não governa. Ela devasta

Não há ingenuidade possível diante da extrema direita. Não se trata de uma “alternativa política”, tampouco de um “excesso retórico” dentro da normalidade democrática. Trata-se de um método de poder cujo funcionamento depende da destruição deliberada daquilo que já existe. A leitura de que Donald Trump não busca genuinamente a paz — seja em Gaza, seja na Venezuela — não é conjectura ideológica: é a consequência lógica de dados empíricos, decisões documentadas e de uma análise estrutural elementar da política internacional. Onde a extrema direita opera, a paz é sempre contingente; os interesses materiais e o controle são sempre centrais.

Trump não rompe com a ordem liberal por acidente. Ele a corrói por método. A diplomacia é substituída por chantagem, o multilateralismo por submissão, e a mediação política por coerção direta. A paz, quando mencionada, aparece como slogan vazio — jamais como política pública verificável. Esse padrão não é exceção, é regra. Gaza e Venezuela são apenas expressões diferentes do mesmo mecanismo: conflito instrumentalizado como ferramenta de poder.

A comparação com Jair Bolsonaro não apenas procede — ela se impõe. Ambos compartilham a mesma arquitetura autoritária: desprezo pelas instituições, guerra permanente contra a imprensa, hostilidade à ciência, culto à força bruta e tentativa constante de converter o Estado em extensão de um projeto pessoal de poder. A diferença entre eles não é moral nem conceitual, mas estrutural. Trump atua no núcleo do sistema internacional; Bolsonaro, em sua periferia. Por isso, quando Trump corrói, o mundo sente. Quando Bolsonaro cai, o dano é grave; quando Trump cai, o impacto é sistêmico.

A extrema direita não constrói absolutamente nada. Não constrói economia sólida, não constrói política externa estável, não constrói coesão social, não constrói instituições duráveis. Seu único produto consistente é a destruição: destruição da confiança pública, destruição dos freios institucionais, destruição do debate racional, destruição da própria ideia de verdade. Ela não governa — ela ocupa, vandaliza e abandona.

Depois de destruir, a extrema direita encena a farsa final: apresenta-se como “solução” para o caos que ela mesma produziu. Mas essa solução é uma fraude política grosseira. Não há um único dado sólido, replicável e consistente que comprove benefícios estruturais sob governos de extrema direita. O que existe é aumento de instabilidade, degradação institucional, concentração de poder e aprofundamento de desigualdades. O resto é propaganda.

Trump não é um acidente histórico, nem Bolsonaro foi. Ambos são sintomas de uma crise mais profunda da ordem liberal internacional, na qual valores como paz, direitos humanos e cooperação sobrevivem apenas enquanto não ameaçam lucro, poder ou controle. No momento em que ameaçam, são descartados sem hesitação. A extrema direita não falha em cumprir promessas porque erra; ela falha porque nunca pretendeu cumpri-las.

A verdade incômoda é simples: a extrema direita precisa do colapso para existir. Ela se alimenta do medo, do ressentimento e da desinformação. Não oferece futuro algum, porque seu projeto é regressivo por definição. Onde ela passa, não deixa alternativa viável — deixa apenas terra arrasada, instituições enfraquecidas e sociedades mais pobres, mais violentas e mais fragmentadas.

Não há conciliação possível com um método político que vive da corrosão permanente. Tratar a extrema direita como “opinião legítima” é normalizar a destruição. Ela não é resposta para crise alguma; ela é a própria crise convertida em projeto de poder.

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